PREFÁCIO



                          O Escritor João de Assis,  é um Escritor do amor. Seus textos descrevem as minúcias, as idas e vindas... e as entrelinhas da sensibilidade amorosa.
Em Garra Italiana, o autor, com o seu olhar amoroso, conta a saga de um casal italiano,  que sonha viver uma nova história,  cheia de amor e confiança, ao deixar a Itália e partir para o Brasil, para construir um projeto de vida  nas terras brasileiras.

                             O sonho permeado de esperanças, logo começa a ficar pelo caminho, quando a jovem esposa, com o forte desejo de ser mãe, torna-se estéril ao perder o seu primeiro bebê, num aborto espontâneo, durante a viagem do casal ao Brasil.

                          Ao lado dessa tristeza, está o jovem médico que comete o seu primeiro grande erro na medicina. O  conflito o acompanha e o faz repensar valores.
A história é riquíssima em detalhes e motiva  o leitor a vivenciar os cenários da história, as emoções dos encontros e desencontros. Retrata os valores éticos e morais daquele momento. Reafirma  os pontos fortes e fracos da imigração italiana no Brasil.

                                  Pode-se dizer que se trata de um romance que pode receber o olhar da história, cheio de momentos dramáticos e outros felizes,  dentro da narrativa de uma grande história. Histórias tristes, como no momento das perdas, das decisões e decepções  e outras vezes alegres, cheias de esperança e  garra para vencer os desafios. A coragem,  o encontro com a verdade, o respeito, a generosidade penso que sejam as grandes lições deixadas nesta Obra.
                           O Escritor João de Assis, ao escrever este Livro, convida seu leitor a uma viagem instigante, sob o signo do amor. Um livro dedicado aos riscos de viver o amor do ponto de vista da aventura num mundo novo, desconhecido, na incompletude do ser humano.
                                   Ao escrever este texto, expresso a minha profunda admiração ao Escritor João de Assis, que  com suas obras, permite estabelecer um repensar  sobre os valores do mundo atual.  A leitura de Garra Italiana  tornará o leitor um ser humano mais compreensível daquilo que realmente pode valer a pena. Um grande legado!



                                    Elza Francisco

                Vice-presidente da Academia Cruzeirense de Letras e Artes





                                   Dedicatória.



Dedico este trabalho à família de meu muito amado irmão Paulo Henriques de Assis, que foi a âncora que permitiu aos meus pais conseguirem criar uma prole de dez filhos. Portanto, á ele e á sua família quem eu tanto amo: Rosália, Luciana, Maurícia, Paulo  e netos. Aproveito aqui para expor a poesia que enaltece e ganha corpo, para expressar minha gratidão á ele.


                     Carta ao meu irmão Paulo:



Ninguém nesta vida merecia receber tantas glórias, como você, meu irmão...
Você foi o parceiro que esteve sempre junto [a nossos pais, ajudando-os a sustentar sua prole... que não era pequena...você foi o primogênito...

Você se comprometeu a se casar, somente depois de ver sua irmã mais velha, casada...
Você, ao contrário de todos os seus amigos, abdicou do direito de possuir um carro, quando na verdade, se não fosse pelos seus compromissos firmados com a família e com Deus, você bem que poderia ter tido um...

Por ter sido o mais velho... por ter participado muito cedo dos trabalhos e das dificuldades inerentes à criação de uma família numerosa e pobre... Você ficou muito prejudicado, meu irmão... Você não teve infância e nem juventude... você sempre foi excessivamente preocupado, nervoso e austero. Ingredientes estes, que tenho comigo, ter sido a causa principal que fez com que partisse mais cedo, para a casa do Pai...

Hoje,ao aproximar-me do Grande Cais, de onde você partiu - o Cais da Idade e do Tempo, percebo que um pouco de tudo o que somos e de tudo que temos, devemos muito a você, querido irmão...

Por você eu oro ao Pai e peço humildemente, que Ele o tenha em sua roda... E devido a sua conduta irrepreensível aqui entre nós, seus irmãos de sangue, crença e luz,  tenho certeza que na Paz do Senhor você se encontra... O que, também nos dá a certeza de que realmente você só pode estar bem, e tão bem, a ponto de nos dizer, se fosse permitido:

"Não chores por mim...Aqui existe muita luz e muita paz... Aqui eu espero por vocês todos... Aqui não existe pressa... Aqui não existe ansiedade e nem stress. E creiam, se o que estou dizendo não fosse verdade, então não se poderia chamar este lugar aqui, de Céu..."

Quero aproveitar esta carta para dizer a você aquilo que muitas vezes, por acanhamento ou tolo machismo, deixei passar em branco, nas oportunidades que tive de lhe falar... e você foi embora sem ouvir de mim um "eu te amo" ou um simples, "gosto muito de você..."

Você irmão, foi a nossa âncora...o nosso norte...
Obrigado de coração... e eu digo isso em meu nome e de todos aqueles que você, com sua força, com seu trabalho, com seu suor, ajudou a sobreviver e a encarar este mundo de Deus...

Talvez, se não fosse pelo seu firme caráter e sua firme personalidade, nossa história... a história da nossa Família, fosse hoje, escrita de forma muito diferente...

 Obrigado irmão... nosso segundo pai... Eu... eu te amei... e mesmo sucumbido por esta  saudade que sinto, ainda o amo e muito...


Seu irmão João de Assis




                 Capítulo 01



Há muitos anos atrás, mais ou menos por volta do ano de 1910, muitos jovens, como também muitas famílias de italianos, vieram para o Brasil afim de trabalhar na lavoura, alimentando nos seus corações o projeto de se tornarem, com o passar do tempo, proprietários de terras férteis, que lhes garantissem a sobrevivência.
E esta é a história de dois jovens italianos que resolveram se casar, e migrar para o Brasil, afim de iniciarem uma vida nova, num pais que naqueles tempos difíceis, estava oferecendo a cultura do café, como uma grande opção para os agricultores.
A Itália por sua vez, vivia uma série de dificuldades impostas pelo desemprego em massa e as primeiras consequências negativas, que antecederam a Primeira Guerra Mundial.
E inebriados deste sonho, e tentando fugir de uma grande depressão econômica, uma semana depois da celebração de suas bodas, embarcaram no navio Andaluz, de nacionalidade espanhola, com destino a América do Sul, e mais precisamente ao Brasil.
Encostados um ao outro, e os dois na beirada do convés do navio, olhavam para seus irmãos e familiares que os haviam levados até o cais. E neste abanar de mãos, com o vento soprando contra seus rostos, fustigava seus cabelos e levava as lágrimas que brotavam em seus olhos, saídas de dois semblantes que mostravam dois sorrisos nos lábios. E à medida que o navio se desgarrava do cais, e as imagens ficavam difusas, seus olhos pousaram numa serra da costa italiana, que até ali, lhes embalaram os devaneios de crianças.
--- Havemos de ser felizes... Deus recompensará nosso esforço.... e depois Giovanna... são duas bocas a menos... para dividir a miséria de vida que nossas famílias estão vivendo.
--- Que Deus te ouça, Alessandro...e não nos puna por não aceitar-mos sua vontade.
E quando seus olhos já não mais distinguiam o verde do continente italiano, sentaram se no chão do próprio convés e Giovanna pousando sua cabeça no peito de seu marido, adormeceu. Para Alessandro foi difícil dormir, suas pálpebras pesavam, mas os pensamentos efervesciam, imagens e sons que seu coração recordava e ao mesmo tempo antecipava, teimavam em permanecer-lhe na mente. Mas depois de algumas horas, por fim também dormiu.
Era uma época em que estava acontecendo uma grande evasão rural no Brasil. Com o país começando a se industrializar, a população rural achou o seu eldorado nas capitais, onde a industria pagava salário melhor para um trabalho menos árduo. Em vista desta dificuldade, já há alguns anos, que o governo brasileiro tinha começado um programa de importação de mão de obra estrangeira, pagando passagem para quem quisesse vir para o Brasil em busca de trabalho e se fixar no interior. Isso ajudou muito nosso país, pois os estrangeiros que se aventuravam, vinham com grande conhecimento de agricultura. E vieram nesta época suíços, japoneses, italianos e alemães.
E foi atendendo a esta oferta de emprego que Alessandro e Giovanna, resolveram mudar definitivamente para o Brasil. Oriundos de famílias pobres, juntaram o pouco que conseguiram economizar para o casamento e ainda receberam ajuda em dinheiro, de todos seus familiares. Desta forma então iniciaram esta aventura de além mar.
Alessandro tinha nesta época 22 anos e era o mais novo dos quatro filhos, todos homens. Moço alto e espadaúdo. Forte, como o era seu pai. Tinha cabelos castanhos e lisos, olhos verdes e sobrancelha espessa. Nariz, não muito afilado e pele clara. Usava, como todo bom italiano um boné feito de lã, ou de flanela, ou mesmo de pano, a temperatura é que lhe ditava, qual deles deveria ser usado. Vinha de família religiosa e de boa índole.
Giovanna por sua vez, apesar da pouca idade pois se casara com apenas 17 anos, possuía já uma maturidade muito grande, própria das mulheres italianas, cuja infância passavam na agricultura. Tinha cabelos castanhos e compridos até à cintura. Lindos olhos também castanhos e uma pele clara e delicada, apesar da forte exposição ao sol diário. Tinha boa altura, mas mesmo assim era um pouco mais baixa que Alessandro. Como seu marido, também vinha de família religiosa, e era a terceira de uma prole de cinco irmãos, três mulheres e dois homens.
A viagem foi muito demorada, quase sessenta dias, fazendo escalas em vários portos da Europa. Como a passagem grátis, que eles tinham direito, paga pelo governo brasileiro, era de terceira categoria, era de se esperar que não seria uma viagem muito confortável. Além do que, em vista deste programa brasileiro, os proprietários dos navios exploravam e em muito, a capacidade das embarcações, isto então sacrificava mais ainda o pouco conforto que poderiam ter, viajando nestas condições.
A eles foi destinado uma cabina em estado muito precário, situada no porão habitável, de nível mais baixo em relação ao convés. De forma que durante a viagem, eles só se recolhiam a esta cabina para dormir, e procuravam passar o resto do tempo ocioso, no próprio convés.
O Andaluz já estava próximo ás águas brasileiras, quando numa manhã, Alessandro acordou com barulhos de vômitos, dados por Giovanna, que ajoelhara no vaso sanitário de metal, que havia na cabina.
--- Minha santa, o que está te acontecendo. E se levantando depressa foi em sua direção. ... O que será que você comeu, para te fazer tanto mal assim...
--- Não, estou assim desde anteontem. a principio achei que era o balanço do barco... Giovanna entremeava sua fala e os vômitos que fazia.
--- Mas filha, porque não me pôs a par?
--- Eu queria ter certeza primeiro... disse ela... eu acho... que estou grávida...
--- Quem? Você?... mas isso!...  é a melhor notícia que você poderia me dar... e pegando-a no colo,  levou-a de volta para o colchão, que ficava no  canto do chão da estreita cabina. E continuou falando. Hoje você não deve nem sair do quarto, a partir de agora repouso completo.
--- Alessandro, acontece que desde ontem a noite, depois que você dormiu, comecei a perder sangue e já troquei várias toalhas, mas não há meio dele se estancar.
--- O quê? Uma hemorragia? Fique então aqui e procure se manter calma, que eu vou procurar o médico de bordo.
E trocando rapidamente suas roupas, depois de ajeitar o travesseiro de Giovanna e cobrí-la direito, saiu ás pressas. Depois de rondar todo o convés, se dirigiu à Ponte de Comando, e relatou ao Capitão o que estava acontecendo. Este então largou o barco nas mãos de seu imediato, e foi até à cabina do medico. Depois de bater exaustivamente na porta, o capitão disse:
--- Ele já se levantou e deve estar na enfermaria, temos uns pacientes por lá... vamos.
E caminhando por vários corredores chegaram finalmente onde o médico se encontrava, justo na enfermaria. Esta não era grande, mas tinha quatro pacientes ocupando quatro dos dez leitos que ali havia. Quanto ao médico, este era ainda um pouco novo, não aparentava mais que 25 anos, e estava examinando um senhor, com indícios de hepatite. E notando a presença do capitão, retirou seu estetoscópio dos ouvidos e se levantando, o cumprimentou.
--- Bom dia capitão... Bom dia também, meu amigo. Disse ele olhando para Alessandro. O que os trazem a mim assim tão cedo?
--- Bom dia doutor, disse o capitão, e continuou. ... é este jovem aqui. Pelo que me relatou, a esposa dele está tendo uma hemorragia.
--- È doutor, e segundo ela me disse, perdeu sangue a noite toda. Só agora cedo é que  me falou. - disse Alessandro, manifestando toda sua preocupação.
--- Tudo bem... eu já vou lá, espere só eu terminar de examinar este paciente aqui. E falando assim abaixou-se novamente para retirar o termômetro que tinha colocado no doente. O capitão então falou com Alessandro:
--- Pois bem... você espere aqui, que o doutor vai te acompanhar logo até ela. Eu vou voltar ao comando da Ponte.
--- Pois não capitão. Esteja à vontade e, muito obrigado pela ajuda.
Não demorou mais que cinco minutos e o médico então saiu em companhia do rapaz para ver sua esposa. Depois de andar por vários corredores e descerem por várias escadas, chegaram finalmente. Alessandro passando a frente para abrir a porta, encontrou Giovanna caída ao lado do vaso sanitário onde fizera vômitos secos até perder suas forças. No meio de suas pernas havia um lençol embolado, todo embebido em sangue. E entrando correndo, dizia ao mesmo tempo quase chorando:
--- Oh! minha santa... eu não devia ter te deixado sozinha... e pegando-a nos braços trouxe-a novamente para o colchão, e logo que deitou-a, sentiu as mãos do médico forçar seus braços para ter acesso à paciente. Alessandro se afastou um pouco e chorava baixinho. O Médico depois de examiná-la e tomar seu pulso bem como, sua temperatura disse.
--- Ela não pode ficar aqui, ela está abortando e perdeu muito sangue. Sua pressão está muito baixa e precisa de muitos cuidados. Vamos fazer uma espécie de rede com os cobertores e levemo-la, nós dois mesmos, para a enfermaria.
E rapidamente prepararam e se puseram  à caminho. Ao chegar lá, depois de deitá-la numa das camas, o médico chamou uma enfermeira, e mandou que a preparasse para uma curetagem, e voltando para o rapaz, colocando-lhe a mão no ombro, conduziu-o para fora da enfermaria, dizendo-lhe:
--- Dos males o menor?  Ela é nova e poderá ainda te dar outros  filhos; mas agora preciso fazer uma limpeza total e retirar o que sobrou.
--- Mas e ela doutor?... Corre perigo de vida?
--- Devo dizer-lhe que sim, infelizmente... primeiro porque isto aqui não é um centro cirúrgico, portanto os recursos não são os mesmos de um hospital... e depois, ainda por cima,  tem o fato seríssimo da perda de muito sangue. Mas Deus é grande e para Ele nada é impossível...  por enquanto fique aqui fora e aguarde até que eu te chame.
Ali fora, Alessandro ajoelhou e ficou durante o tempo todo rezando e pedindo à Deus pela vida de Giovanna. Era uma emoção que saindo dos mais distantes corredores da alma, mexia com seu coração e se refletia nos olhos, lágrimas insistentes corriam-lhe pela face. E foi um tempo longo, foram quase duas horas de sofrimento, sem notícias. Mas finalmente o médico saindo, disse-lhe:
--- Fizemos tudo o que podíamos fazer... ela por hora está bem, embora continue bastante fraca, mas  você pode entrar.
--- Obrigado doutor. Como é mesmo o seu nome?, perguntou Alessandro.
--- André...
--- Pois então Dr. André - disse o rapaz apressadamente, doido para adentrar a enfermaria. Que Deus te pague. Que São Genaro seja o vosso guia, obrigado.
E correndo, foi para junto da esposa. Quando lá chegou, encontrou uma enfermeira sentada na cama ao lado dela, e ela dormia. Estava muito pálida, e mais pálida ficara em meios àqueles lençóis brancos que a cobriam. Mas nem por isso deixava de irradiar a beleza de seu rosto. Em seu braço esquerdo havia uma agulha engatada em uma mangueirinha, por onde entrava em seu corpo um liquido claro, que descia do interior de um vidro, que estava suspenso em sua cabeceira.
Estático ficou com aquele quadro que deparava, sem saber o que fazer, ou mesmo o que perguntar. A enfermeira, quebrando o gelo,  disse:
--- Pode aproximar.  e pode até dar-lhe um beijo se quiser...  mas só isso.
Ao ouvir isso, ele se acercou da cama pelo outro lado e deu-lhe um beijo na face. E começando a acariciar levemente sua face, começou a falar baixinho as coisas que vinha de dentro do seu peito. Mas a enfermeira, colocando a mão em seu ombro disse-lhe, tendo o dedo indicador da mão direita verticalmente a frente dos lábios, a sugerir-lhe silêncio.
--- Nada disso... ela precisa dormir e descansar muito... se você quiser ficar mais um pouco fique, mas tem de ficar calado e evitar conversar com ela...
--- Quando é que ela vai poder sair? Perguntou aflito.
--- Isto quem manda é o médico... mas acho que ela vai ficar aqui por uns dias...
--- E eu posso ficar, para olha-la?
--- Não, eu ficarei de plantão. Aliás eu já fico mesmo todos os dias, e você quando tiver vontade de vê-la, pode vir até aqui... só não pode é ficar muito tempo porque perturba os outros pacientes.



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Com o olhar fixo no horizonte o capitão estava debruçado no peitoril da Ponte de Comando, quando o Dr. André abrindo a porta, entrou ainda usando seu guardapó branco, com o qual assiste a seus doentes.
---  Olá capitão... disse ele, entrando. ... hoje está um bom dia para tomar uns drinques.
--- Como vai Doutor?... respondeu o capitão, enquanto olhava para ele. Para quem nunca bebe, não acha um pouco cedo para começar?
--- Não... hoje eu tirei o dia para tomar um porre.
O capitão que já era bem maduro, pois sua barba grande e branca bem o mostrava, notou que havia problemas no ar. E sabedor de que o médico não era nenhum beberrão, estranhou o fato dele portar uma garrafa de uísque e tratou  logo de achar um modo de se envolver com ele, afim de tomar pé da situação. E caminhando em sua direção, disse:
--- Mas... isso nunca foi uma regra... antes porém,  para se bem beber, a gente tem é que  estar primeiramente disposto... e hoje... é... hoje parece que eu também amanheci bastante afim... vamos... vamos beber sim..., mas... vamos para o meu camarote, porque você não vai querer que eu perca o respeito da tripulação, não é?
E rindo, colocou-lhe a mão no ombro, forçando sua saída da Ponte. E caminhando uns poucos passos, logo chegaram ao camarote do capitão. Este então abrindo sua porta, fez com o médico entrasse primeiro. Fechada a porta, o velho lobo do mar, disse.
--- Sente-se aí doutor, e largue já esta garrafa. Está querendo perder o seu diploma de Médico, na sua primeira viagem depois de formado? Pois fique o senhor sabendo que para que isso aconteça, basta apenas o meu depoimento, e que eu não me afastarei um milímetro sequer desta posição, se o senhor não largar imediatamente esta garrafa.
André que tinha sentado, e se preparava para encher o copo, parou de fazê-lo. E colocando-o em cima da escrivaninha junto com a garrafa, debruçou sua cabeça nos joelhos e começou a chorar. O capitão vendo que sua ordem causou o impacto que queria, caminhou para a mesa e guardando a garrafa, voltou e sentou-se ao seu lado. E pondo a mão em cima da cabeça do jovem, provocou o diálogo.
--- Vamos... vamos... desabafe logo... só posso te ajudar se souber o que está acontecendo...
--- Ninguém pode me ajudar.... deixe-me... eu preciso ficar sozinho...
--- Chega de criancice rapaz... afinal você é a esperança destes passageiros... e eles precisam sabê-lo inteiro e são. Mas... ninguém precisa me dizer nada, para que eu  perceba que você está com um problema... por isso conte-me... ande.... vamos... É alguma coisa com relação ao velho que está com hepatite?... É?...
--- Não... é... com a moça... eu a inutilizei... isto é... eu dei uma “barbeirada” como se diz na gíria... eu não mereço continuar clinicando.
--- Como assim? Explique direito... que erro você cometeu?... E numa fração de segundos, o capitão experiente como era, percebendo a gravidade do problema, mudou sua pergunta, imediatamente.
---
E... que erro você cometeu com os parcos recursos que existe dentro daquela enfermaria? Eu quando soube, pelo marido dela, que a hemorragia tinha durado toda uma noite, imaginei a dificuldade que você ia ter.
--- Você não entende, não foi a hemorragia, esta poderia até tê-la matado, mas não foi ela... fui eu... que bisonhamente a esterilizei. Esta pobre mulher não mais poderá ser mãe... eu, justamente eu... acabei com a vida dela...  acabei com os sonhos dela...
--- Doutor... me diga uma coisa... esta intervenção se tivesse sido feita em um centro cirúrgico, com toda aparelhagem necessária, e principalmente com iluminação adequada, o senhor teria cometido este erro?
--- Claro que não... mas o que isso resolve agora?...
--- Mas então? O que o senhor queria que acontecesse dentro de uma enfermaria praticamente improvisada? E completamente às escuras, se a compararmos com uma sala apropriada? E depois?... os balanços do barco?  O senhor doutor, tem que levar em conta tudo isso e até mesmo o fato de que, nem um bisturi apropriado para o serviço que o senhor tinha que fazer, o senhor não possuía.
--- Mas sabendo disso, eu tinha que ter tentado estancar a hemorragia, e esperar chegar à terra, e não me meter a besta, como o fiz.
--- Pois doutor, eu não sou médico, mas me diga uma coisa... se realmente esperasse este tempo que o senhor fala, e veja que ainda falta três dias para a viagem terminar... me responda com franqueza... o que poderia acontecer com ela?
--- Infecção... gangrena... mas, ainda assim acho que deveria ter esperado.
--- Pois doutor... se ela morresse nesta situação, eu juro que faria tudo para cassar seus direitos de médico... mas graças à Deus você acabou foi fazendo um milagre,  salvando a vida dela... agora deite-se ai um pouco e procure dormir... e quando acordar, venha conversar comigo na Ponte.
André ficou sentado na poltrona do camarote, e o pouco que já tinha bebido, foi o suficiente para fazê-lo dormir. Acordando mais tarde, sentou-se e ficou a pensar em tudo que tinha se passado, e em tudo que tinha ouvido do capitão. E agora mais sereno, levantou-se e foi  novamente à Ponte de Comando.
Desta vez, abriu a porta e entrou calado. O capitão que o viu entrar, logo o chamou para frente do parapeito, onde estava já há algum tempo, vendo os variados tipos de danças que os passageiros faziam, pois ali tinham grupos de várias nacionalidades. André se aproximou, meio envergonhado pela bebedeira, mas ainda não muito convencido de sua inocência. E debruçando no parapeito, disse:
--- Obrigado por deter-me, e principalmente por suas palavras.
--- Doutor a vida nos ensina muitas coisas, e se a cada coisa que ela nos ensina, recorrermos à bebida, seremos em pouco tempo inveterados alcoólatras. E depois, eu não estou acobertando o senhor em nada, apenas disse que as condições precárias que o senhor tinha para fazer um determinado trabalho, foi sem duvida nenhuma, a responsável pela consequência.
--- Tudo bem... mas eu não quero falar mais sobre isso, não... eu vim aqui, para  pedir ao senhor um conselho.
--- Pois não... sobre o quê? Indagou o capitão.
--- Na minha posição o que o senhor faria? Chamaria ou não os dois para uma conversa franca?
--- Não... veja bem doutor. Eles estão praticamente em “lua de mel”.... até que eles venham um dia saber a verdade, se passará algum tempo... e eu preferiria deixa-los viver este tempo, por menor que ele seja, em igualdade de condições com os outros casais normais... e depois doutor... o senhor acredita em milagres?
--- Acho que isso não vem ao caso? Respondeu ele.
--- Pois meu caro... eu acredito e muito. E depois, assim como o senhor disse que o escuro o fez errar, porque não acreditar também, que o escuro tenha lhe incutido um erro que não cometeu?  Tudo é possível... e tem outra coisa doutor... quando eles descobrirem a verdade, e queira Deus que seja daqui há alguns anos, pelo menos, eles estarão mais preparados para receberem esta notícia, que hoje.
--- Tudo bem... só espero que mais tarde eu não me arrependa de ter me omitido, hoje. Dizendo isso, foi se retirando.
--- Se tiver bom senso, doutor... nunca arrependerá desta posição, acredite-me. Onde vai?. Perguntou.
--- Vou dar uma olhada em meus pacientes... até logo mais no jantar.



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Estes últimos dias estava sendo um verdadeiro tormento para Alessandro. Pois não tendo nada para fazer, ocupava seu tempo entre as visitas rápidas à enfermaria, e o convés do navio. Seus companheiros de viagem, principalmente depois que a notícia do aborto se espalhou, convidavam-no insistentemente para participar das danças e dos corais que faziam, cantando “Ó sole mio”, “Santa Luzia” e tantas outras músicas tradicionais, que desde o primeiro dia de viagem aconteciam em qualquer canto do navio. Mas, ele simplesmente se negava a participar, mesmo contrariando toda aquela musicalidade própria dos italianos, que naturalmente também ele possuía, mas que mantinha fechado em um casulo, dentro de sua solidão. Quando ia à enfermaria, ficava um pouco com sua mulher, procurando elevar sua moral fazendo junto com ela, planos para o futuro. Mas quando voltava para o convés, ficava na maioria das vezes com o olhar fixo no horizonte, talvez  “viajando” de volta ao passado, apesar deste ainda estar bem recente. Mas a solidão das horas sem Giovanna, acabava levando-o de volta às terras que o vira nascer. E mesclando ideias vindas de um passado conhecido, com as de um futuro desconhecido e por isso mesmo incerto, chegava a ter medo, mesmo sendo destemido por natureza italiana. Mas pensasse o que pensasse, jamais dividia estes temores com sua esposa, pois ele sabia que sua permanência no Brasil, ia depender e muito da aceitação dela.





                 Capítulo 02



Finalmente a viagem chega ao seu final. Eram quase 9 horas da manhã quando o navio recebeu ordens para encostar no cais da cidade de Santos. No barco o dia já tinha começado bem cedo, mais ou menos por volta  das seis horas da manhã, Dr. André deu “alta” para Giovanna, e recomendou muito ao marido que evitasse  expor sua esposa, por pelo menos mais uns dois dias, à situações que necessitasse muito esforço, porque ainda estava se convalescendo. E depois de prescrever uma alimentação mais rica em alimentos próprios à quem vem de uma hemorragia, despediu-se deles lhes desejando toda sorte do mundo e se colocando à disposição para qualquer problema, visto ser ele brasileiro e ter residência fixa no Brasil.
--- Bem doutor... nós agradecemos muito sua ajuda e mais ainda sua oferta generosa de se colocar à nossa disposição, mas infelizmente morando praticamente dentro de um navio, como o senhor mora, acho que ficará muito difícil tornarmos a nos ver...
--- Bem... realmente isto é verdade, interrompeu André o que Alessandro dizia, e prosseguiu. ...mas isto é passageiro, não pretendo ficar neste emprego mais que um ano... logo, logo... estarei com meu consultório fixo e morando na minha cidade. Minha família também mexe com café, nós somos de São Carlos. Eu é que não sou chegado a mexer com fazenda.
--- De qualquer forma é sempre bom uma amizade, disse Giovanna, e completou nós temos um contrato com um fazendeiro de uma cidade que se chama Araraquara.
quem sabe se elas ficam perto uma da outra...
--- Araraquara? Fica quase colada uma na outra, está vendo como este mundo é pequeno?
--- Então quem sabe a gente se encontra outra vez... tudo é possível. Completou a mulher.
--- Eu não vou estar por aí, não, disse o médico... mas se precisarem de alguma coisa, pode procurar a fazenda “dos Seixas” lá em São Carlos, que tenho certeza que meu pai ou qualquer um dos meus irmãos, na certa os ajudarão. É só dizer a eles que são meus amigos, ok? E dizendo isso, André estendeu a mão e cumprimentando os dois, foi dar continuidade as tarefas na enfermaria.
--- Vamos então minha santa... disse Alessandro pegando a trouxa de roupas, que sua mulher usou enquanto ficou na enfermaria. E caminhando devagar, amparada por ele, foram para a cabina dar afim de também arrumar suas tralhas, para o desembarque, que já estava se aproximando. No navio estava aquela confusão de passageiros, cada dois ou três conversando em voz alta, e cada grupo em sua língua, e todos se mexendo para efetuar o seu desembarque, ou de suas famílias
Já na cabina, Giovanna perguntou.
--- Como é mesmo o nome do fazendeiro que nos contratou?
--- É um fazendeiro de nome Augusto dos Santos, segundo o acordo que nós assinamos, o governo brasileiro paga as passagens do navio, e os fazendeiros nos pegam aqui no cais e nos levam para suas terras. Este nosso, deve estar lá em baixo a esta hora, mas nós não vamos ser os primeiros a descer não, por causa do seu estado... vamos esperar que desçam os mais afoitos e depois então iremos nós e com calma. Respondeu Alessandro.
Enquanto sua mulher ficava sentada no colchão, Alessandro reunia as roupas que estavam espalhadas pela cabina e ia dobrando-as, para depois colocar nos sacos de viagem. E foi nesta hora que mexendo justamente nestes sacos, notou a falta do dinheiro que tinham trazido.
--- Santa Madre de Dios ... onde será que eu guardei o dinheiro?
--- O dinheiro? Você o  guardou no fundo falso deste saco ai, que está na sua mão? Interveio sua mulher.
--- Então? Mas não está aqui... será que entrou alguém aqui?
--- Como?... você não manteve a cabina fechada enquanto ia à enfermaria?
--- Sim... Não... quer dizer, teve dia que eu me esqueci... será que fomos roubados? Só faltava esta agora!
E aos olhos angustiados de Giovanna, Alessandro com certa volúpia até, procurou debalde em todas os possíveis lugares que poderia ter colocado o dinheiro, e por fim aceitou a realidade.
--- É, infelizmente fomos roubados.... quase trezentos réis... vamos levar uma eternidade para junta-los outra vez.
--- “Vão se os anéis, mas ficam os dedos”, disse Giovanna tentando dar uma força para o marido. ... o importante é que estamos juntos... o resto Deus nos providenciará... temos que ter fé.
--- “O que não tem remédio, remediado está”, completou ele, e continuou falando seu raciocínio. ...mas só pode ser quem ficou nestas cabinas aqui perto, porque a nossa é a última do corredor... portanto, na nossa porta não havia trânsito de pessoas... te juro sem medo de errar, que foi um destes dois vizinhos: o de frente, ou o do lado. Deus que me perdoe se faço julgamento errado, mas são os únicos que podiam perceber os momentos que nossa cabina ficava vazia.
--- Agora é tarde... mas você não manteve algum nos bolsos? Insistiu sua esposa.
--- Pior que não... eu não precisava de dinheiro dentro do navio... e além do mais, queria juntar para poder comprar nossa terrinha o mais cedo possível.
Enquanto estavam ali chateados com o roubo, o desembarque começou, e os mais apressados pulavam na frente, para descer a longa escada que os levariam para a terra firme. E depois de mais ou menos uma meia hora, Alessandro e Giovanna começaram a descer os degraus, e enquanto desciam, Alessandro foi vendo os muitos grupos que iam se formando no chão do cais e alguns homens gritavam os nomes dos passageiros. Quando chegaram em baixo, antes mesmo de descer o último lance da escada ouviu seu nome ser gritado.
--- ... Alessandro, Tomás, Tiago...
Era um senhor, que a frente de um grupo de italianos, tinha pronunciado estes nomes, e dentre eles o seu primeiro nome. De forma que saindo do navio, foi direto a ele e indagou:
--- Por acaso o senhor  se chama Augusto dos Santos?
--- Não meu amigo... mas estou a mando dele, para conduzir os empregados que ele contratou, até a fazenda em Araraquara.
--- Então meu nome deve estar aí com o senhor...  Alessandro Donato.
--- Exatamente... está aqui... e o da sua esposa: Giovanna Donato.
--- Ela está também aqui. Respondeu Alessandro.
--- Então por favor queira se juntar a este grupo, que logo, logo estaremos saindo, porque daqui lá é quase um dia de viagem.
--- Pois não.
Alessandro entrou na fila em último lugar junto com sua esposa. Devia ter mais ou menos umas vinte pessoas a sua frente, dentre elas, quatro crianças com idades que variavam dos cinco aos oito anos, duas senhoras de idade mais avançada e duas um pouco mais velhas que Giovanna e mais 12 homens, sendo que dois deles eram bastante idosos, e quanto aos demais suas idades variavam muito, mas na maioria eram jovens. Ao lado desta fila tinha um caminhão com a carroçaria de madeira coberta por uma lona, e entre as réguas laterais, umas tábuas para servirem de assentos. Quando Alessandro percebeu que o tal caminhão, seria a condução deles para a fazenda, foi até ao senhor que comandava a seleção, e chamou-o para uma conversa em particular.
--- Meu senhor... por favor.... este deve ser o veículo que nos levará para a fazenda, estou certo? Perguntou Alessandro.
--- Sim... é este sim. Por quê pergunta?.
--- Será que o senhor deixaria minha esposa viajar na cabina?
--- Olha... pelo que eu já vi ali, tem duas senhoras de bastante idade, que certamente não aguentarão esta viagem... viajando em cima, na carroçaria. Enquanto que a sua esposa é bem mais jovem... acho até que seria um pecado mudar isto.
--- É... eu também acho... mas acontece que a minha esposa teve um aborto há três dias atrás, e o médico me recomendou muito que não a expusesse à situações de grande esforço físico, pelo menos por mais uns três dias... e esta viagem, da forma que vai ser feita, me parece muito arriscado  para o estado que ela se encontra.
--- Olha... eu não posso fazer nada... se você entrar em acordo com aquelas senhoras, por mim tudo bem... eu só não quero é agir como juiz e determinar quem deve ou não, viajar comigo na cabina. Disse o motorista.
--- Não vai ser preciso não... eu também estou seguro que as duas senhoras devem ter esta preferência... mas, como eu também não posso forçar a minha esposa a viajar na situação que ela se encontra... e o que acontece com o meu contrato, se eu não for com o senhor?
--- Olha... por mim tudo bem, eu digo ao meu patrão que você não veio no navio... Prejuízo ele não vai ter, porque não foi ele quem pagou as passagens de vocês... foi o governo... e neste país, grande como ele é... ninguém vai nem tomar conhecimento disso...
--- Então por favor, faça como o senhor disse... eu prefiro ficar por aqui e procurar  emprego aqui mesmo... ou então, tentar outras fazendas mais perto.
--- Tudo bem amigo... que Deus te acompanhe e te guie... só acho que emprego aqui em Santos para você, vai ser muito difícil... mas enfim, como eu também acho que nesta situação, vocês não devem viajar... seja o que Deus quiser...
--- Então... meu senhor... muito obrigado, e que São Genaro proteja vocês em toda viagem.
Alessandro então chegou perto de Giovanna  que tinha se assentado no meio fio da calçada, e pegando-a pelo braço, para que se levantasse, falou.
--- Vamos querida... vamos procurar uma outra saída.
--- Hein!?...  saída?... não estou entendendo?... nós não vamos viajar?
--- Vamos querida... vamos andando que eu te explico tudo.
Alessandro saiu com ela e foi andando em direção ao centro da cidade, eram quase meio dia, o sol estava a pino e fazia um calor tremendo. Chegando numa praça, caminharam em direção a uma sombra fresca, que uma frondosa árvore fazia por sobre um gramado meio ressecado. Ali então se sentaram e Alessandro colocando os sacos de roupas no chão, explicou as razões que o levou a recusar o emprego.
--- Eu sei que a nossa situação não está nada boa, minha santa, mas eu não vim aqui para ficar viúvo tão rápido assim... e aceitar esta viagem de quase doze horas em cima de um caminhão, com você saindo de uma hemorragia... e ainda por cima com este calor... eu não aceitaria por nada deste mundo...
--- A culpa é toda minha... Giovanna começou a falar entre soluços de choro. ... se eu não tivesse ido para aquela enfermaria, pelo menos agora a gente tinha um pouco de dinheiro.
--- Se tem um culpado nesta história toda, esse sou eu. Interrompeu o marido. Eu  é que tinha de tomar mais cuidado com o dinheiro, e não você...
--- E o que vamos fazer agora? Tem alguma ideia. Disse Giovanna, agora mais calma.
--- Não... infelizmente não tenho a menor ideia... mas uma coisa temos que fazer e ninguém melhor para nos aconselhar que São Genaro...  Ali na frente tem um igreja, você está vendo-a?
--- Estou...
--- Deixa você recompor suas forças primeiro, e depois vamos até lá para rezar um pouco.
--- Eu estou bem... vamos agora, porque até esta sombra já está ficando quente... e a igreja geralmente é mais fresca. E falando assim ela se levantou e Alessandro vendo sua disposição, pegou as mochilas e caminharam os dois até ela.
Realmente, naquele horário a igreja estava vazia e dentro,  além de estar bem mais fresco que a sombra da árvore, havia também um silêncio muito grande. Os dois então se assentando num dos muitos bancos, ficaram ali orando e pedindo orientação a Deus e a São Genaro. A paz que encontraram ali, parece até que amainou a fome dos dois, e como não tinham mesmo o que fazer, ficaram ali um bom tempo entregue às suas orações.
--- Boa tarde. Fez uma voz grave e ao mesmo tempo suave, vinda do banco de trás.
Era o padre, que estando sentado no coro da igreja, rezando seu breviário, viu quando os dois jovens entraram na igreja. E observando-os, viu que a mulher alternava momentos de choro e de oração, e como já estavam ali há horas, resolveu então se aproximar, e quem sabe, levar uma palavra de conforto a eles.
--- Boa tarde. Respondeu Alessandro e ao virar para seu interlocutor, disse ... óh! é o padre... e se levantando, estendeu a mão para ele e pedindo sua bênção, beijou-lhe a mão. Giovanna, percebendo também sua presença, imitou o marido no ato de pedir a bênção, dando-lhe também um ósculo em sua mão.
--- Vocês são italianos? Perguntou o padre.
--- Sim... porque somos tão diferentes assim?... perguntou Alessandro dando um sorriso.
--- Nestes tempos atuais, encontrar italianos por aqui é a coisa mais natural do mundo... e com um sorriso, completou. ...mas mocinhas italianas que entremeiam orações com lágrimas, já é mais difícil... posso ajudar em alguma coisa?
Giovanna sorriu e ficou encabulada, sem saber o que responder. Alessandro, então esboçou uma resposta.
--- São os problemas da vida padre... mas nada que Deus não possa remediar.
--- Eu vejo que a senhora... isto é, são casados, não são? Perguntou o padre
--- Sim, casamos há dois meses ainda na Itália... respondeu Alessandro
--- E agora ela está com saudades de lá... eu estou vendo que está bem abatida.
--- Não padre, respondeu Giovanna, é que durante a viagem eu perdi o neném... num aborto. E ainda por cima fomos roubados.
--- E se não bastasse isso, tive de recusar o emprego, respondeu Alessandro.
--- Recusar o emprego, por quê? Perguntou o clérigo.
--- Ela, - disse Alessandro, se referindo à sua esposa - saiu da enfermaria do navio hoje pela manhã... está ainda muito fraca... e a fazenda que tinha nos contratado, fica em Araraquara... e fazer uma viagem em cima de uma carroçaria de caminhão...  dificilmente ela poderia aguentar.
--- Então vocês na realidade estão precisando de ajuda...
--- Olha padre se não for muito incomodo... e o senhor nos permitir que passemos a noite aqui, isso nos ajudará muito.
--- Não senhor...  dentro da igreja,  não. E se levantando disse: Venham até minha casa, vocês precisam de um banho, uma refeição  quente e uma cama para descansar. Depois a gente vê o que se pode fazer.
Os dois então se levantaram e foram seguindo o padre, e entre as lágrimas que agora caiam de seus olhos, ficavam uma prece de agradecimento a Deus e ao milagroso São Genaro.




            *********



 Padre Miguel Ruffo, este era o nome do pároco daquela igreja, era um exemplo de caridade, com seus quase 60 anos, baixo, um pouco gordo e cabelos bastante grisalhos, se condoeu da triste situação em que se encontrava o casal de jovens e levando-os para a casa paroquial, além da alimentação, ainda ofereceu-lhes guarida, cedendo-lhes um quarto com duas camas de solteiro, para que ali ficassem pelo tempo que fosse preciso, até que conseguissem dar um novo rumo à suas vidas. Quando completou uma semana, Alessandro já se sentindo vexado pela situação de estorvo, que pudesse estar causando ao padre, aproveitou a hora do jantar em que se reuniram os três à mesa, e falou com ele.
--- Padre Ruffo... nós somos muito gratos ao senhor e a Deus, que na sua misericórdia infinita, colocou o senhor na nossa vida, naquele dia triste em que chegamos ao Brasil... eu não sei o que teria sido de nós, se não fosse a vossa ajuda.
--- Meu filho... nesta vida quem não vive para servir, não serve para viver... vocês não tem nada que agradecer... esta casa é de vocês e podem ficar o tempo que desejarem...
--- Não padre... a minha esposa já se recuperou da anemia que estava sofrendo, e nós temos que tomar um rumo.
--- Mas para onde irão? Eu tenho visto meu rapaz, que você tem procurado emprego na cidade e não tem encontrado... mas para quem nasceu na agricultura e só aprendeu este ofício, uma cidade igual a esta, não oferece opções.
--- Por isso mesmo, padre... nós precisamos sair e procurar emprego nas fazendas... permanecendo aqui na casa do senhor, nós não vamos conseguir nada. Por isso é que conversamos muito ontem, e chegamos à conclusão que temos que sair e ir à luta...
--- Olha, desde que vocês entraram nesta casa, que eu os tenho observado e muito... e eu não costumo me enganar com as pessoas não, e... eu passei então a me preocupar com o problema de vocês, isto é, numa forma de ajudá-los a começar suas vidas, neste país totalmente estranho a vocês... e... eu tanto pensei, que acabei me lembrando de uma coisa... há mais ou menos doze anos atrás, isto é por volta de 1898..., eu fui mandado para ser pároco num povoado que estava se formando e que tinha o nome de Bom Jesus de Matão, que coincidentemente fica perto deste lugar para onde vocês iam, Araraquara... lá eu fiquei muito  pouco tempo... depois fui para outros lugares , até que me mandaram aqui para Santos. Na verdade, eu acho que nunca fui um bom padre, pois nunca me deixaram parar em lugar nenhum, mas voltando ao povoado, um belo dia me apareceu na sacristia da capela, um fazendeiro daquelas redondezas que queria doar um terreno para o Senhor Bom Jesus, atendendo o desejo de sua esposa em pagamento a uma promessa. Como eu nunca concordei com este tipo de doação em nome de santos porque os santos nunca desfrutam do bem, e uma vez que a escritura recebe o nome deles, fica completamente impossível doá-las ou até mesmo vendê-las, porque santo não assina nada.  Então, com muito custo, consegui convencê-lo, que fizesse a doação sim, mas que a fizesse em meu nome, e eu me incumbiria de achar uma família que estivesse necessitando de ajuda, e doasse para ela... assim ele fez... só que logo depois, eu fui novamente transferido e acabei me esquecendo desta obrigação. Quando foi anteontem, eu procurei o cartório aqui da cidade e passei uma procuração em seu nome Alessandro e... de forma que se vocês procurarem o Cartório de Registros da cidade de Araraquara, vocês poderão passar esta terra para o nome de vocês... não é muito grande não, me parece que chega a um alqueire e pouco... mas dá para vocês começarem a vida.
--- Mama mia, padre... só pode ser São Genaro que pôs o senhor na nossa vida.... disse Giovanna.
--- Mas padre... isso é uma bênção... disse Alessandro.
--- É... mas vocês não fiquem muito entusiasmados não, porque esta terra pode estar lá em completo abandono, ou então nas mãos de algum invasor, de forma que dentro da lei vocês ficarão sendo os donos, mas talvez ainda leve algum tempo até que possam  tomar posse dela.
--- Mas já é uma esperança padre, coisa que até aqui, não tínhamos nenhuma. Disse Alessandro.
--- Eu não ia falar isso agora não, mas como vocês já resolveram partir, eu separei um dinheiro ali, e vou dá-lo também a vocês... não é muito não... mas dá para  pagar as passagens de ônibus e fazer suas refeições até chegar lá... estou dando até um pouco a mais, e digo que vocês devem economizar o que puderem nesta viagem, porque para passar esta terra para o nome de vocês, vai aparecer uma despesa no cartório.
--- Acho que o senhor é um santo, padre, se eu contar isso para alguém, vou passar por mentiroso! Como o senhor pôde lembrar de tudo isso, se já faz tanto tempo?
--- Acho que foi o fato de vocês mencionarem a região de Araraquara, mas, a que horas vocês pretendem partir?
--- Com esta ajuda que o senhor esta nos dando, acho bom sairmos cedo, porque a viagem é muito longa... Disse Alessandro
--- Então me deem licença, que eu vou buscar o dinheiro. E falando assim Padre Ruffo se levantou e foi até seu quarto.
O jantar já tinha acabado há muito tempo, mas como os três continuaram à mesa, somente agora com a saída do padre, que a governanta aproveitou para tirar as baixelas. Alessandro olhou para Giovanna e pegando sua mão disse em tom baixinho
--- Está vendo. A misericórdia de Deus é infinita e age sempre se a gente não desespera... e beijando suavemente sua mão, completou: Ainda existe gente boa neste mundo de Deus.
Aquela foi a noite mais longa da vida deles, deitados em camas de solteiros, nenhum dos dois conseguiu conciliar o sono, diante de tanta alegria e encantamento, que segundo eles vinha da Misericórdia de Deus. As cinco horas da manhã, mesmo sem conseguir dormir um minuto sequer, se levantaram e se prepararam para irem até a rodoviária e tomar o ônibus com destino a São Paulo. Quando estavam na cozinha da casa paroquial, tomando café, o padre chegou.
--- Bom dia meus amigos... já estão de saída?
--- Sim padre...  temos que pegar o ônibus das seis... mas antes de sair nós íamos chama-lo para nos despedir.
--- Oh! sim, mas eu levanto cedo todo dia... pois tenho que celebrar a missa das seis e meia.
E terminando então o café, Alessandro falou.
--- Bem padre... temos que ir agora senão perderemos o ônibus... quero agradecer mais uma vez ao senhor e no mais... eu só posso dizer que durante toda minha vida... todas as noites quando me deitar, eu incluirei o nome do senhor as minhas preces... pois é a única forma que tenho para retribuir estes favores que o senhor nos fez.
--- Não se preocupe comigo... e lembre-se das minhas instruções: em são Paulo vocês vão procurar um ônibus que os levem para Campinas, e farão as baldeações de Campinas para Piracicaba ou São Carlos e daí para Araraquara. A gleba de terra que vocês vão reclamar no cartório, fica próxima ao povoado de Bom Jesus de Matão... No mais, façam uma boa viajem e que Deus os acompanhem.
E depois de beijarem a mão do padre, e pedirem sua benção, saíram os dois em direção à rodoviária.

 



                Capítulo 03





A viagem começou as seis horas da manhã daquela terça-feira 13 de maio de 1910, no ônibus que os levou para São Paulo. Chegando por volta de onze horas, na rodoviária mesmo enquanto esperava  o embarque para Campinas, fizeram um pequeno lanche. As duas da tarde recomeçou novamente a aventura. Em Campinas, tiveram que passar a noite em um dos bancos da Rodoviária, pois não chegaram a tempo de pegar a conexão que os levaria para Piracicaba. Mas este  azar até que acabou virando sorte, porque  enquanto passeavam pela estação, descobriram que existia um horário direto para Araraquara, mas que saia às duas horas da tarde. E eles então optaram por esperá-lo, visto que se pegassem o de Piracicaba ainda teriam que fazer mais dois embarques, isto é, um para São Carlos e outro para Araraquara . Assim então, preferiram tomar aquele “chá de estação”, até chegar o horário das duas da tarde do dia seguinte, quando então saíram com destino à Araraquara. Chegaram por volta das onze da noite e procuraram logo uma pensão para se instalarem pelo tempo que precisasse, até quando conseguissem desembaraçar seus negócios.
Na pensão mesmo, conseguiu com o proprietário o endereço do Cartório de Registro da cidade. Este ficava na rua Feijó, bem no coração da cidade. Como a viagem tinha sido muito desgastante, Alessandro preferiu deixar sua mulher descansando no quarto da pensão, enquanto ele mesmo ia até o Registro de Imóveis, tentar desenrolar o caso.
De posse da escritura em nome do proprietário padre Miguel Ruffo, foi fácil descobrir o terreno, coisa que o funcionário de nome Florisvaldo, conseguiu fazer o levantamento.
--- Pronto senhor, aqui está: Livro-2, páginas 635/636, escritura lavrada em 11 de outubro de 1898.
.
E assim,  no dia seguinte pela manhã, Alessandro acertou sua despesa com a pensão e foi diretamente para o local do terreno.
Este, era de forma meio losangular, com mais ou menos 20 metros de frente para a estrada, e  mais para o meio,  havia  uns eucaliptos,  algumas árvores espalhadas e uma moita de bambu. Cortando uma vara para se defender contra possíveis cobras, Alessandro pegou a mão de sua esposa e adentrou o mato. Depois de caminhar uns cinqüenta ou sessenta metros mais ou menos, pararam debaixo de um ipê amarelo, onde a vegetação já era mais rala por causa do arvoredo, e abraçando Giovanna, disse:
--- Aqui está o nosso presente, é uma terra bruta, descuidada, mas é nossa. Sei que vamos morrer de trabalhar aqui, mas minha santa, haveremos de realizar nossos sonhos, tenho fé em Deus e em São Genaro.
--- E que pretende fazer, agora?
--- Agora nada... vamos para Matão e passaremos a noite numa pensão. Amanhã bem cedo, mudaremos definitivamente para cá.
E um longo beijo apaixonado selou o acordo dos dois.
A distância até Matão era de menos de sete quilômetros, e isso para eles era pouco, pois na Itália cuidavam de roças que ficavam muito mais além, que esta pequena  distância.

  

      ****************



E desta forma então fizeram. No dia seguinte levantaram-se cedo e procuraram uma carroça de aluguel pelas ruas da cidade, que pudesse fazer a viagem até o terreno. E lá pelas dez  horas da manhã, já estavam descarregando suas tralhas bem no meio da propriedade, debaixo do frondoso pé de ipê amarelo. E dentre estas coisas, tinham duas enxadas, um machado, um enxadão, uma cavadeira, uma pá, martelo, pregos, facão, foice, dois caixotes contendo alimentos, alguns pacotinhos de sementes, sacos de pano vazios, uma lata grande de água potável, um lampião, querosene, duas ou três panelas e um rolo de corda.
Alessandro entregou ao carroceiro a última nota de cinco reis, que tinha sobrado do dinheiro que o padre Miguel Ruffo havia lhe dado. E despachando-o de volta, virou para Giovanna e disse:
--- Agora vamos ver quem é mais corajoso...  nós... ou os nossos sonhos?
Por um momento, olharam aquele amontoado de coisas e ficaram sem ação, mas Giovanna logo se adiantou e disse:
--- Bom a primeira coisa que precisamos agora é água. E enquanto você  inicia o poço, eu vou fazer um fogo e cozinhar umas mandiocas...
Alessandro  pegou as ferramentas e descendo um pouco no terreno, que era ligeiramente inclinado, e mais ou menos a uns vinte metros do pé de ipê, num lugar onde a vegetação estava mais verde que em outros, e após capinar um quadrado de mais ou menos cinco metros de lado, marcou um círculo de um metro de diâmetro e começou a cavar. Giovanna arrastou umas pedras e juntando-as de jeito, conseguiu fazer um fogão bastante rústico, onde colocando fogo em uns gravetos, pôs as mandiocas para cozinhar. Enquanto o alimento cozinhava, pegou a enxada e começou a capinar o terreno de forma circular, a partir do lugar onde estavam suas tralhas, e que ficou com nome de sede, daquele dia em diante.
Duas horas depois, Giovanna chegou perto do buraco, e este já quase cobria o seu marido,  e perguntou.
--- Qual a sua expectativa?
Ele então parando de cavar, olhou para a terra solta que se amontoava do lado de fora, passando a mão no suor que pingava de todo seu corpo, disse:
--- Acho que eu não podia ter escolhido um lugar melhor, olha só como esta terra está úmida... eu posso estar enganado, mas este poço vai dar água com menos de dez metros.
--- Deus te ouça.  Mas agora vem comer que as mandiocas estão prontas. Disse ela, e continuou. Nunca comi mandiocas tão gostosas.
--- É a fome... quando se está com fome, até ensopado de pedras fica gostoso. Disse ele sorrindo... e continuou. ... É... você já capinou uma roda bem grande... o terreno à medida que vai ficando limpo, vai ficando também mais bonito...  eu só vou afundar um pouco mais aquele buraco por hoje, e depois  vou cortar aqueles três eucaliptos mais finos e novos que estão ali, disse ele apontando para o meio do mato, e vou fazer um cercado aqui, onde poderemos passar a noite... vou fazer uma espécie de tenda indígena.
E terminando então de comer, voltaram ao trabalho.  Mas antes de começar a cavar, Alessandro cortou um pau roliço, e pregando nele pedaços de galhos de árvore, espaçados um do outro, fez uma espécie de escada de um mastro só, que manteve dentro do buraco para facilitar sua saída. Além disso, fez questão de amarrar uma corda numa árvore próxima e manter sua ponta dentro do buraco, para ter como sair de dentro dele, se acaso acontecesse algum desmoronamento. E lá pelas quatro horas da tarde encerrou suas atividades no poço, e este já cobria em muito a sua altura que era de 1 metro e 85 centímetros, mas ainda assim continuava sem água. Durante o tempo que Alessandro trabalhou no poço depois do almoço, sua mulher fez um pequeno canteiro na área já capinada, onde utilizando um pouco da água que trouxeram na lata, fez uma sementeira. Alessandro pegou o machado e cortou os três eucaliptos de que tinha falado. E afundando-os no chão, perto do fogão de pedras, fez um tripé indígena com mais ou menos dois metros de diâmetro. Giovanna também já tinha preparado os sacos que haviam comprados no comércio da cidade, para cobrir a tenda. E emendando-os abertos, com barbante, tiras de pano e até mesmo cipó, conseguiram fazer uma cobertura para a cabana. De forma que as seis horas da tarde, quando o breu da noite chegou, a cabana já estava pronta. Alessandro ascendeu o lampião e pendurou-o num dos galhos do ipê, de modo a clarear o ambiente todo. E aproveitando ainda as mandiocas que sobraram do almoço, jantaram e foram dormir, deixando o lampião aceso a noite inteira.
Ainda estava escuro, quando Alessandro acordou. Deixando sua esposa dormir, levantou-se e foi para o poço cavar. Ele sabia que para continuar ali, o poço tinha que minar água e depressa.  Quando acabou de amanhecer, Giovanna chegou até o buraco e trouxe uma caneca de café e uma rosca seca, que tinham trazido junto com os mantimentos.
--- Bom dia querido... pare  um pouco e venha tomar este café. Disse ela com carinho.
--- Ô minha santa! Já de pé?... Eu fiz questão de não fazer barulho para que você dormisse mais um pouco.
--- E eu dormi... só que temos tanta coisa para fazer... que tem hora que me dá um desespero. E começou um soluço baixinho.
Alessandro, saiu do poço e abraçando-a, mesmo com o corpo molhado de suor, disse:
---  Vamos... coragem... tenha fé... São Genaro não nos desamparou e nem vai nos desamparar... e levantando a cabeça dela com as duas mãos, deu-lhe um beijo e depois disse: Ainda vamos rir do tempo de hoje, tenho certeza.
--- Tomara Alessandro. Agora vamos, Tome este café, que eu vou capinar mais um pouco. Disse ela.
Alessandro pegou a caneca e a rosca seca, e sentando no chão disse:
--- Não... eu preciso que você me ajude aqui... precisamos concentrar os esforços neste poço.
--- Como assim?
--- Eu preciso colocar um balde amarrado numa corda, para você subir a terra... porque já está difícil para mim jogar a terra para o lado de fora.
--- Quanto metros já furou? Perguntou ela.
--- Quase quatro metros. Mas se nos unirmos, acredito que hoje ainda atingiremos uns oito; isso se não acharmos água antes.
--- Então vamos, quem sabe ainda hoje, a gente pode até tomar um banho. Só mesmo quem precisa dela e não a tem, é que sabe quanto vale.
E assim fizeram, Alessandro colocava a terra no balde e suspendia ele com as mãos até acima de sua cabeça e Giovanna completava o trabalho de levá-la para fora, sozinha.
O sol castigava os dois, principalmente Giovanna, que ficava diretamente exposta. Mas o serviço rendeu tanto, que ao meio dia começou a  aparecer  barro no fundo do poço.
--- Viva! Não te falei?  Até que enfim! Gritou Alessandro, ao subir o primeiro balde com barro.
--- Graças à Deus, disse sua mulher ao recebê-lo em cima. E com as mãos esfoladas por roçar na corda, mergulhou-as dentro dele afim de refresca-las.
Daí para o final foi um pulo, bastou subir mais alguns baldes e a água minou pra valer, enchendo o buraco até os joelhos de Alessandro.
Estava vencida a primeira etapa. Alessandro saiu de dentro e abraçando sua esposa, derramou um balde de água ainda barrenta por cima deles e depois disse:
--- Agora minha santa, a vida começa a melhorar para nós. Você vai ver como a água faz uma diferença danada.
Alessandro limpou a superfície de acesso ao poço, transportou a terra solta, para um local onde fez vários canteiros. Depois investiu contra a moita de bambus e cortou muitos deles, e após limpá-los ali mesmo, transportou-os para perto da sede. Ali então construiu um rancho pequeno com quarto sala e cozinha e para cobrir os cômodos, usou os bambus de diâmetros maiores, para evitar que selassem rapidamente. Depois usando o capim cortado, misturou-o com  terra e água, e aplicou nas paredes para tapar as fendas, em cima do teto colocou sapê. Com os caixotes fez a porta e nas janelas colocou forro de pano.
A construção não era definitiva, ele bem sabia disso, mas para quem nada tinha, aquilo já era um grande início. O dias que gastou para construir o rancho, foi mais que suficiente para que a sementeira desabrochasse, e agora cuidava então de plantar todo tipo de verduras e legumes, nos canteiros que já estavam prontos.
Vinte dias depois de plantadas, eles já começavam a colher principalmente alface e couve, embora ainda com folhas miúdas, mas era a forma que encontravam para fazer economia dos víveres, que já estavam escasseando.
Mais ao fundo, perto da divisa com a fazenda do Sr. Sandoval, um próspero cafeicultor, ao roçar o mato naquela região, encontrou uma faixa de terra vermelha própria para a fabricação de tijolos. Alessandro não perdeu tempo, e com umas sobras de tábuas, fez uma forma e começou a intercalar a capina do terreno com a fabricação de lajotas.
Quando fez um mês e meio que ali já estavam instalados, começaram a colher todo dia, um pouco das verduras e legumes e iam para a cidade de Matão, afim de fazer dinheiro para comprar as coisas de que necessitavam. Por muitos dias seguidos, não trouxeram um centavo para casa, pois quando não traziam alimentos, traziam ferramentas  mudas de café, de cana, de laranja, de limão, etc. E renovando sempre sua sementeira, iam fazendo a manutenção dos canteiros.
Um mês e meio se passaram, por este tempo, Alessandro começou a notar que Giovanna andava um pouco tristonha. Com medo de ser a saudade da família que já estivesse começando perturbar sua paz, evitava mexer no assunto, temendo complicar ainda mais a situação. Mas a mudança foi ficando a cada dia tão forte, que numa bela tarde, depois do trabalho, chamou-a para sentar a seu lado no banco, que fizera debaixo do pé de ipê. E ali sentado, iniciou a conversa, que no fundo mesmo, não queria tê-la.
--- Vamos minha santa, desabafe comigo. O que está te magoando tanto?
--- Nada... porquê pergunta?
--- Qualquer um pode ver que você não tem andado alegre.
--- Não... você é que deve estar vendo coisa.
E passando o braço por cima de seus ombros, Alessandro insistiu.
--- Se você não se abrir comigo, quem mais poderá te ajudar...
--- É... cisma... eu é que tenho andado cismada...
--- Cismada com quê?
--- É que,  e abraçando seu marido, deixou desabar seu mundo, num choro compulsivo. Já faz três meses que a minha menstruação não vem.
--- Calma... calma não precisa chorar, para tudo há remédio.
---  Não eu já tomei até chá... de todos os tipos, e nada dela vir.
--- Mas Giovanna com a vida que você tem levado... trabalhando demais... muita friagem... isto só atrapalha....
--- Não Alessandro... E ela continuou a responder chorando. ...desde aquele maldito aborto no navio, que eu não menstruei mais.
--- Olha minha santa. Filho agora não será bem vindo, pelo menos até a gente construir nossa casa... portanto, tenha paciência que até lá a gente procura um médico e você vai conseguir regularizar seu ciclo menstrual... mas neste meio tempo você deve se manter calma, porque as vezes o problema é apenas psíquico...
--- E se não for? E se aquele malogrado aborto tiver me esterilizado?
--- Acho que você está se deixando levar pelas aparências.
--- Mas e se eu estiver certa? Perguntou ainda em soluços.
--- Ora... eu me casei com você para ter você... filhos é secundário... se você não puder tê-los... adotaremos algum... quanto a isso eu não vejo problemas.
E Giovanna parando de chorar, afastou a cabeça do ombro de Alessandro, e olhando firme nos seus olhos azuis, disse:
--- Jura? Você jura que não se importará?  Jura que não vai deixar de me amar se por acaso eu não puder te dar filhos? Você jura?
Alessandro notando o quanto ela estava sofrendo com a dúvida, puxou-a outra vez contra seu peito e entre muitos beijos disse
--- Bambina... eu te escolhi para viver dentro do mundo mágico do meu coração para todo o sempre, eu te escolhi para ser minha alma gêmea, é claro que quero filhos.  mas isso não depende de nossa vontade, e sim da de Deus... mas se por ventura não pudermos tê-los... paciência... quantos e quantos casais adotam recém nascidos e vivem felizes... não seremos diferentes deles.
--- Oh! meu amor... e eu que...
--- Eu o quê?... interrompeu Alessandro, e continuou por ela. ... ficou pensando bobagem... este tempo todo sofrendo calada.... que bobinha hein!?
E mais uma vez um beijo apaixonado, colocava voz no silêncio, de forma que só os dois conseguiam ouvir.





                                    Capítulo 04



O rancho de bambu ficava debaixo do pé de ipê. Vinte metros para baixo e um pouco mais para trás do tal rancho, ficava o poço artesiano. E completando mais ou menos um triângulo, ficava no outro vértice a construção que Alessandro estava começando a erguer, que era a casa definitiva.
Naquela manhã, estando já o ciclope da casa pronto, coisa que com muito sacrifício Alessandro fizera, mandando para isso vir de Matão um caminhão de pedras, que foi assentando com barro vermelho uma a uma, como se fosse um mosaico perfeito, dentro das valas que para isso ele tinha aberto no solo,  começou então a assentar as lajotas, iniciando desta forma as paredes da casa.  Giovanna, que capinando o mato que ameaçava abafar a plantação de abacaxi e de melancia, notando a entrada no terreno de três cavaleiros, gritou seu marido.
--- Alessandro!... Alessandro... temos visitas.
Alessandro então, lavando as mãos rapidamente no balde de água que estava ali perto, apareceu logo em frente ao rancho de bambu, e ficou aguardando a aproximação dos cavaleiros. Na frente vinha um homem forte, com barba longa e grisalha,  um chapéu de couro de lebre na cabeça, e trajava calça e paletó de brim cáqui. Atrás dele vinham dois outros, porém de pele escura, e trajes mais simples, além de usarem  na cabeça chapéus de palha comuns.
--- Bom dia... disse o senhor da primeira montaria, puxando as rédeas de seu animal e parando-o à frente de Alessandro. Enquanto os outros dois pareando seus animais um de cada lado do primeiro, permaneceram calados.
--- Bom dia... respondeu Alessandro.  ... A quem devo a visita?
--- Meu nome é Sandoval e sou dono daquele cafezal, ali. Respondeu ele apontando para a parte baixa do terreno de Alessandro.
--- Ah... sim, bonita plantação a do senhor...  Meu  nome é Alessandro e a minha esposa é Giovanna...  mas...vamos apear.
--- Desde quando os italianos passaram a invadir terras? Perguntou Sandoval.
--- Como assim? Respondeu Alessandro.
--- Humm!... fez Sandoval. E depois de olhar tudo em volta e notar o progresso da propriedade, completou. ...você é o primeiro invasor trabalhador e inteligente que passa por aqui... e parece que vai ser o primeiro invasor italiano que eu ponho para fora desta área... vou te dar meia hora para você juntar o que é seu e por o pé na estrada. -- Disse o velho, mostrando imediatamente que não veio até ali, para papear.
--- Eu já ouvi falar do senhor... como fazendeiro rico que é... mas só agora fico sabendo que também é ladrão... respondeu firme Alessandro.
--- Está muito enganado se pensas isto de mim... respondeu o fazendeiro. ... apenas cuido para que invasor nenhum ocupe esta terra, colocando em perigo a minha propriedade.
--- E desde quando eu e minha mulher estamos invadindo propriedade de alguém?...
--- Não me venha me dizer que comprou esta terra, porque eu não irei acreditar... disse Sandoval em tom irônico.
--- Realmente não compramos.. nós simplesmente ganhamos...
--- Ah! é... e pode me dizer de quem?
--- Padre Miguel Ruffo. Respondeu Alessandro
--- Infelizmente meu amigo... pelo que me consta este padre já morreu há muito tempo.
--- Que morreu coisa nenhuma... ele é pároco na cidade de Santos... e além do mais eu posso muito bem comprovar tudo isso.
--- Olha... não me leve a mal não, mas eu gostaria de ver este documento. Disse Sandoval.
--- Então porque não apeia para que possamos conversar. Disse Alessandro.
Apenas o fazendeiro desceu de seu animal, e entregando as rédeas ao cavaleiro do seu lado direito, para segurá-las, se aproximou de Alessandro.
--- Não o convido para entrar, porque aqui fora tem mais conforto que dentro do rancho,  mas sente-se naquele banco debaixo do ipê, enquanto busco a escritura.
--- Não se preocupe comigo, eu espero aqui mesmo. Disse o fazendeiro.
Não levou dois minutos e Alessandro voltou com a escritura do terreno e a entregou ao fazendeiro. Este leu o documento inteiro, e enquanto lia,  sua fisionomia foi mudando daquela rigidez inicial, para uma feição mais amena, contudo, ainda assim havia nele grande espanto. E agora caminhando para o tal banco que lhe fora indicado antes, sentou-se e olhando novamente para o documento disse:
--- Meu amigo... pelo que parece você está dizendo a verdade... mas o que eu não entendo é que para mim este padre morreu logo que foi transferido daqui...
--- Não senhor... ele nos deu guarida por uma semana na cidade de Santos... e neste tempo foi que ele lembrou que havia esta terra aqui, para ser doada... e nos fez a doação.
--- Me diga uma coisa... ele veio com vocês a Araraquara para efetuar a doação?
--- Não senhor, nem era preciso, pois ele foi ao cartório da cidade de Santos e passou uma procuração em nosso nome... para o cartório da cidade de Araraquara era o suficiente, tanto que em dois dias este documento estava pronto.
--- Olha... Por aqui já passaram três invasores de terras, e todos os três afirmavam que haviam ganho esta gleba de terra da igreja... só que nenhum conseguiu provar nada. E na defesa da minha propriedade e das de meus amigos vizinhos, eu os expulsei a todos... mas você é diferente... você pelo menos tem provas... e até que me provem o contrário, você é realmente o dono desta terra.
E levantando-se do banco, estendeu sua mão para cumprimentar Alessandro, dizendo:
--- Queira aceitar minhas desculpas, pelo modo que o tratei... Mas confesso novamente que para mim o dono destas terras já tinha ido para o céu, pelo menos é o que todos por aqui dizem... mas... por outro lado... também acho que ela está em boas mãos... pois estou vendo que são bastante trabalhadores.
--- Eu também peço desculpas ao senhor por tê-lo chamado de ladrão... mas sendo dono da terra, achei que os senhores estavam querendo nos tomá-la...
--- Você agiu certo... não há nada a desculpar, pois no seu lugar agiria da mesma forma... e para provar que não sou nenhum bandido, eu lhe ofereço ajuda no que precisar. Eu sei que a sede da minha fazenda fica longe daqui, mas se precisar de alguma coisa pode aparecer por lá, que se tiver ao meu alcance, o servirei. Dizendo isso, caminhou para o seu cavalo e enquanto colocava o pé no estribo e se preparava para com um impulso  passar a perna por cima do arreio, disse:
--- Na chegada eu vi uma espécie de olaria ali... é você mesmo que faz os tijolos?
--- Sim, nas horas vagas.
--- Eu estou precisando de uns milheiros, não quer faze-los para mim?
--- Infelizmente eu não tenho equipamento... e o pouco que consigo fazer só dá para o meu consumo. Mas se o senhor mandar um burro, um ajudante e madeiras, eu os farei para o senhor...
--- Tudo bem... talvez eu faça isso...  --E virando os animais para saírem da propriedade, falou:
--Tenham um bom dia.
                    Quando os cavaleiros saíram, Giovanna largou a enxada e desceu até onde estava Alessandro e mostrando-se muito apreensiva, disse.
--- Que homem nervoso. Será que ia mesmo nos por pra fora daqui?
--- Ele parece ser muito sério, pois logo que viu a escritura, mudou logo seu comportamento... mas você ouviu ele dizer que o padre Ruffo morreu... coitado...
--- Ah! Isso é como diz os antigos. “ é vida para o padre”, disse ela.
--- Por falar nisso, eu preciso escrever para ele e dizer que saiu tudo como ele tinha dito. E falando assim, Alessandro voltou à sua tarefa anterior e Giovanna tornou subir o terreno para continuar a sua capina.
                    Dois dias depois deste encontro com o fazendeiro, o casal tirou um dia de folga e foi passear em Matão. E quando visitaram a igreja, Alessandro lembrou logo do padre Ruffo e rezou muito por ele, ao sair dela foi direto ao correio e no balcão da agência, escreveu uma carta pequena porque não tinha muita intimidade com as letras, mas contou como foi fácil a transferência do terreno e principalmente dos progressos que já tinha conseguido. Como endereço, escreveu na frente do envelope: Igreja que fica na praça, perto do Cais do Porto, além é claro, do nome do padre Miguel Ruffo e o da cidade de Santos. O estafeta, achou muito esquisito este procedimento, mas como igreja e padres não são muitos numa cidade, achou possível deixar a carta endereçada desta maneira
Naquela semana mesmo, toda a plantação de abacaxi e melancia foi retrabalhada. Algumas mudas foram renovadas, outras foram ceifadas e outras readubadas e toada sua terra revolvida. Novos canteiros também passou a fazer parte da paisagem do sitio, era a hora e a vez dos temperos típicos da Itália, manjericão, cominho, orégano, pimentas, etc.
Alessandro pegou uma tábua e pintou o nome “Chão Italiano” na cor azul e pregando-a em dois caibros, cujas pontas enterrou no chão, deixando-a suspensa na parte mais alta do sitio, com visão ampla para a estrada, e fez uma linda porteira
No início de outubro, apareceu pela manhã bem cedo no sitio, um senhor de cor escura, não muito velho, pois aparentava ter uns quarenta anos mais ou menos, com uma carroça puxada por um burro e carregada de madeiras, que gritando na porteira, esperava que fosse atendido.
--- Sr. Alessandro!... Sr. Alessandro!...
Ao ouvir seu nome sendo gritado, Alessandro foi até a porteira e abrindo-a, perguntou:
--- O senhor deseja alguma coisa?
--- O senhor é que é o Sr. Alessandro? Perguntou o carroceiro.
--- Sim... respondeu o italiano.
--- Sr. Alessandro... o patrão me mandou aqui, para ajudar o senhor a fabricar os tijolos para ele. - Falou o recém-chegado.
--- Seu patrão é o Sr. Sandoval... por acaso?
--- Sim... e ele mandou falar com o senhor que vai precisar de vinte milheiros, e mandou o burro que o senhor pediu, o ajudante que vai ser eu e as madeiras para fazer a pipa.
--- Vinte mil tijolos?... mama mia...  - e coçando a barba, disse:  -- É trabalho pra essa vida e a outra... mas enfim “ ninguém é obrigado tratar coisa alguma, mas cumprir,  é”...  como é o seu nome? Perguntou Alessandro.
--- Geraldo... seu criado.
--- Muito bem... eu vou abrir a porteira e o senhor entra com a carroça e coloca tudo lá no fundo do sítio, onde fica a olaria, e enquanto o senhor descarrega a carroça, eu  me apronto e apareço por lá.
Geraldo desceu com a carroça, e passando por Giovanna que estava na porta da casa de bambu, cumprimentou-a, descobrindo sua cabeça, levantando seu bem usado chapéu de palha.
--- Bom dia madame...
--- Bom dia meu senhor... respondeu ela, enquanto observava em suspense, a carroça descer o terreno. Alessandro que chegava logo atras da carroça, disse.
--- Não espante não... mas aquele homem que você achou bravo, quer vinte mil tijolos...
--- Dio mio!?... E como você vai fazer criatura?... E o sítio?
--- Deixa que eu sei administrar... isto se chama “política de boa vizinhança”... ele mandou um ajudante... eu vou ensiná-lo a fazer os tijolos, de modo que ele mesmo vai fazer a maior parte do trabalho. Só no inicio é que eu vou ter um pouco mais de trabalho,  mas logo, logo, eu fico livre. Vou trocar de roupa porque pra mexer com barro, tem que ser com roupa velha.
Depois de trocar a roupa e tomar aquele chocolate quentinho com bolo de fubá, Alessandro desceu e foi se juntar ao Sr. Geraldo, na olaria.
--- Bem Sr. Geraldo para fabricar tijolos em grande quantidade, temos primeiro que construir nossa pipa. Agora depois que ela estiver pronta eu vou ensina-lo como se faz os tijolos.
--- Estou aqui pra isso... pelo tempo que o senhor precisar de mim.
Alessandro então, com a ajuda do Sr. Geraldo construiu a pipa, a pá e a haste de  ligação. Na ponta desta haste ficava atrelado o animal, que com sua força, fazia girar a pá dentro da pipa de madeira, produzindo assim o barro para a produção dos tijolos. Com a pipa pronta, Alessandro então ensinou ao Sr. Geraldo como polvilhar a fôrma com terra seca, antes dela receber o barro cru, e a desenforma-lo no chão, sempre em fileiras para ficar fácil a contagem dos mesmos. Também fez mais uma fôrma de madeira, para que quando o trabalho no sítio permitisse, pudesse também ajudar na fabricação, além do mais, ele precisava também fabricar mais  alguns  para ele mesmo, pois sua casa ainda estava em construção.
E assim se fez, com uma semana de trabalho, Sr Geraldo já podia ser considerado um oleiro dos bons. E trabalhador como era, sua produção era simplesmente fantástica, em média, quatrocentos tijolos por dia. Nos dias em que Alessandro ajudava, atingiam juntos facilmente a marca de quinhentos. Giovanna por sua vez, com pena do Sr. Geraldo, não deixou que ele trouxesse mais seu almoço em marmita, como fez no seu primeiro dia de trabalho no sitio, e não deixava que á tarde quando ele ia para sua casa, saísse sem jantar também com eles. Não só Giovanna, como também seu marido, tinham muita pena do Sr. Geraldo, pois à medida que iam se acostumando com a presença dele no sítio, iam trocando conversa, e acabaram por ficar conhecendo a vida do pobre homem. Ele trabalhava na fazenda do Sr. Sandoval, onde morava numa casa de colono. Era casado e tinha quatro filhos pequenos. O que ganhava por mês, mal dava para comprar os gêneros de primeira necessidade. Daí então a razão porque eles faziam questão de alimentá-lo todo dia, tentando desta maneira, amenizar um pouco sua despesa doméstica.
Depois de quinze dias de trabalho, uma tarde Alessandro pediu ao Sr. Geraldo que em vez dele ir para casa montando o burro como o fazia todo dia, que desta vez levasse a carroça também, para trazer da fazenda do sr. Sandoval um pouco de lenha, para fazer a primeira cremação dos tijolos encomendados.
E daí para frente, pouquíssimas foram as vezes que ele deixou de levar a carroça à tarde, pois quando não a levava para trazer lenha, levava-a com tijolos já queimados e prontos, para a fazenda do seu patrão. O certo é, que antes mesmo de completar um mês de trabalho, numa tarde Sr. Geraldo fez a última viagem de volta à fazenda, levando nela os últimos trezentos tijolos que completava assim os vinte milheiros, encomendados pelo Sr. Sandoval.
Três dias depois do término da fabricação dos tijolos, estava Alessandro á tarde, assentando os barrotes em cima das paredes de sua casa, preparando-a  para receber o telhado, quando  Giovanna, escutando o barulho do motor do ônibus, que vindo de Araraquara estava parado na frente da porteira do sítio, gritou para ele:
--- Alessandro!... Ô Alessandro... deve estar chegando alguém aqui em casa... porque o ônibus está parado lá na porteira.
De cima do andaime, Alessandro olhou para a porteira e viu o motorista acenando com as mãos para ele, mostrando um papel. Alessandro então fazendo o clássico sinal de calma, com sua mão, desceu rapidamente e foi até  ele. E abrindo a porteira, ouviu o motorista perguntar:
--- É aqui que mora Alessandro Donato?
--- Sim... -- respondeu Alessandro.
--- O agente do correio pediu-me que entregasse esta carta aqui. --Dizendo isso entregou-a a Alessandro e voltou rapidamente para dentro do veículo e foi completar sua viagem até a cidade de Matão.
Alessandro recebeu a carta e olhando-a, viu que se tratava da mesma carta que ele tinha escrito ao Padre Ruffo, e que voltava ás suas mãos, graças ao endereço que ele tinha colocado como remetente. E no envelope estava escrito em letras grandes: ENDEREÇO E DESTINATÁRIO NÃO ENCONTRADO.
Alessandro, depois de ver o ônibus sumir na poeira  da estrada, fechou a porteira e desceu até onde estava sua mulher, e sentando no banco debaixo do pé de Ipê, disse para ela:
--- Não é possível... perto do cais, não pode haver tantas igrejas assim... e além do mais, em qualquer igreja que o correio entregasse esta carta, na certa ela acabaria chegando nas mãos do padre Ruffo... porque numa cidade, um padre conhece os outros padres... sinceramente não estou entendendo...
--- A carta voltou?... É isso então que o ônibus trouxe?... --Perguntou ela.
--- Sim... mas confesso que estou surpreso... na Itália tenho certeza que isso não ocorreria... isto é, esta carta nunca voltaria.
--- É mas aqui não é a Itália... e o carteiro, pode até nem ter procurado direito.
--- Mas... será possível que o maledêto não procurou direito?




                 Capítulo 05




Na Segunda feira seguinte, devia ser mais ou menos umas quatro horas da manhã, porque ainda estava muito escuro, Alessandro acordou com o choro de uma criança. Sentou-se na cama rapidamente, e notando que Giovanna estava acordada e soluçando, perguntou:
--- Que foi?
Ela, achando que ele se referia ao fato dela estar acordada, respondeu:
--- Eu e meus fantasmas...
--- Não... não é isso não... você não ouviu um barulho como se fosse o choro de criança?...
--- Já te disse... são os meus fantasmas...
Novamente ouviu-se aquele choro manhoso. E Alessandro então se levantando, disse:
--- Perdoe minha santa... mas eu estou ouvindo uma criança chorar e tenho certeza que não se trata de nenhum fantasma...
E chegando na porta do rancho, deparou com um embrulho de cobertores que se agitava sozinho.
--- Santa!... gritou. ... venha aqui depressa...
Giovanna chegando correndo, abaixou-se e pegando o embrulho nos braços, disse:
---Dio mio... um bebê...  trás o lampião Alessandro... depressa.
E levando o embrulho para a cima do colchão de palha, onde até a pouco dormiam, abriu  o cobertor e à luz do lampião que Alessandro segurava, Giovanna exclamou:
--- Um menino... um bebê... ai meu São Genaro... ele deve estar com fome... o quê eu faço agora...
--- Tem uma mamadeira pequena aí, no meio do cobertor. Disse Alessandro.
--- É mesmo... graças à Deus... e colocando o bico dela em sua boquinha, foi dizendo carinhosamente. vamos neném... mama... mama... e virando para seu marido num misto se surpresa e encanto, disse ... e eu que estava ouvindo o choro dele há muito tempo e achava que era auto sugestão minha.
--- Quem será que fez esta maldade... disse Alessandro.
--- Não vamos julgar quem fez, na certa não fez sorrindo... e agora deve estar sentindo muita dor... disse ela.
--- E o que vamos fazer com ele? Perguntou o marido
--- Ora... criá-lo... ou você tem coragem de jogá-lo fora.
--- Não... lógico que não... mas... mas acho que devíamos leva-lo para Araraquara ou Matão... e... e entregá-lo numa casa de assistência. Disse Alessandro.
--- Por quê?... Porque não podemos criá-lo?... só porque é de cor?...
--- Claro que não... mas fomos pegos de surpresa... você não está preparada para adotá-lo... e por acaso eu estava preparada para ter aquele que abortei?
--- Minha santa... acontece que para aquele, você ainda teria no mínimo oito meses para se preparar... mas para este não, nem leite você tem... e ele ainda está muito novinho...
--- Acho que foi a Providência Divina que mandou ele para nossa casa... e eu não vou deixá-lo sair daqui, não... Alessandro... eu te peço... eu preciso dele... eu preciso mais dele que ele de mim... não me impeça de ser útil...  não me impeça de ser mãe, mesmo que seja por adoção.
--- Já que queres tanto assim... então também quero... vamos registra-lo.
Giovanna deu um pulo, abraçou seu marido e beijando-o sem parar, disse:
--- A partir de hoje nossa vida vai ser melhor que antes... agora...  vamos ser uma família, de fato.
--- Já que agora sou pai, tenho que ir procurar leite numa fazenda por perto.
Falando assim olhou para fora e viu que o dia já tinha clareado tanto que até o sol já tinha saído, e pegando um balde saiu do rancho, deixando Giovanna vivenciar com  plenitude, sorvendo todos os momentos e todos os encantos da possibilidade de ser mãe.



                       ****************



Enquanto recebia uma caneca de café das mãos de Giovanna, junto com um bom pedaço de bolo de fubá, perguntou:
--- E o nome?.... já escolheu?
--- Bernardo... sempre desejei colocar este nome em meu filho... que acha? Perguntou ela sorrindo.
--- Humm!... bonito. Respondeu ele com a boca cheia de bolo.
--- Ai Dio mio, tem dois cavaleiros lá na porteira... tomara que não estejam atrás da criança... disse assustada Giovanna.
--- É o Sr. Sandoval, não está reconhecendo ele não? - disse Alessandro, fazendo sinal para ele com a mão, que já estava indo para abrir a porteira.
--- Alessandro... não diga para ele nada sobre a criança... deixa que eles descubram sozinhos... tá?
--- Tudo bem... - disse ele já a caminho da porteira.
E abrindo-a, já encontrou os dois cavaleiros apeados e com as rédeas dos animais amarrados na cerca de arame farpado.
--- Bom dia Sr. Sandoval... bom dia meu senhor... disse Alessandro estendendo a mão para cumprimentar os dois.
--- Bom dia Sr Alessandro, como tem passado?
--- Muito bem... graças à Deus, vamos entrar...
E dando passagem aos dois senhores, Alessandro encostou a porteira e caminhou junto deles enquanto conversavam.
--- Depois que eu saí da fazenda, é que eu pensei que talvez não o encontrasse em casa. Falou o fazendeiro.
--- Mas porque esta duvida... a gente quase não sai daqui... disse Alessandro.
--- Pois é... mas como hoje é Domingo, achei que poderiam ter ido assistir missa em Matão.
--- A ultima missa que assistimos foi em Araraquara... e já deve ter mais de seis meses...  ah!... aqui tudo é longe, não?.... se ao menos tivéssemos uma condução...
E chegando na porta do rancho, Alessandro convidou-os a assentarem no banco, debaixo do pê de ipê.
--- Sentem-se ali... por favor... e virando para o acompanhante do fazendeiro, que era na verdade um dos dois que estiveram no rancho junto com o Sr. Sandoval, na época da primeira visita do fazendeiro, perguntou... o nome do senhor é?
--- Alfredo... eu sou o capataz da fazenda do Sr. Sandoval.
--- Muito prazer... mas sente-se também, vocês aceitam um café... minha esposa acabou de coar...
--- Aceitamos sim... disse o fazendeiro, e sentando-se completou. ... vamos sentar um pouco, mas o principal motivo da minha vinda aqui, é acertar com o senhor os tijolos...
--- O senhor gostou deles?...  perguntou Alessandro, entregando-lhes um xícara de café.
--- Muito bons... segundo os pedreiros: muito bem queimados, bastante uniformes e feitos com uma terra excelente.
--- Foi trabalho do Sr. Geraldo... e aliás, como ele está?... porque não o trouxeram?
--- O Geraldo foi embora... ele foi lá para as  terras do Tietê... respondeu o capataz.
--- Ah!... foi?... Que pena!... Bom trabalhador, conversa pouco...  disse Alessandro.
--- É... ele estava na fazenda desde o tempo da escravidão... depois da libertação, passou a trabalhar assalariado... mas dizem que sempre falava nos parentes que tinha  no Tietê. E agora resolveu ir de vez  para lá.
--- Ele disse que agora  tinha uma profissão... e que ia tentar a vida trabalhando por conta própria. Completou Alfredo.
--- Não vão me dizer que ele vai fabricar tijolos? Hein!?... Perguntou quase rindo Alessandro.
--- É... ao que tudo indica... ele vai fazer é isso mesmo. Respondeu Alfredo e todos deram uma sonora gargalha.
--- Ah! não brinca?... Ele disse isso mesmo? Falou novamente Alessandro, e deram outra gargalhada.
--- Mas sr. Alessandro... Enquanto os senhores estão rindo, eu estou aqui admirando a competência do sr. ... Sua casa já está quase pronta... E eu estive aqui há um mês atrás, mais ou menos, e o senhor estava praticamente começando-a... Sem falar que neste mesmo tempo, o sr. fabricou tijolos...  cercou o a entrada... Fez uma porteira... Cuidou do sitio... E fez toda armação de madeira da casa... O senhor parece uma máquina, fico muito contente por tê-lo como vizinho.
--- Ah... que nada... Acontece que pra cuidar somos dois, pois minha esposa me ajuda muito... E depois para os tijolos, eu contei com o sr. Geraldo, e como disse... Ele trabalhava com muita vontade, tanto que praticamente ele fez quase todos sozinho...
--- És uma pessoa bem modesta sr. Alessandro... Existem muito poucas pessoas por aí como o senhor... Bem mas, primeiramente eu quero pedir desculpas por vir só agora, mas é que na verdade eu moro em São Paulo, e somente uma vez por mês eu venho à fazenda, por isso eu não vim antes.
--- Quer dizer que a fazenda fica por conta do senhor Alfredo? Parabéns também sr. Alfredo... Está um lindo cafezal...
--- Muito obrigado sr. Alessandro. Disse o capataz.
--- Mas sr. Alessandro... sem delongas, quanto lhe devo pelos excelentes tijolos?
--- Pelo que sei... Barro a gente não vende... E para fazer os tijolos, o senhor me mandou um excelente empregado... Mandou a madeira para construir a pipa... Mandou a lenha para queima-los... Mandou a carroça para transportá-los... Portanto, não vejo porque estaria o senhor em débito comigo.
--- Não mas isto não esta certo... Sem o senhor aqui, eu teria que compra-los em Araraquara, e posso lhe garantir que os pedreiros não estariam tão satisfeitos como estão, quanto a qualidade dos mesmos... nada disso, se eu soubesse que não ia me cobrar, eu não os teria pedido ao senhor. E além do mais... Mais tarde eu devo precisar de mais... E eu gostaria que o senhor os fizessem para mim.
--- Mas não precisa se incomodar com isso. Vizinhos são para isso mesmo... Quando precisar pode me falar que terei prazer em servi-lo novamente.
--- Tudo bem... E se levantando para ir embora, falou num tom de despedida. ... Sr. Alessandro, sou extremamente grato pelo trabalho que o senhor realizou para mim, aceite o meu muito obrigado, e aceite também este dinheiro, como forma não de pagamento, mas de uma ajuda para terminar pelo menos a construção da sua casa.
--- Neste caso já que o senhor insiste... Eu também não quero cometer nenhuma desfeita ao senhor. Disse o italiano. ... Mas os senhores já vão?... ainda é cedo... Eu ia mostrar-lhes minha casa...
--- Não, isso vai ficar para outra oportunidade... E entregando o dinheiro a Alessandro, começou a caminhar para porteira, seguido pelo capataz,  e no meio do caminho, virou para traz e disse:
- Tenham um bom dia, o senhor e sua senhora, e continue assim que vocês vão longe.
--- Obrigado sr. Sandoval...  E apareça quando quiser... E você também sr. Alfredo, volte sempre...
Alessandro acompanhou-os com os olhos, até que montaram em seus cavalos e partiram. Depois então contou as notas que tinha recebido e entrando dentro no rancho de bambu, onde Giovanna ficou o tempo todo com o bebê que dormia.
--- Que faz você aí, que nem quis aparecer para as visitas.
--- Eu fiquei com medo que ele chorasse e eles pedissem para vê-lo. Se ele fosse da nossa cor, nenhum dos dois ia estranhar, mas não sendo... e sendo quase um recém nascido, lógico que ia despertar perguntas desagradáveis. Mas foi bom que ele dormiu o tempo todo.
--- Veja só o que os tijolos renderam... Cento e vinte réis... É um bom dinheiro... E vendendo o feijão, a batata e o milho, vai dar para acabar a casa, mobilia-la e ainda comprar talvez uma charrete, para passearmos de vez em quando.
--- Graças a Deus... Eu não te falei que a nossa vida ia melhorar. Disse a mulher satisfeita com a previsão feita pelo marido.





                        **************




Com o que recebeu dos tijolos e com a venda dos cereais e a batata, Alessandro conseguiu realmente acabar a casa, comprar alguns móveis, incluindo até um berço para o bebê. Comprou de Segunda mão uma charrete e um burro, que marcou em seu lombo à fogo, as iniciais AG. A aquisição desta charrete tornou muito mais fácil a vida deles, pois além de poder assistir à Santa Missa todos os domingos na cidade de Matão, tornava o sitio mais independente do caminhão do “vandinho”, pois quando este demorava aparecer, Alessandro mesmo levava sua produção para vender na cidade.
De forma que a vida dos dois agora transcorria às mil maravilhas, pois com o término da construção da casa, sobrava mais tempo para Alessandro cuidar do sítio e suas plantações e para Giovanna, que agora tinha mais alguém dependendo dela, o pequeno Bernardo. E como bons católicos que eram, graças à compra da charrete, nunca mais deixaram de aos domingos irem à igreja na cidade.
No ano seguinte, já no final de 1911 aconteceu um evento muito bonito e grandioso na cidade de Matão. Muitas pessoas e fazendeiros igualmente ilustres, foram convidadas para as solenidades de inauguração dos Serviços de Água Potável e Esgotos da cidade.
E num Domingo então, dia da grande festa, a cidade amanheceu com alvorada musical a cargo da banda da cidade. Houve soltura de fogos de artifício e Missa Concelebrada, acompanhada por Canto Gregoriano.
Alessandro, Giovanna e o pequeno Bernardo, saíram cedo do sítio para assistir a esta tão propalada festa.  E sentados no banco da charrete, os dois conversavam.
--- Foram convidados todos os fazendeiros da redondeza de Matão e até de Araraquara... disse Giovana.
--- Tomara que o padre Miguel Ruffo tenha também sido convidado. Falou o marido.
--- Ah se ele estiver por lá... Eu bem que pediria a ele para dar uma benção no Bernadinho... disse Giovanna, acariciando o garoto que ia sentado no colo dela.

Era cedo para a missa, aliás a missa na verdade era o ponto central da festa, e como tal, ela só aconteceu depois dos discursos políticos.
Enquanto aconteciam estes discursos, Alessandro e Giovanna, ficaram dando voltas pelo largo da igreja, vendo as pessoas que chegavam. E andando por entre os presentes, enquanto Alessandro se preocupava em ver os arreios de cavalos, charretes e carros, Bernardo, cansou rápido e dormiu no ombro de Giovanna. Esta, por sua vez, se preocupava em ver os vestidos das madames e as roupas da criançada. E foi reparando numa moça jovem, muito bem vestida, que notou sem querer que ela estava acompanhada do Dr. André. E virando rapidamente para Alessandro, disse quase que gritado.
--- Ali Alessandro... E percebendo que falara alto demais, levou a mão á boca baixando logo a voz, agora quase sussurrando completou o restante da frase:
-- É ele... o Dr. André... do navio, lembra?
--- É mesmo... e olha só que noiva bonita que ele tem.
--- Ah!... mais amor e menos confiança... Eu te mostrei ele, porque me passou na cabeça conversar com ele sobre aquele problema meu.
--- Problema seu?... Ah! sobre o fato de não se engravidar? Pra quê?... você já não tem um filho...
--- Ah!... você é homem e não entende nada de mulher... Vamos lá... Vamos conversar com ele... se houver oportunidade, eu pergunto... Vamos.
E caminhando na direção do casal, chegaram. André conversava com sua noiva e só notou a presença deles , quando Alessandro o chamou pelo nome.
--- Com licença, como vai Dr. André? Lembra-se de nós?
André olhou para ele e depois para ela, e desconcertado, disse:
--- Eu?... Oh!... Espere ai... Eu conheço vocês sim... Vocês...
--- Do navio Andaluz... No inicio do ano passado... Disse Alessandro ajudando-o a puxar pela memória.
--- Ah!... Isso mesmo... Vocês vieram da Itália...
--- E eu abortei dentro do navio... Quase na chegada ao Brasil. Disse Giovanna.
--- Isso... Isso mesmo... Seu nome... é Gioconda.
--- Giovanna. - Disse Alessandro dando um sorriso.
--- Desculpe-me, e esta é minha noiva, Sta. Adriana. Mas, vejo até que com certa alegria que já tem um garoto nos braços. Vocês italianos são de muita fibra.
Nesta hora Giovanna que trazia o menino dormindo no ombro, forçou-o para frente, para que o médico o visse direito. André que havia falado aquilo, com um leve sorriso nos lábios, ao ver que o garoto era de cor, empalideceu. O mesmo aconteceu com sua noiva, que não soube segurar o semblante alegre que fazia, mas foi ela mesma que quebrou o gelo que ameaçava se instalar.
--- Vocês o adotaram.? Perguntou meio sem graça.
--- Sim... - Disse Giovanna e continuou. - Porque eu nunca mais voltei a ser normal... Depois do aborto.
--- Olha... Eu não mais trabalho en navios, agora eu moro na cidade de Santos, onde mantenho um consultório fixo, e atendo também na Santa Casa. Disse André.
--- Mas eu até que queria fazer uma consulta com o senhor, mas Santos para nós fica muito longe. - Disse Giovanna.
--- Olha eu mantenho todos as fichas dos pacientes que atendi dentro dos navios em meu fichário, lá no consultório. Eu vou anotar o endereço de vocês e chegando lá, vou dar uma analisada muito boa na sua ficha. De posse dos dados que nela houver, eu prometo escrever-lhes uma carta, e indicar-lhes um médico daqui de Matão ou de Araraquara ou até mesmo de São Carlos. Acho até mais provável que indicarei de São Carlos, porque sendo minha terra, eu conheço mais médicos por lá.
--- Nós não vamos atrapalhar o namoro de vocês mais, não. - Disse Giovanna, e acrescentou:  Mas eu ficaria muito grata se o senhor desse esta atenção de que fala, a minha pessoa e escrevesse mesmo esta carta, porque eu não sei mais o que fazer.
--- Pode deixar comigo... e depois de anotar o endereço, disse: E quando forem a Santos, apareçam em meu consultório... Agora se nós já estivermos casados, aí o convite passa para a nossa casa, não é Adriana?
--- Será um prazer recebe-los lá. Completou ela.
--- Pois não doutor... mas, foi um prazer revê-los. Disse Alessandro.
--- Até outro dia doutor... e muito prazer sta. Adriana.  - Disse Giovanna, ao se retirar com Alessandro.






       Capitulo 06




Dr. André no entanto, como disse anteriormente, a partir do momento que ficou livre da presença do casal, nem sua querida Adriana fez com que ele voltasse à sua normalidade, tanto que ela mesma ficou muito intrigada, com esta mudança de atitude do noivo, e começou a questioná-lo.
--- André... você pode enganar a qualquer um dizendo que está tudo normal, mas não queira me incluir nesta lista também, porque eu te conheço e sei que a presença daquele casal e a lembrança daquele aborto, tirou completamente a sua paz.
--- Tirou sim... E à medida que penso nos dois, estou me lembrando de tudo.
--- De tudo o quê? Insistiu Adriana.
--- Quando o navio se aproximava das águas brasileiras, ela foi acometida de uma forte hemorragia intrauterina. E brava, como é a maioria das mulheres italianas, ela ficou a noite toda perdendo sangue, esperando que o dia amanhecesse para então me procurar.
--- E aí, pelo que parece, saiu alguma coisa errada? Não foi?
--- Sim... ela ficou estéril...
--- E você não revelou a ela esta situação?
--- Não... Eu me embriaguei... Quis abandonar a medicina... Só não fiz nada disso porque o capitão se envolveu na história e me impediu.
--- Mas André, uma vez que você se lembrou, por que você não aproveita e conversa com eles, e tira logo isso da cabeça?
--- Bem que eu precisava fazer isso, mas me falta coragem...
--- Coragem?...
--- Deixa estar... eu vou amadurecer a ideia, e talvez escreva para ela uma carta narrando tudo... Sei que é covardia minha... Mas... Me dê um pouco mais de tempo, preciso pensar mais... Agora vamos acabar de assistir a missa... Depois a gente conversa mais sobre isso.





            *************



A casa por sua vez fora muito bem construída, justificando plenamente todo o sacrifício que exigiu de seus donos, ao construí-la. Pois alem do quarto de casal, dois outros foram construídos também, sendo um para o filho, quando este estivesse maior, e o outro para hóspedes. Uma sala grande, uma cozinha, um quarto para banho dotado de um bacião de folha, e um vaso sanitário, cujo esgoto era canalizado para uma fossa, localizada distante da casa, bem ao lado da olaria. Na frente, com vista para a parte alta do sitio, havia sido feito uma varanda estreita mas comprida, onde à tarde, depois do jantar, ficavam os dois a recordar os tempos vividos na sua adorada Itália.
Um mês e meio mais ou menos, depois da grandiosa festa de Matão, já no inicio 1912, num sábado depois do almoço, estava Alessandro abrindo as covas para refazer o mandiocal, quando inesperadamente ouviu a buzina de um carro, estacionado na frente da porteira. Largando a enxada junto das mudas, foi atender ao chamado. Ao abrir a porteira, reconheceu dentro do carro, o Dr. André e sua noiva Adriana. E largando a porteira, foi até o carro cumprimentar os dois.
--- Dr. André... sta. Adriana... mas que prazer, vamos chegar.
E André ao ver Alessandro, saiu do carro e deu a volta para cumprimenta-lo e ao mesmo tempo abrir a porta do veículo para sua noiva.
--- Como vai Alessandro? Eu estava na duvida se era aqui, por isso não desci do carro antes de você aparecer na porteira, porque eu parei em dois sítios aí para trás, e em um quase fui mordido por um cachorro.
--- Ah... Mas aqui não tinha como o senhor errar não...  E apontando para o lado, disse. ...Ali a placa... Eu não falei que tinha uma placa?
--- É... Agora me lembro que realmente você falou que tinha uma placa... Mas eu tinha me esquecido completamente.
--- Mas vamos entrando. Giovanna vai ficar muito contente, e abrindo a porteira, segurou-a enquanto os dois jovens passavam por ela. E  enquanto desciam até a casa, continuou falando.
--Ela quase todo dia fala comigo. “É,... o Dr. André nem ligou de me escrever...”
Postada na varanda, curiosa como toda mulher, Giovanna que também ouvira a buzina, aguardava o retorno do marido para saber quem é que estava chamando. Mas quando reconheceu de longe os visitantes, deixou Bernardo sentado na varanda, e desceu as escadas correndo para encontrar com eles no meio do caminho. E chegando até eles, foi logo falando:
--- Dr. André?... sta. Adriana?... Mas que surpresa!... E eu que estava esperando uma carta...
--- Como tem passado minha senhora? Disse o médico.
--- Que lugar maravilhoso é o sitio de vocês... - disse Adriana. Olha só que beleza aquele pé de ipê amarelo... E que sombra gostosa ele faz naquele  banquinho...
Enquanto aconteciam os cumprimentos próximo ao local da sede, ouviu-se um grito acompanhado por um choro forte. Logicamente todos olharam rapidamente para a varanda e viram com tristeza e espanto, o garotinho Bernardo, estatelado no chão de terra, aos pés da escada que dava acesso à varanda.
--- Mama mia... esqueci-me dele... disse Giovanna, correndo ao mesmo tempo em seu  socorro.
Aliás não foi só ela que correu mas sim todos, porque não era a altura de quatro degraus que assustava, mas o choro forte e continuado da criança, que denunciava a possibilidade de ter havido uma conseqüência maior.
Chegando junto com a mãe, André evitou que ela pegasse a criança e examinando-a no chão mesmo, foi falando.
--- Calma Da. Giovanna... deixe-me dar uma olhada primeiro... não se preocupe com o choro... para o caso de traumatismo craniano esse choro forte é até um bom sinal... mas...  foi aqui... ó... ele fraturou o antebraço direito.
--- Ah!... Doutor quebrou?... Coitadinho. Disse a mãe.
--- E como vamos fazer agora?... Só temos recursos em Araraquara... disse Alessandro.
--- Calma... Eu também sou médico... Deixe que a gente dá um jeito. Alessandro, vamos... me arranje duas talas de madeira fina, mas resistentes.  E a sra. Da. Giovanna pegue um lençol e corte algumas faixas com a largura de cinco centímetros... e enquanto eu o levo para dentro, você Adriana... vá lá no carro e traga minha maleta... e... dentro do porta-luvas, tem umas amostra grátis... traga todas... que aqui eu escolho.
André então levou-o para a mesa da sala, e o garoto  continuava chorando forte. O primeiro a chegar foi Alessandro com as réguas. Logo depois foi a vez de Adriana com os remédios, que colocou em cima da mesa e a maleta em cima de uma cadeira, abrindo-a.
--- Alessandro, venha cá e segure-o para mim, mas desta forma que estou segurando... e passando as posições que segurava para o pai do garoto, foi dizendo. ... assim... agora aqui...  não se importe com o choro, deixe-o chorar... e enquanto retirava o aparelho de  injeção da maleta, disse para Adriana... vai dar uma ajuda para a mãe dele fazer as faixas e enrole-as para mim.
E colocando o aparelho para ferver, André foi até seu remédios que estavam em cima da mesa e retirou de dentro de uma caixa uma ampola. E depois de serrar seu bico com uma serrinha metálica, quebrou-a.
Chegaram as duas mulheres e Giovanna chorava copiosamente, se culpando pelo tombo do garoto.
Após a fervura do aparelho, André retirou com as pontas dos dedos a seringa, isto é, o tubo externo e o êmbolo, e começou a abaná-los para esfriá-los rapidamente. Depois com a seringa montada, retirou a terça parte do total de líquido que continha na ampola, jogando o resto fora. Com isso pronto, pediu a Adriana que suspendesse a camisola do garoto e fizesse girar suas perninhas, sem forçar muito, para não alterar a posição que o Alessandro já segurava. E dizendo.
--- Agora segurem firme que eu vou aplicar a injeção. E depois de aplicada, disse agora pode soltá-lo Adriana... Deixe que eu seguro o algodão no lugar... ele vai chorar mais um pouco e logo, logo, vai dormir... só sedando-o é que conseguirei mexer no braço dele.
E mantendo-o naquela posição, depois de alguns minutos Bernardo adormeceu. André então pegou duas mechas de algodão e depois de procurar a posição de encache dos ossos, envolveu o antebraço do menino com as mechas. Depois colocou as duas talas que Alessandro tinha arrumado, e começou o processo de imobilização, enrolando as faixas que as mulheres tinha cortado do lençol. Nesta hora, um pouco mais calma, Giovanna disse em meio aos soluços oriundos do seu próprio choro.
--- Quando o vi no chão chorando forte... tive medo de perdê-lo.
André que concentrado enrolava a faixa, ao ouvir a frase de Giovanna, disse.
--- Esta sensação de perda que você sentiu, é muito comum nas mulheres que tem um filho só... você resolve isto adotando mais um.
--- Então doutor esta é a resposta que o senhor tinha pra me dar... nunca mais poderei engravidar?
Pego de surpresa, André parou momentaneamente de enrolar a faixa e depois de olhar para Adriana, que sem graça desviou logo o olhar, ele então olhou para Giovanna e disse:
--- Infelizmente... eu não tenho outra alternativa para consolá-la.
--- Mas doutor... eu já vi tantas mulheres abortar e continuar se engravidando, porque só comigo isso aconteceu?
--- O que aconteceu com você, foi uma série de coisas erradas:
     Primeiro: A senhora não podia ter ficado com aquela hemorragia durante o tempo que ficou.
     Segundo: a crise de vômitos secos, que veio junto com a hemorragia, também ajudou a complicar a situação.
     Terceiro: Aquela sala de enfermaria, não estava dotada de um centro cirúrgico, que a senhora passou a necessitar, uma vez que vinha de um logo período hemorrágico.
Quarto: Por não ser exatamente um centro cirúrgico, eu tive que trabalhar sem a iluminação adequada e o que é pior ainda, sem as ferramentas necessárias e próprias, para a operação que eu tinha de fazer na senhora.
--- Desculpe-me doutor, mas uma coisa eu não entendi, interveio Alessandro, e continuou. ... se faltavam só três dias para chegarmos em terra, não era melhor ter tentado estancar a hemorragia e deixado a cirurgia para fazer num hospital?.
E André que  continuou a fazer trabalho no garoto enquanto falava e ouvia, terminou sua tarefa. E agora enquanto guardava seus pertences, respondeu.
--- E vocês acham que eu não medi as conseqüências?... eu hoje deito em minha cama e consigo dormir, exatamente porque fiz naquele dia o que tinha de ser feito, e na hora certa. Porque se eu esperasse chegar em terra como vocês afirmam, ela tinha corrido sérios riscos de tétano e gangrena... e se isso acontecesse, que era o mais provável... ela não estaria hoje aqui cuidando do braço deste menino.
--- E por quê o senhor não nos contou a verdade, na época?
André entregando o garoto ainda dormindo à sua mãe, sentou numa cadeira de palhinha, onde tos já estavam sentados, e continuou.
--- Acho que foi aí, onde realmente errei... eu devia ter chamado seu marido e tido uma conversa franca com vocês...  mas a coisa não foi tão simples assim não... em função desta intervenção, eu preferi tomar um porre e queria rasgar meu certificado de Medicina... que graças ao capitão do barco eu não fiz.... e descontrolado, ele me aconselhou a não estragar a lua de mel de vocês... e por menor que fosse o tempo que vocês levassem para descobrir a verdade, era o que ele pedia para que eu ainda deixasse vocês desfrutarem dos sonhos comuns a todos casais... e eu aceitei este conselho... se fiz certo, não sei responder...
--- Obrigado doutor por salvar minha esposa e agora cuidar de meu filho... estamos devendo mais uma ao senhor. Disse Alessandro.
--- Perdão doutor... se algum dia eu o tenha julgado mau... e muito obrigado por estar aqui agora e cuidar de meu filho... Não sei como estaríamos agora se não fosse a visita oportuna dos senhores. Disse Giovanna.
--- Quanto a isso vocês não me devem nada... a minha vinda aqui... era a única maneira que eu tinha para corrigir algumas coisas... e uma carta, por melhor que fosse escrita, não seria suficiente, creio.
--- E o Bernardo... o que fazemos com ele daqui para frente... perguntou Alessandro.
--- Bom... eu vou deixar uma medicação para dor e inflamação... não deixe que ele brinque com terra, para não sujar as bandagens... porque não se pode mexer enquanto estiver em processo de colagem... e como se trata de criança, a recuperação é muito mais rápida. Daqui a trinta dias... vocês devem levá-lo à Santa casa de Araraquara, para que um ortopedista tire as bandagens e faça um exame... mas é só isso... a rotina dele não muda muito.
--- E quando ele acordar?... se ele continuar chorando? Perguntou Giovanna.
--- Olha... esta noite ele vai passa-la, assim meio sonolento e choramingando um pouco... mas amanhã cedo, antes da primeira mamadeira, a senhora entra com a medicação que estou deixando e para o resto do dia, ele vai ficando mais normal. E.. se levantando, olhou para Adriana que também o imitou, disse. ...agora vocês nos desculpem, mas nós temos que ir embora... porque já está ficando tarde... e nós falamos que não íamos demorar... a esta hora é bem capaz que os sogros estejam pensando que nós fugimos... não é Adriana?
--- Pois é... já são quase cinco horas... como o tempo passa, não? disse ela.
--- Pois doutor, fique o senhor sabendo que ficamos muito contentes com a visita de vocês... e quando puderem apareçam por aqui. Disse Alessandro
--- Mas que vergonha, nem um café eu ofereci para vocês... mas também, com o que este moleque aprontou, acabou me descontrolando toda... retrucou Giovanna.
--- Não senhora... disse Adriana, nós entendemos perfeitamente... um outro dia a gente volta e vamos bater um longo papo sentadas ali, naquele banco debaixo do ipê.
E falando assim se despediram de Giovanna, e foram  descendo a escada em direção ao automóvel.  Alessandro se incumbiu de leva-los até à porteira.



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Desde aquela triste tarde de um  Sábado crepuscular do mês de janeiro de 1912, Giovanna aceitou de vez a sua sina de mulher estéril. Nunca mais abriu sua boca para tocar neste assunto. Alessandro por sua vez, apesar de nunca ter se preocupado com isso, mas simplesmente por achar cedo demais, com a verdade vindo à tona, ficou frustrado com a não perpetuação de sua raça. Mas seu comportamento foi louvável em todos os sentidos, pois extremamente sensibilizado com sua consorte, nunca... mas nunca mesmo, quer em conversa com ela ou com quem quer que seja, ou até mesmo em atos, deixou sequer extravasar este seu sentimento.
Destarte, podemos dizer que Bernardo se transformou no alvo maior, que os dois se propuseram amar com todas as forças de seus corações. Naquele garoto, Giovanna e Alessandro, viam ternura, presente, vida, lirismo, poesia e esperança.
Veio o ano de 1914, e em 28 de julho, eclode por fim na Europa, a Guerra envolvendo de um lado a Tríplice Aliança: Alemanha, Áustria-Hungria e mais a Itália, e do outro a Tríplice Entente, que compreendia: França, Inglaterra e Rússia.
Foram tempos difíceis estes, não só para o nosso casal em si, mas para todos os estrangeiros que moravam aqui no Brasil. Pois que o “vulcão tinha  entrado em erupção”, todo o mundo ficou sabendo, inclusive nós brasileiros, mas as notícias específicas de cada país, quando chegava até nós, chegava às vezes muito deturpada.
Nesta fase triste e melancólica que durou de 1914 a 1918, para rechaçar a saudade de seu pais e de seus parentes, o amor dedicado ao garoto Bernardo, foi fundamental para a sobrevivência dos dois. E tomando como espelho a pessoa do Dr. André, o sonho de Giovanna e Alessandro era  de fazer de Bernardo, um Médico respeitado, e para isso não mediriam esforços.
Bernardo por sua vez cresceu num ambiente familiar, e correspondeu totalmente com o modo de criação e com o amor a ele dedicado. Desde o   dia em que conseguiu erguer sozinho uma enxada, nunca mais deixou seu pai trabalhar sozinho na lavoura.
A partir do ano de 1917, ano em que completou sete anos, Alessandro foi com muito orgulho matriculá-lo no Grupo Escolar de Matão, para fazer o curso  primário. Como moravam distante, todo dia depois do almoço, Alessandro o levava na charrete e o buscava à tardinha, depois das aulas. Mas à medida em que foi crescendo, passou a montar um cavalo que foi comprado unicamente para satisfazer sua necessidade de ir a escola, e com muito orgulho Alessandro também o marcou com as iniciais AG. Desta forma então, ele passou a ir e a voltar sozinho, não precisando mais retirar seu pai do trabalho de manutenção do sítio. Mas infelizmente, nem tudo sai como a gente quer e deseja, pois do segundo ano em diante, começou a aparecer para o casal, os problemas comuns à todos os pais que adotam crianças de cor, ou vice versa. Bernardo a principio começou questionando sua origem, pois sendo ele de cor, jamais poderia ser filho de pais brancos. Alessandro e Giovanna a principio conseguia contornar tais perguntas misturando verdades e mentiras, aproveitando a inocência do garoto. Mas a partir de 1922, quando ele completou doze anos e cursava o segundo ano ginasial, a coisa então começou a complicar de vez.
 Durante três dias seguidos, Bernardo simplesmente se limitou a tomar a bênção na hora de dormir e na hora de ir para a escola. Não trocou com seus pais uma só palavra que partisse dele, apenas respondia aquilo que lhe era perguntado. Alessandro tentava consolar Giovanna, que aproveitava as horas da escola para chorar o desamor mostrado por Bernardo, dizendo que esta fase era passageira e que ele voltaria ao normal. Mas no quarto dia, Bernardo chegou e ao contrário do que sempre fazia, que era desarrear o cavalo, guardando a sela no paiol (antiga casa de bambu) e levar o animal para o pasto atrás da inativa olaria, simplesmente apenas apeou, e entrando em casa, foi direto ao encontro de Giovanna e Alessandro, que estavam na cozinha. E encostando no marco da porta disse:
--- Hoje eu quero saber toda a verdade da minha vida...
--- Ôi meu filho... você já chegou?... disse Giovanna tentando desviar o assunto.

Alessandro sem assunto, apenas olhou para ele e se limitou a sorrir.
--- Eu já não sou tão criança assim para que vocês venham com historinhas para o meu lado... eu já sei que não sou filho de vocês... e que fui deixado na porta da casa de bambu, numa madrugada... mas agora eu quero a verdade... qual foi o preço que vocês realmente pagaram por mim?
--- Olha aqui garoto... disse Alessandro, com tom de voz mais ríspido. ... nós estamos fazendo uma força danada para entender o seu problema, mas por favor meu filho, vamos com calma por que agora você já está se excedendo.
--- Pois fique o senhor sabendo que não me calarei enquanto não ouvir de vocês a verdade...
--- Que verdade você quer saber?... você não acredita em nós... cada dia você vem com mais minhocas nesta cabeça...
--- Bernardo, meu filho... disse Giovanna, com olhos cheios de lágrimas, cortando a fala do marido, percebendo que ele já estava perdendo a calma. ... nós já te falamos tudo meu filho... não temos nada para esconder de você... meu bambino, será que o amor que nós dedicamos este tempo todo a você, ainda não foi o suficiente para que entendas de uma vez por todas que nós somos de fato seus pais.
--- Meus pais coisa nenhuma... meu pai se chama Geraldo... foi filho de escravo... e trabalhou aqui um mês antes da minha chegada...
Ao falar isso, foi o mesmo que dar uma chibatada no rostos de Alessandro e Giovanna, pois nunca em suas cabeças passou tal hipótese.
--- Quem anda te falando estas asneiras?... você acha então em sã consciência, que se eu soubesse que Geraldo era seu pai, eu não teria te devolvido? Ralhou Alessandro.
--- É meu filho... jamais íamos aceitá-lo, se soubéssemos quem eram os seus pais... porque teríamos medo de que depois de criado, eles poderiam voltar um dia para levá-lo embora. Disse Giovanna.
--- Mas este sentimento, vocês acharam que meu pai e minha mãe não tinham... pois compraram-me. Disse Bernardo.
Estas palavras agora atingiram o cerne da reação da Alessandro, que partindo pra cima dele deu-lhe, pela primeira vez na vida um tapa, este pegou bem no rosto. Bernardo deixando rolar duas lágrimas nos olhos, saiu as pressas da casa. Giovanna ao ver a reação do pai e do filho, caiu na cozinha e começou a gritar o nome dele. Alessandro, vendo que Giovanna apenas tinha caído, levantou-a e foi atrás do garoto. Quando chegou na varanda, ele acabava de montar o cavalo, e puxando o freio com volúpia direcionando o animal para a saída, arrancou da cabeça do arreio o embornal azul que continha os cadernos e os livros e arremessando-os na varanda, disse com raiva.
--- Aprender a fazer tijolos... este foi o preço.
E dizendo isso, arrancou com o cavalo e na saída da porteira, virou na direção de Araraquara.
Ali na varanda ficaram os dois estáticos, imóveis... só não digo que ali se fez um silêncio de túmulo, porque Giovanna soluçava muito. Mas não falaram uma palavra sequer. Seus olhos por um bom tempo, não saíram do canto da porteira semi-aberta, por onde o animal de Bernardo virou, indo para os lados de Araraquara.
Depois de um certo tempo, a raiva deu lugar à emoção dentro do coração de Alessandro, e ao começar também a chorar, entrou em casa levando Giovanna para dentro. Com a bolsa contendo os cadernos, abraçada contra seu peito, ela então falou:
--- E agora?
Depois de pensar um pouco, Alessandro respondeu:
--- Agora... agora... nada. Porque ele tem de esfriar a cabeça primeiro. Mesmo que eu o encontrasse ali em baixo, eu não conseguiria fazer com que ele voltasse para casa. Por esta noite a decisão tem que ficar por conta dele... pode até ser que daqui a pouco ele entre por esta porta e venha nos pedir perdão...
--- Mas pode ser também que genioso como é, nunca mais volte.
--- Mesmo que ele não volte Giovanna... embora eu não acredite nesta hipótese... mas este é o preço que temos que pagar... para que amanhã quando eu for procurá-lo, e tiver a sorte de encontrá-lo, termos alguma chance de conseguir convencê-lo a voltar.
--- Então... nós vamos ficar sem ele a noite toda?... ai Dio mio, será a noite mais longa de toda a minha vida.
--- Maldita hora em que pensei em mandá-lo estudar... maldita hora que alimentei o sonho de fazer dele um médico respeitado, como o Dr. André. -- Disse ele.
--- Mas isso só pode ter sido inveja de alguém, acrescentou ela.
--- Mas pensando bem... o que ele disse aqui hoje, nada mais é do que o reflexo do que dizem de nós na cidade... e embora eu não queira acreditar, mas acho que fomos ingênuos demais em não suspeitar do Geraldo. Disse Alessandro.
--- Mas até você agora está acreditando nisso...
--- Veja bem minha santa... o homem trabalhou conosco... você o tratou tão bem que não deixou que ele trouxesse almoço de casa e não saísse à tarde sem jantar com a gente... ele viu ganhou confiança em nós... já tinha quatro filhos... ia partir para uma vida desconhecida, cheia de incertezas... se por ventura naqueles dias, sua mulher ganhou um bebê, e ele não quisesse levá-lo com ele... com quem ele deixaria.
--- Sua mente está muito engenhosa... retrucou Giovanna.
--- Querida... vamos ser sensatos... desfazer de um filho, é para qualquer pessoa um verdadeiro trauma. Mas para quem foi escravo... quem viu seus pais ou seus irmãos serem vendidos para desconhecidos... deixar um filho, para ser tratado como um rei por uma família sem filhos, não sei não, viu... mas eu acho que para ele isto é até uma dádiva.
E ali então sentados naquela sala, ficaram a noite toda esperando pela volta de Bernardo, que infelizmente não voltou. Nesta angústia, Giovanna ora chorava, ora rezava. Alessandro também, mas em alguns momentos se levantava e saia até à porteira, para ver se  por acaso ele tinha voltado e estivesse com vergonha de entrar em casa.







Capítulo 07





Às cinco e meia da manhã, Alessandro deixando Giovanna cochilando sentada em uma cadeira e debruçada na mesa, foi até ao pequeno pasto perto da olaria, buscou o burro e começou a atrelá-lo na charrete. Quando estava pronto para partir, chegou perto de Giovanna e acordando-a com carinho, disse:
                 --- Minha santa... acorde vamos...
--- He-héin!?... ele chegou?
--- Não querida... infelizmente não... mas eu vou sair na charrete e vou para o lado que ele foi... posso voltar agorinha mesmo, mas posso também ter que chegar até Araraquara... e para fazer isso, preciso primeiro saber se você está bem... porque posso demorar o dia todo...
--- Eu sei que vou chorar e rezar o dia todo... mas vou ficar bem... vá... leve dinheiro para você comer alguma coisa pelo caminho... ele também vai estar com fome... vai  e que San Genaro te guie...
--- Mas então levante, vamos... procure fazer alguma coisa que possa entretê-la... porque se você ficar entregue a estes pensamentos negros... bem, aí você pode muito bem vir a se sentir mal durante o dia...
--- Pode ir tranquilo... eu vou ficar bem... e tenho certeza que você vai trazê-lo de volta.
Giovanna, ficou na varanda do sítio vendo seu marido partir e ficou rezando, pedindo a Deus que amainasse o coração de Bernardo e fizesse com que ele perdesse nesta sua saída de casa, esta tola revolta, que trazia inquieto seu pobre  coração.
Alessandro subiu na charrete e a fez subir a ladeirinha do sítio, saindo na porteira e virando para os lados de Araraquara. Em sua cabeça um só pensamento: achar Bernardo e convencê-lo a voltar para casa. Foram trinta quilômetros repleto de paradas e investigações. Em quase todos os sítios e fazendas que tinham acesso pela estrada, ele entrou e perguntou pelo menino. Como não encontrava respostas, continuava avançando. E quando deu conta de onde estava, já se encontrava entrando na cidade de Araraquara. E nesta hora, disse pra si mesmo. "Agora fica mais difícil ... minha esperança era encontrá-lo na estrada... em uma cidade, existe milhares de opções... só mesmo contando com a ajuda de Deus".
E debalde, Alessandro vagou pela cidade. Um tanto ele percorreu ainda com auxílio da charrete, mas depois lembrando que ainda teria que voltar para casa, resolveu deixar o burro descansando e continuou a busca a pé. Esteve em vários lugares: na estação ferroviária; na rodoviária; na praça; na delegacia; enfim, em todos os lugares pelos quais, no pensamento dele, o garoto poderia ter passado.
Por fim, vendo a tarde se aproximar com rapidez, resolveu voltar enquanto ainda podia viajar. E quando deu mais ou menos seis horas da tarde, já estava abrindo a porteira do seu terreno. E começando a descer a ladeira de acesso à casa, viu Giovanna na varanda, com as mãos postas e as pontas dos dedos atravessando seus lábios. Alessandro chegou em frente a casa de bambu, desceu do cavalo, desatrelou o burro e o tocou para o pasto.
Giovanna assistia a tudo, sem fazer nenhuma pergunta. O silêncio que se fez presente ali, era a resposta ou a pergunta, que nenhum dos dois queria pronunciar. Quando Alessandro, depois de guardar a charrete, caminhou para a varanda, viu que Giovanna  já não se encontrava mais ali. E entrando em casa, deparou com ela de joelhos, rezando no canto da sala.  Chegando por trás, disse.
--- Perdão querida... eu sei que a decepcionei... mas andei por todos os lugares onde imaginei que ele pudesse estar... mas infelizmente... nem notícias, eu consegui.
--- Eu tenho certeza que você fez o pode... disse ela.
--- Ele só pode estar em Araraquara... mas numa cidade, fica muito difícil  achar uma pessoa. Vamos continuar rezando, que talvez ele se arrependa e volte. Nossa esperança fica nas mãos de Deus...



                                            

          ****************


                                              
É triste dizer isto, mas os garotos do Grupo Escolar onde Bernardo estudava, fizeram um trabalho muito bem feito. Bernardo na verdade era filho de Geraldo, mas o argumento de que fora comprado era totalmente falso. E realmente, tanto Alessandro quanto Giovanna, jamais suspeitaram da hipótese do garoto ser filho deste agregado. E Bernardo por sua vez, a principio recusou a acreditar nesta conversa a todo custo, mas como diz o velho chavão: "água mole em pedra dura, tanto bate que até fura", depois que passou a aceitar definitivamente a paternidade de Geraldo, para que a revolta se instalasse em seu coração, foi só questão de tempo.  O sentimento de pena que passou a nutrir pelo seu progenitor, por sabê-lo escravo em tempos passados, colaborou em muito para que acreditasse nas mentiras que lhe foram contadas.
Bernardo, quando abandonou o sítio naquela tarde de  verão de 1922, tinha uma estatura muito privilegiada e podia muito bem passar por um jovem de mais idade. E quando no seu desespero chegou em Araraquara, desfez do cavalo, vendendo-o para um carroceiro. Este por sua vez, em razão do preço baixo que pagou, não quis nem saber de onde e como surgiu tal animal. Com o dinheiro que conseguiu, Bernardo comprou uma passagem para São Carlos e partiu no ônibus daquela mesma noite, e nunca mais voltou ao sítio.
Os anos se passaram. Alessandro acabou se conformando com o abandono do filho, mas sua mulher jamais aceitou esta separação. E a partir daquela triste noite, sua saúde não mais foi a mesma.
No início chorava dia e de noite. Era notória a falta de motivação que havia se instalado em seu coração, pois parecia não querer mais viver. Alessandro além de cuidar da lavoura, às vezes tinha que cuidar também da casa, porque sua mulher tinha ocasiões que nem para cozinhar, tinha ânimo. Para resolver este problema, Alessandro teve que contratar uma moça chamada Emília, filha de colonos que moravam em uma fazenda próxima ao seu sítio, para ajudar Giovanna e ainda ficar de companhia com ela, para quando precisasse sair.
Durante este tempo, Alessandro fez várias viagens a Araraquara. Algumas ele fez para se desfazer da produção do sítio, outras, para comprar algum remédio para sua mulher, e em outras, para suprir qualquer necessidade do sítio ou da própria casa. Numa destas muitas viagens, ele contratou uma carroça para recolher as compras que fizera, e as levassem até à rodoviária da cidade para embarca-las no ônibus de Matão. Mas ao sentar-se ao lado do carroceiro, viu sem querer a marca AG, queimada no lombo do animal. E sem fazer escândalo ou mesmo levantar suspeitas, conseguiu arrancar do carroceiro o destino que Bernardo tomara naquela noite que abandonou o sítio.
--- É... foi um rapaz de cor quem me vendeu este cavalo, numa noite... e comprei barato, pois ele precisava de dinheiro para ir pra São Carlos...
Essa informação Alessandro não passou para Giovanna, embora soubesse de antemão, que era o que ela mais queria ouvir na sua vida, mas o medo de que começasse novamente a alimentar esperanças, e com isso complicar mais sua já precária saúde, optou ele por fazer algumas batidas por lá, e tentar descobrir seu paradeiro primeiro.
E assim fez. Como  a cidade de São Carlos era pequena,  na segunda vez que chegou até lá, conseguiu vê-lo de longe trabalhando num armazém, como condutor de uma carroça de entregas. Sua aparência não era das piores não, continuava simpático, forte e espadaúdo. Estava com 16 anos, mas pelo corpo que tinha, parecia ter muito mais que isso. Alessandro preferiu esperar pacientemente que ele saísse para o almoço. E quando saiu, Alessandro seguiu-o de longe, numa tentativa de descobrir primeiro seu endereço, antes mesmo de tentar algum diálogo. E depois de andar uns quinze minutos mais ou menos, viu ele entrar numa casa muito pobre, já na periferia da cidade. Alessandro então voltou e ficou na praça à espera dele, pois teria que voltar para o trabalho.
Ali na praça ficou pensando na situação que Bernardo criara, e depois de muito pensar, chegou à conclusão que seria melhor conversar primeiro com alguém naquela casa, e evitar que o garoto tentasse enrolá-lo com mentiras, quando o abordasse. E assim fez, logo que o viu passar novamente, quase uma hora depois retornando para o trabalho, Alessandro se levantou e se apresentou na porta daquela pobre residência.
--- Boa tarde... disse Alessandro à jovem que o atendeu.
--- Boa tarde... disse ela, ficando estática na fresta da porta.
--- Eu estou procurando por Bernardo Donato? Não é aqui que ele mora?
--- Sim... mas... ele acabou de sair.
--- Eu sou o pai dele... e gostaria de conversar com alguém da casa...
--- Desculpe meu senhor... mas... os pais de meu marido chamam-se Geraldo e Ana... e já faleceram... disse ela, mantendo-se no mesmo lugar, com a porta entreaberta.
--- Marido?... vo-você... então é esposa dele? Perguntou com aquele ar de espanto, pois muito bem sabia que Bernardo era ainda uma criança.
--- Sim...
--- Escuta moça... eu não sei o que ele disse para você... mas na verdade eu sou o pai adotivo dele, e vim até aqui porque minha mulher está muito doente e precisa urgentemente vê-lo... será que eu poderia entrar para gente conversar um pouco?
--- Olha meu senhor... não me leve a mal, não... mas se o senhor quer conversar... nós conversaremos aqui mesmo. E falando assim ela acabou de abrir a porta, aparecendo por inteira, mas não permitiu que Alessandro entrasse.
                          Se espantado ficara com a notícia dele estar casado, agora ficou mais ainda, ao ver que ela estava grávida e que também era nova em idade.
--- Meu Deus... vocês são duas crianças... e... e... desculpe-me, mas... este bebe que está esperando é para quando?
--- É para o final do mês que vem...
--- Ele nunca falou com você que teve pais adotivos? Perguntou Alessandro.
--- Não senhor... muito pelo contrário, ele me disse que seus pais foram filhos de escravos... e que já morreram. Insistiu ela.
--- E como ele está?... ele é feliz?...
--- Acho que é... não sei...  -- respondeu ela meio sem jeito, balançando os ombros
--- Como é seu nome e quando foi que vocês se casaram?... como pai que fui dele, acho que tenho pelo menos o direito de lhe perguntar isso?
--- Eu me chamo Rosária e... nós não somos casados, não... apenas moramos juntos...  
--- Pois então vou falar com ele e vocês devem regularizar esta situação, casando-se.
--- Olha meu senhor... se quer um conselho, não o procure... porque... ele tem verdadeiro ódio por italianos... e pelo que estou vendo o senhor é um...
--- Mas ele tem tanto ódio assim?
--- Ele sempre fala... que se pudesse matava a todos.
--- Você está precisando de alguma coisa?
--- Não senhor...  somos pobres, mas não estamos precisando de nada, não...
--- Tudo bem, mas mesmo assim... se eu te desse algum dinheiro... para suas necessidades, você aceitaria?
--- Obrigado... mas eu não devo aceitar nada... de... de...  de estranhos.
--- Pois bem... então... uma boa tarde para a senhora... e se possível dê lembranças a ele.
Dizendo isso, Alessandro deu por terminada a conversa e se retirou, tomando o rumo do centro da cidade.
Pelas respostas que recebeu de Rosária, Alessandro resolveu que não deveria procurá-lo mais. Pois, em vez do tempo acalmar seu coração, que é o que ele esperava que tivesse acontecido, acabou foi fazendo o contrário, isto é, insuflou mais ainda seu ódio.
E na viajem de volta foi pensando consigo mesmo: “...ainda bem que não comentei nada com Giovanna... mais uma decepção agora, seria o caos para ela.”





           **************




Alessandro tinha verdadeira adoração por Giovanna, e vendo que sua saúde a cada dia se deteriorava mais, resolveu de certa época para cá, juntar todo dinheiro que ganhasse, para tentar curá-la num passeio longo por algumas cidades do Brasil.
Mas o destino mais uma vez troçava com eles, pois quando conseguiu com muito sacrifício juntar o dinheiro, a saúde de Giovanna se complicou de vez. Nada fazia com que ela saísse de seu quarto. Era uma doença nova que estava começando a aparecer, segundo o que disse o médico de Matão, em cujo consultório Alessandro a levava quase que semanalmente. Ele ainda disse que não havia muitos recursos para combatê-la, e que a medicina ainda não tinha nem sequer, um nome para batizá-la, mas sabia-se que o doente perdia por completo o interesse pela vida, e que em muitos casos chegavam até mesmo a se suicidar. E nesta prostração ficou até que numa noite, dormindo ao lado de seu marido, seu coração cansado de sofrer, parou de bater. Giovanna partia para sua última morada, quando ainda tinha apenas trinta e cinco anos.
Foi o velório mais triste de que se tem notícia. Apenas alguns colonos vizinhos ao sítio compareceram. E o corpo de Giovanna foi enterrado naquela tarde mesmo, no cemitério da cidade de Matão.
Não é preciso dizer que Alessandro chorou o tempo todo, pois sua vida de comprometimento com ela, por si só, já dava este testemunho, sozinha.
Alessandro bem que tentou continuar sua vida com normalidade, mas ao cabo de quinze dias, não aguentando mais a solidão do sítio e sentindo sobremaneira a  falta de sua esposa, resolveu, numa tentativa de minorar seu sofrimento, fechar o sítio e partir numa viajem, visando refrescar um pouco sua alma e suplantar este tempo de eterna agonia. E numa manhã de junho de 1928, saiu da rodoviária de Araraquara com destino ignorado.
Em São Paulo passou uns dias. Procurou de toda forma preencher seu tempo, fazendo alguns passeios para conhecer a cidade. Mas não conseguiu achar lenitivo algum que o fizesse esquecer a imagem de sua adorada Giovanna.  Inconsolável, resolveu chegar até Santos, onde segundo ele, pelo menos teria dois amigos que  poderiam ajudá-lo: o velho padre Ruffo e o  Dr. André. E pensando assim, deixou São Paulo e foi para a cidade praiana. Lá chegou no dia 3 de julho daquele mesmo ano de 1928.
Chegou pela manhã e procurou logo um hotel para se  hospedar. Feito isso, logo depois do almoço saiu para tentar encontrar a igreja do Padre Ruffo. Andou por um bom tempo à procura dela, não logrando o êxito almejado. Depois então, já cansado de procurar, teve uma ideia: se fosse até o cais, e fizesse o mesmo trajeto que fizera com Giovanna, quando desceram do navio, ia sem duvida encontrar a praça onde ficaram descansando um pouco, e a igreja, ele tinha certeza que ficava pouco mais à frente. Assim então fez. Chegou ao cais e viu ancorado um navio e em seu mastro balançava a bandeira italiana. Ali ficou por uns momentos e seus olhos  lacrimejaram, ao recordar de sua chegada ao Brasil, junto de sua adorada Giovanna. Depois seus pensamentos viajaram até seus parentes, que estavam tão longe daqui. E por um momento sentiu vontade de ir embora.
Deixando o cais, seguiu pela mesma rua que tinha andado bem devagar com Giovanna ainda se restabelecendo daquele aborto. A rua era a mesma, mas em dezoito anos havia se modificado muito, foram lojas que se fecharam, outras que se abriram, mas abriram-se mais do que se fecharam. Depois então se descortinou a sua frente, o que ele reconheceu como se fosse aquele antiga praça, pois a árvore frondosa em cuja sombra fez sua esposa descansar estava lá. Chegando bem debaixo dela, olhou para aquele chão onde ficaram por uns momentos sem saber a onde ir, e novamente seu semblante se angustiou. E pensou: “quem diria que dezoito anos depois eu aqui voltaria e já não teria comigo minha doce Giovanna...”. E lembrando-se do padre, olhou para a frente e viu a escada  que subiu e entrou na igreja. Seguiu então na direção dela, e chegando começou a subi-la. Mas súbito...
---- Estranho... não vejo a torre... e foi justamente ela que me despertou o desejo de vir rezar... TEATRO?... ali está escrito teatro... não é possível... será que transformaram a igreja num teatro?...
Aos poucos Alessandro foi ficando cada vez mais embaraçado. Pois a porta, em forma de arco, ainda era mesma. Não conseguiu entrar porque ela estava trancada. Andou em volta do prédio, e não viu os vitrais que tinha na lembrança, de tê-los vistos de dentro para fora. E depois pelo tamanho da própria nave da igreja, estava faltando a casa paroquial, onde ficaram hospedados por uma semana.
--- Não... não é possível... tem alguma coisa errada aqui... ou eu pirei de vez...
Com o crepúsculo da tarde e a noite chegando, e ainda completamente confuso, olhou para baixo e viu no meio da escada, um velho que desenrolava um papelão, e estendendo-o ao longo de um degrau da mesma, se preparava para dormir. Alessandro então se aproximou dele e perguntou.
--- Meu bom velho... por favor, me tire uma duvida... este prédio aqui, no passado não foi uma igreja?
--- Pelo que sei... ele já foi muitas coisas, mas igreja... não, acho que não.
--- Mas deve ter algum engano... eu tenho certeza de que estive nele há dezoito anos atrás... e era uma igreja... tanto que até um padre me acolheu e me hospedou por uma semana... eu e minha mulher.
--- Olha moço... eu já ouvi dizer que este teatro è malassombrado... e que um padre aparece aqui de vez em quando... eu nunca acreditei nisso... mas como o senhor está falando com tanta firmeza... que agora quem não quer mais dormir aqui sou eu... e dizendo isso, enrolou seu papelão novamente, e descendo rapidamente a escada, foi  embora.
Alessandro ficou mais um pouco tentando resolver o enigma que se instalou, mas não conseguindo, se pôs a caminho do hotel. Enquanto caminhava, ia pensando nas palavras do velho, e achava graça  da sua expressão.
--- Há!?... Fantasma... como se fantasma desce hospedagem... procuração... dinheiro... este velho está é maluco... mas deixa ficar... amanhã eu vou tentar localizar o Dr. André e talvez ele me ajude a achar a igreja...  a confusão deve ser minha.
No hotel, já em seu quarto, depois de ter jantado, voltou a lembrar do navio que tinha visto no cais, com a bandeira italiana desfraldada ao vento. E as recordações voltaram outra vez a povoar sua mente. E  lembrou. Lembrou das palavras que disse à Giovanna, debaixo daquele pé de ipê, quando chegaram naquela terra crua e mal cuidada. “Aqui está o nosso presente... sei que vamos morrer de trabalhar aqui... mas a terra é nossa... haveremos de vencer...”, lembrou do dia em que encontraram Bernardo na porta da casa de bambu, e pensava “Giovanna se sentiu no céu com aquele presente, e este presente foi que a matou tão prematuramente”, lembrou de sua família, de seus três irmãos mais velhos. E disse pra si mesmo. “Porque insisto em ficar aqui... não tenho mais Giovanna comigo... Bernardo... este me odeia... em casa pelo menos tenho uma família... talvez quem sabe... posso encontrar felicidade junto deles...”. E levantando-se, chegou até à janela e olhando para o cais e ele estava lá... majestoso... imponente... todo aceso. “ É isso mesmo... está resolvido... eu vou voltar para a Itália... mas, e o sítio?... que faço com ele... já sei... vou fazer o que o padre fez conosco... amanhã eu vou procurar o Dr. André.
E no dia seguinte, antes de sair do hotel, verificou junto à recepção onde poderia encontrar o consultório do Dr. André. Foi fácil, porque existia no balcão, uma lista telefônica dos aparelhos  instalados na cidade, e André Seixas constava dela. De forma que meia hora depois, já estava sentado numa antessala, junto com vários pacientes, que como ele aguardava sua vez de entrar para ser examinado por ele. E numa média de meia hora para cada paciente, por volta das onze horas, chegou a sua vez. Logo que saiu de dentro do consultório, o cliente anterior, ele entrou.
--- Bom dia doutor... disse Alessandro ao entrar.
--- Bom dia... respondeu André ainda de cabeça baixa, pois terminava de fazer umas anotações, mas tão logo a levantou reconheceu imediatamente seu cliente. ....sr. Alessandro!.... que surpresa!... porque não me avisou que viria?.... -- disse, isso se levantando para cumprimentá-lo.
--- É doutor... mas eu também não sai com a pretensão de vir até aqui... mas...
--- E a esposa... como está?... não vá me dizer que deixou ela lá fora, esperando...
--- Não doutor... antes fosse assim... mas ela faleceu. Respondeu Alessandro.
André, levou aquele choque e empalideceu.
--- Como?... ela parecia tão forte... tão sadia...
--- Aconteceu muitas coisas doutor... e ela se decepcionou com a vida...
--- Como assim?... o que poderia ter acontecido de tão forte assim?... perguntou
--- Lembra daquele garoto que adotamos... pois é... a causa toda foi ele... ele descobriu sua paternidade, coisa que eu e Giovanna não sabíamos... se revoltou e fugiu de casa... daí para frente... Giovanna começou a perder o gosto pela vida... e um dia amanheceu morta.
--- Que coisa meu Deus... que tragédia... ela devia estar com depressão...
--- Mas doutor... eu vim aqui para pedir-lhe um favor...
--- Peça quantos quiser... disse André,  demostrando estar muito sentido com as notícias.
--- É... o senhor está trabalhando... e tem muitas pessoas lá fora esperando ser atendidas, de forma que eu vou ser o mais breve possível.
--- Esteja à vontade... não se preocupe com isso.
--- Obrigado, mas... eu resolvi ontem à noite retornar para a Itália... e já que estou aqui, gostaria de não ter que voltar até São Carlos... isso me pouparia tempo e até possíveis dissabores.
--- Pois não sr. Alessandro...  já te disse, fique a vontade... pode falar... o que deseja que eu faça?
--- Se não for muito incômodo... eu gostaria de pedir a permissão de passar uma procuração em nome do senhor... de forma que quando fosse a  São Carlos, fizesse a fineza de passar o meu sítio, para o nome do meu filho Bernardo.
--- Mas perfeitamente... farei com todo prazer... é só me deixar o endereço dele, que tão logo eu tenha que ir lá, tomarei as providências necessárias... só fico triste por saber que o senhor está indo embora.
--- Pois é... mas a vida reserva cada uma para a gente, não?... mas voltando ao assunto, eu até pensei em tudo para poupar o tempo do senhor ... veja... eu vou ao cartório aqui da cidade, e passo a procuração em nome do senhor, e quando dispuser de um tempo, o senhor comparece lá para assina-la... aqui neste papel, deixo escrito o endereço do garoto, e o endereço do armazém onde ele está trabalhando, de forma que não vai ser difícil para o senhor encontra-lo.
--- Pode deixar comigo... dentro de mais ou menos uns dois meses, este sítio estará nas mãos dele.
--- Então doutor... muito obrigado...  foi um prazer tê-lo conhecido... e desejo todo sucesso do mundo para o senhor.
--- Mas já vai assim?... não quer mesmo aparecer em minha casa para que possamos conversar mais a vontade?
--- Não doutor... obrigado pelo convite... e dê lembranças à sra. Adriana... mas como eu resolvi isso muito rápido... agora está me faltando tempo, pois ainda tenho que passar esta procuração, e depois tentar embarcar neste navio que sai hoje à noite.
--- Então vai com Deus meu amigo... e pode ficar tranquilo que amanhã mesmo eu vou ao cartório e, logo, logo, devo visitar minha família em São Carlos, e providenciarei a transferência.
--- E eu agradeço mais uma vez ... muito obrigado e...  e até um outro dia.
Naquela tarde mesmo Alessandro passou a Procuração, e o próprio cartório ficou de mandar o livro até ao consultório do Dr. André, que ficava perto, para ser assinado. Depois ele foi até o cais e resolveu o problema do seu embarque. De forma que naquele dia 4 de julho de 1928, às dez horas da noite, Alessandro já estava no convés do navio esperando acontecer a partida.








   Capítulo 08





No dia seguinte, André recebeu em seu consultório o mensageiro do Cartório de Registros de Imóveis, da cidade de Santos, este levou-lhe o livro para colher sua assinatura e lhe entregou o documento que Alessandro deixou firmado em seu nome, autorizando-o a transferir o sítio para Bernardo. André recebeu aquele papel, e por uns momentos ficou a pensar na triste história do casal de italianos. E em seu pensamento veio uma frase que certamente levará muitos anos para esquecer totalmente, isso se conseguir realmente esquecer: “...se aquele aborto não tivesse o desfecho que teve, talvez estes dois ainda estivessem juntos e felizes”.
Mas a vida continuava. Esperando por André tinha vários clientes na sala de espera, por isso então pegando o documento e guardando-o na ultima gaveta de sua escrivaninha, disse pra si mesmo: “... na próxima vez que eu for visitar meus pais em São Carlos, eu farei esta transferência... é o mínimo que posso fazer por eles.”
Mas, não sei se por razões Divinas ou por simples capricho do destino, apesar de muito bem intencionado, André se esqueceu por completo do compromisso assumido com Alessandro. E por várias vezes foi à São Carlos visitar seus pais, e em nenhuma delas, sequer lembrou de procurar por Bernardo na cidade.



              ***************



Bernardo apesar de genioso, era um garoto bem  inteligente. Quando chegou a São Carlos naquela noite trágica de sua saída do sítio, sentiu a necessidade urgente de arranjar um emprego, para poder se sustentar daí em diante. Aquela noite, ele a passou no banco da estação. Mas no dia seguinte, achou melhor não dormir mais em locais tão expostos assim, como no centro da cidade, na estação, debaixo de marquises, etc., porque se começasse a mostrar sua situação de mero  andarilho, dificilmente conseguiria arranjar algum emprego na cidade. Por isso começou a dormir na periferia e em casas que estivessem desocupadas. Praticando esta tática, logo conseguiu o emprego que mantém até hoje, no Armazém Central, como carroceiro. Com o pouco que ganhava, alugou aquela casa velha onde mora atualmente.
Rosária, ele conheceu na rua, era como ele, filha de pais alforriados, e assim também como ele, havia saído de casa e morava debaixo de marquises. Tentou tudo para conseguir se sobreviver honestamente, todavia não conseguindo, começou a se prostituir para ganhar a vida.
Andou saindo com ela algumas vezes, e talvez a coincidência de raízes, talvez tenha sido o que mais atraiu um ao outro. Um dia Bernardo a chamou para fazer amor em sua própria casa, e de lá não mais saiu, sendo-lhe totalmente fiel, daí em diante.
Depois daquela visita que Alessandro fez à Rosária, mulher de Bernardo, muitas coisas aconteceram.
Bernardo quando soube, através de sua mulher, que Alessandro o havia procurado, ficou ainda mais revoltado por supor que com a descoberta de seu paradeiro, na certa não mais teria sossego. E por isso ficou por um bom tempo, alimentando de seu veneno tal qual uma serpente de tocaia. Entretanto, como a realidade foi totalmente contrária à sua expectativa, isto é, nunca mais Alessandro ou mesmo Giovanna, voltou a procura-lo. Seu ódio foi dando lugar a um sentimento novo, o de arrependimento, sentimento este que jamais tinha sentido.
Dois meses depois daquela visita, nasceu-lhe uma menina que puseram o nome de Nair. A casa não possuía conforto de espécie algum, isto é, não possuía móveis. Para dormir, apenas um colchão de capim estendido no chão do único quarto, servia-os de cama. Suas roupas, que nem tantas se somavam, ficavam penduradas em pregos fincados por toda a parede do quarto. O salário que ganhava no armazém, mal dava para pagar o aluguel da casa, fazer as compras do mês,  comprar querosene para o lampião e lenha para o fogão.
Todavia, se para Bernardo esta situação não incomodava, e para Rosária, somente o fato de ter onde comer e dormir, já a satisfazia. No entanto para Nair, recém nascida, os mofos oriundos do colchão colocado direto no chão, aliado às noites em que rolando do colchão, amanhecia no cimento frio, trouxeram-lhe sérios problemas de ordem pulmonar.
Estes problemas começaram com uma rinite muito aguda, logo se transformando em uma bronquite asmática, que se arrastou por quase dois anos. Aí então, veio a tuberculose e com ela a necessidade de interná-la num hospital, na cidade de Campos do Jordão. Pelo menos esta era a indicação feita por  médico da cidade, que poucas vezes visitou a menina, pois o dinheiro para pagar as consultas, era por demais escasso.
Em razão deste problema sério, e somando-se o fato de que aquele ódio mortal pelos pais adotivos, já tinha se esvaziado completamente com a frieza que Alessandro e Giovanna o tinham tratado, Bernardo começou a sentir que nesta história toda, quem saiu prejudicado foi ele e por culpa somente sua, a filha estava agora precisando de uma ajuda, e somente junto a seus pais adotivos, ele poderia consegui-la.              
Decidiu então fazer uma visita ao sítio para pedir perdão e tentar conseguir uma ajuda financeira, para o tratamento da filha.
Imbuído destes propósitos, desembarcou do ônibus de Matão na porteira do “Chão Italiano”, no Domingo, dia 12 de outubro de 1928, às dez horas da manhã. Bernardo já estava com dezoito anos, e faziam justamente seis, que tinha deixado aquele lugar para tentar viver sozinho.
 A porteira estava encostada, sem aquele cadeado grande e preto, que toda noite era trancado. Bernardo foi entrando, e as recordações daqueles tempos começaram a povoar sua mente, fazendo-o esquecer por uns momentos, a doença de sua filha.
A casa estava fechada e o mato havia crescido muito por todo sítio, e já estava começando a sufocar o que restava da plantação. Conhecendo muito bem os pais adotivos que teve, logo notou que o lugar estava ao abandono, e tudo indicava que fora pilhado. Entrou na casa de bambu, e notou a falta da charrete, das ferramentas e nem sinal de produtos colhidos, que ficavam em estoque. Olhou no pasto, e também não encontrou o burro. Cansado e triste, sentou no banco que ficava debaixo do pé de ipê, e chorou.
--- Como vai Bernardo? Falou uma voz feminina.
Bernardo, levantou a cabeça de repente, e tentando se desfazer das lágrimas que corriam-lhe no rosto, meio sem graça, reconheceu Emília, filha de um colono que morava nas redondezas.
--- Ôi Emília... disse ele, ainda com vergonha de ter sido apanhado chorando.
--- Eu vi quando você desceu do ônibus...  apesar de hoje você estar bem diferente, mas ainda deu pra reconhecer. Disse ela.
--- O que aconteceu aqui, que não encontro ninguém?... perguntou ele.
--- Muita coisa aconteceu depois que você foi embora.... respondeu.
--- Como assim?... Onde estão eles?... insistiu Bernardo.
--- O sr. Alessandro foi embora daqui... depois da morte de Da. Giovanna.
--- O que você disse?... minha ma-mãe morreu? Perguntou Bernardo, mantendo os olhos arregalados.
--- Sim Bernardo... depois que você foi embora... nunca mais Da. Giovanna foi a mesma... sua saúde complicou tanto, que nos três últimos anos, eu passei a trabalhar aqui para fazer o serviço da casa, por que ela não saia do quarto para nada.
E Bernardo ao ouvir isto, não conseguiu mais segurar sua lágrimas, chorando copiosamente na frente da moça. E em meio aos soluços, continuava perguntando.
--- E onde foi enterrada?
--- No cemitério de Matão... -- Respondeu Emília.
--- E... meu pai?... ninguém sabe onde anda?
--- Não... ninguém sabe... alguns falam que deve ter voltado para a Itália... mas o certo mesmo, ninguém sabe... e se você não tomar posse deste lugar... muito em breve só ficará o mato... pois a cada dia roubam alguma coisa...
--- Eu não posso... tenho uma filha e está muito doente. Vim aqui atrás de uma ajuda para fazer o tratamento dela. Disse ele.
--- Bom, eu vou andando... porque tenho muito a fazer... espero que sua filha fique boa. Dizendo isso Emília foi embora.
Sentado no banco Bernardo estava, e sentado permaneceu. Só que agora chorava muito mais, que quando chegou e ainda não sabia de nada do que tinha acontecido. Pensou em abrir a porta da casa, mas como tinha que ir embora, preferiu deixa-la trancada, do que com a fechadura quebrada, pois se já estavam saqueando o sitio, sem a fechadura então é que não sobraria mesmo nada. Por ali Bernardo ficou até à tarde, quando pegou novamente o ônibus que o levaria para Araraquara e de lá para São Carlos.
Só que durante a viagem para Araraquara, Bernardo pensou muito no que deveria fazer com aquele sítio. E dentre as muitas opções que lhe apareceu, a que ele achou melhor fazer no momento era simplesmente vendê-lo e com o dinheiro apurado, levar sua filha para fazer o tratamento em Campos do Jordão. Mas para isso, ele tinha que ficar em Araraquara e conversar com o Juiz da cidade, para obter a permissão de venda do imóvel, uma vez que este estava em nome de seu pai.
Com apenas o dinheiro da passagem no bolso, Bernardo passou a noite, dormindo sentado no banco da estação ferroviária. Pela manhã,  estando com muita fome, pois não havia comido nada no dia anterior, bateu na porta de uma residência e pediu um pedaço de pão. E alimentado apenas com este pedaço de pão,  ficou até às duas da tarde, hora que o juiz pode atendê-lo.
--- Infelizmente, eu não posso autoriza-lo a vender o patrimônio de seu pai, sem ter provas concretas sobre o paradeiro dele... O que me pede, é completamente ilegal.
Disse o Magistrado, na audiência.
--- Mas sr. Juiz... os vizinhos afirmam que ele abandonou o sitio há três meses e que voltou para Itália.
--- Meu filho... já te disse... se quiseres usufruir do sitio, morando nele e explorando seu potencial, eu te dou todo este direito... porque você tem provas reais de que realmente é filho dele... mas para vendê-lo, só se por ventura você conseguir comprovar a morte dele... portanto...  tenho dito.
Estas foram as últimas palavras que ouviu do juiz, que deu por encerrada a audiência.
Bernardo, completamente decepcionado, foi para a rodoviária e embarcou  para São Carlos.
À noitinha chegou em  casa, e sua fome era tanta, que sentia uma dor muito forte em seu abdome, dando a impressão que seu estômago tentava comer ele mesmo.
Em conversa com Rosária, depois de ter jantado tudo aquilo que tinha direito, Bernardo contou toda a triste história que acontecera a seus pais adotivos. E não deixou também de comentar toda sua frustração, em saber que, uma vez que o sítio estava abandonado, e sendo seu por hereditariedade, também não podia transformá-lo em dinheiro para a cura definitiva de Nair. E também que, a continuar na situação de abandono em que se encontra, muito em breve voltará ser uma terra bruta e selvagem, perdendo assim todas as benfeitorias que seu pai havia feito.
--- Porque então não vamos morar lá... disse Rosária.
--- Acontece que eu não tenho a garra e nem os conhecimentos que eles tinham... Alessandro e Giovanna, quando entraram naquele sitio, praticamente tinham um mês de alimentos só... a água potável, eles levaram numa lata de biscoitos... e fizeram tudo aquilo... Eu os ajudei na medida que ia crescendo... mas era muito novo para aprender os tempos e os modos de cultivar a terra...
Uma semana depois, Nair veio a falecer nos braços de sua mãe. Foi um desespero total. Se não fosse a ajuda dos vizinhos, a garotinha seria enterrada como indigente, pela prefeitura. Pois para Bernardo só existia dívidas, era o salário que já havia recebido três meses adiantados e a farmácia, que se tudo correr bem daqui pra frente, mesmo assim, ainda levará um ano para paga-la, amortizando mensalmente com uma boa parte de seu salário.
Rosária anda ficou em companhia de Bernardo por mais uns dez dias. Mas depois simplesmente abandonou-o como se abandona um cachorro. Bernardo chegou para almoçar e não encontrou almoço e muito menos ela. Teve ânsias de sair e de gritar para todo mundo ouvir a sua desgraça.
Mas controlado por seu patrão, continuou sua vida que tinha se transformado em verdadeiro martírio, por que não se conformava com a perda de sua filha.
Meses depois, Bernardo voltou a visitar o sítio mais uma vez, na esperança de encontrar seu pai. Mas voltou de lá mais decepcionado que da primeira vez, pois não havia mais nada inteiro naquela terra. A casa tinha sido pilhada, algumas janelas foram arrancadas da parede e como os moveis, também roubadas. O paiol havia sido derrubado, e não havia nem um simples pé de mandioca para ser arrancado. Aquele gleba de terra voltara simplesmente à condição de bruta e crua, tal qual um dia se apresentou para Alessandro e Giovanna.




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Foi precisamente no principio de novembro de 1929, num dia de semana, que Dr. André, entrando no Armazém central, perguntou ao proprietário:
--- Boa tarde meu senhor... eu procuro por um rapaz que trabalha ou que trabalhou para  o senhor e que se chama Bernardo Donato, por acaso o senhor pode me dar alguma informação sobre ele?
--- Pois não... é aquele que está despejando o saco de arroz no caixote. E virando para ele gritou. ... Bernardo!... este senhor aqui está te procurando.
--- Já vou... respondeu Bernardo, e continuou a despejar o cereal. Depois então de sacudir o saco, jogou-o junto aos demais que estavam vazios, e se aproximou do estranho.
--- Pois não?... disse ele.
--- O seu nome é Bernardo Donato? Filho adotivo de...
--- Alessandro e Giovanna... adiantou o rapaz, antes que André chegasse a pronunciar os nomes.
--- Muito prazer... disse o doutor, estendendo-lhe a mão.
Bernardo, ainda sem entender nada, correspondeu ao gesto do  estranho, estendendo-lhe sua mão, para o cumprimento.
--- Eu conheci seus pais quando chegaram ao Brasil, vindos da Itália... e coincidentemente, fui também o último brasileiro que o viu, antes de partir novamente para sua Pátria. Disse André, com seriedade.
--- Ah!... sei...  falou Bernardo, sem saber na realidade o que falar.
--- E ele, coitado... teve a preocupação de me procurar e pedir para que eu lhe entregasse esta procuração, para que você se apossasse do sitio dele.
--- E quando foi isso meu senhor...  foi no ano passado no mês de julho... logo depois da morte de sua mãe...
--- E só agora o senhor resolveu me procurar? Perguntou Bernardo.
--- Perdoe-me meu rapaz... mas eu guardei tão bem este documento, que acabei me esquecendo completamente dele... somente na semana passada, quando fiz uma faxina na minha escrivaninha, é que o revendoó novamente, me lembrei do compromisso que tinha assumido de ti procurar... espero que não o tenha prejudicado muito... mas infelizmente esta é a pura verdade.
--- Não... o senhor não me prejudicou não... isto é, muito não... e pegando o papel deu uma olhada na data: 04/07/1928. Seus olhos brilharam e duas lágrimas rolaram-lhe pela face, suas pernas fraquejaram tanto, que ele não se aguentando, sentou-se no caixote de cereais à granel, e murmurou ... --dava tempo.
André, não entendendo a frase, perguntou.
--- Dava tempo de quê?... não entendi.
--- Deixa pra lá... é uma história muito longa... e talvez eu a tenha merecido completamente.



                   F I M



“ A Misericórdia de Deus acontece, mas para isso precisamos dar todas as condições que Ele requer, para que aconteça plenamente... e a tempo”


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