PREFÁCIO
O Escritor João de
Assis, é um Escritor do amor. Seus
textos descrevem as minúcias, as idas e vindas... e as entrelinhas da
sensibilidade amorosa.
Em Garra
Italiana, o autor, com o seu olhar amoroso, conta a saga de um casal
italiano, que sonha viver uma nova
história, cheia de amor e confiança, ao
deixar a Itália e partir para o Brasil, para construir um projeto de vida nas terras brasileiras.
O sonho permeado de esperanças, logo começa a
ficar pelo caminho, quando a jovem esposa, com o forte desejo de ser mãe, torna-se
estéril ao perder o seu primeiro bebê, num aborto espontâneo, durante a viagem
do casal ao Brasil.
Ao lado dessa
tristeza, está o jovem médico que comete o seu primeiro grande erro na
medicina. O conflito o acompanha e o faz
repensar valores.
A história é riquíssima em detalhes e motiva o leitor a vivenciar os cenários da história, as
emoções dos encontros e desencontros. Retrata os valores éticos e morais
daquele momento. Reafirma os pontos fortes e fracos da imigração
italiana no Brasil.
Pode-se dizer que se trata de um romance que
pode receber o olhar da história, cheio de momentos dramáticos e outros
felizes, dentro da narrativa de uma
grande história. Histórias tristes, como no momento das perdas, das decisões e
decepções e outras vezes alegres, cheias
de esperança e garra para vencer os
desafios. A coragem, o encontro com a
verdade, o respeito, a generosidade penso que sejam as grandes lições deixadas
nesta Obra.
O Escritor João
de Assis, ao escrever este Livro, convida seu leitor a uma viagem instigante,
sob o signo do amor. Um livro dedicado aos riscos de viver o amor do ponto de
vista da aventura num mundo novo, desconhecido, na incompletude do ser humano.
Ao escrever este
texto, expresso a minha profunda admiração ao Escritor João de Assis, que com suas obras, permite estabelecer um
repensar sobre os valores do mundo
atual. A leitura de Garra Italiana tornará o
leitor um ser humano mais compreensível daquilo que realmente pode valer a
pena. Um grande legado!
Elza
Francisco
Vice-presidente da Academia Cruzeirense de
Letras e Artes
Dedicatória.
Dedico este trabalho à família
de meu muito amado irmão Paulo Henriques
de Assis, que foi a âncora que permitiu aos meus pais conseguirem criar uma
prole de dez filhos. Portanto, á ele e á sua família quem eu tanto amo: Rosália, Luciana, Maurícia, Paulo e netos. Aproveito aqui para expor a
poesia que enaltece e ganha corpo, para expressar minha gratidão á ele.
Carta
ao meu irmão Paulo:
Ninguém nesta vida merecia receber
tantas glórias, como você, meu irmão...
Você foi o parceiro que esteve
sempre junto [a nossos pais, ajudando-os a sustentar sua prole... que não
era pequena...você foi o primogênito...
Você se comprometeu a se casar,
somente depois de ver sua irmã mais velha, casada...
Você, ao contrário de todos os seus
amigos, abdicou do direito de possuir um carro, quando na verdade, se não fosse
pelos seus compromissos firmados com a família e com Deus, você bem que poderia
ter tido um...
Por ter sido o mais velho... por
ter participado muito cedo dos trabalhos e das dificuldades inerentes à criação
de uma família numerosa e pobre... Você ficou muito prejudicado, meu irmão...
Você não teve infância e nem juventude... você sempre
foi excessivamente preocupado, nervoso e austero. Ingredientes
estes, que tenho comigo, ter sido a causa principal que fez com
que partisse mais cedo, para a casa do Pai...
Hoje,ao aproximar-me do Grande
Cais, de onde você partiu - o Cais da Idade e do Tempo, percebo que um
pouco de tudo o que somos e de tudo que temos, devemos muito a você, querido
irmão...
Por você eu oro ao Pai e peço
humildemente, que Ele o tenha em sua roda... E devido a sua conduta
irrepreensível aqui entre nós, seus irmãos de sangue, crença e luz, tenho certeza que na Paz do Senhor você se
encontra... O que, também nos dá a certeza de que realmente você só pode estar
bem, e tão bem, a ponto de nos dizer, se fosse permitido:
"Não chores por mim...Aqui
existe muita luz e muita paz... Aqui eu espero por vocês todos...
Aqui não existe pressa... Aqui não existe ansiedade e nem stress. E
creiam, se o que estou dizendo não fosse verdade, então não se poderia
chamar este lugar aqui, de Céu..."
Quero aproveitar esta carta para
dizer a você aquilo que muitas vezes, por acanhamento ou tolo machismo, deixei
passar em branco, nas oportunidades que tive de lhe falar... e você foi
embora sem ouvir de mim um "eu te amo" ou um simples, "gosto
muito de você..."
Você irmão, foi a nossa âncora...o
nosso norte...
Obrigado de coração... e eu digo
isso em meu nome e de todos aqueles que você, com sua força, com seu trabalho,
com seu suor, ajudou a sobreviver e a encarar este mundo de Deus...
Talvez, se não fosse pelo seu
firme caráter e sua firme personalidade, nossa história... a história da nossa Família,
fosse hoje, escrita de forma muito diferente...
Obrigado irmão... nosso
segundo pai... Eu... eu te amei... e mesmo sucumbido por esta saudade que
sinto, ainda o amo e muito...
Seu irmão João de Assis
Capítulo 01
Há muitos anos atrás, mais ou menos
por volta do ano de 1910, muitos jovens, como também muitas famílias de
italianos, vieram para o Brasil afim de trabalhar na lavoura, alimentando nos
seus corações o projeto de se tornarem, com o passar do tempo, proprietários de
terras férteis, que lhes garantissem a sobrevivência.
E esta é a história de dois jovens
italianos que resolveram se casar, e migrar para o Brasil, afim de iniciarem
uma vida nova, num pais que naqueles tempos difíceis, estava oferecendo a
cultura do café, como uma grande opção para os agricultores.
A Itália por sua vez, vivia uma
série de dificuldades impostas pelo desemprego em massa e as primeiras consequências
negativas, que antecederam a Primeira Guerra Mundial.
E inebriados deste sonho, e
tentando fugir de uma grande depressão econômica, uma semana depois da
celebração de suas bodas, embarcaram no navio Andaluz, de nacionalidade
espanhola, com destino a América do Sul, e mais precisamente ao Brasil.
Encostados um ao outro, e os dois
na beirada do convés do navio, olhavam para seus irmãos e familiares que os
haviam levados até o cais. E neste abanar de mãos, com o vento soprando contra
seus rostos, fustigava seus cabelos e levava as lágrimas que brotavam em seus
olhos, saídas de dois semblantes que mostravam dois sorrisos nos lábios. E à
medida que o navio se desgarrava do cais, e as imagens ficavam difusas, seus
olhos pousaram numa serra da costa italiana, que até ali, lhes embalaram os
devaneios de crianças.
--- Havemos de ser felizes... Deus recompensará
nosso esforço.... e depois Giovanna... são duas bocas a menos... para dividir a
miséria de vida que nossas famílias estão vivendo.
--- Que Deus te ouça, Alessandro...e não nos
puna por não aceitar-mos sua vontade.
E quando seus olhos já não mais
distinguiam o verde do continente italiano, sentaram se no chão do próprio
convés e Giovanna pousando sua cabeça no peito de seu marido, adormeceu. Para
Alessandro foi difícil dormir, suas pálpebras pesavam, mas os pensamentos
efervesciam, imagens e sons que seu coração recordava e ao mesmo tempo
antecipava, teimavam em permanecer-lhe na mente. Mas depois de algumas horas,
por fim também dormiu.
Era uma época em que estava
acontecendo uma grande evasão rural no Brasil. Com o país começando a se
industrializar, a população rural achou o seu eldorado nas capitais, onde a
industria pagava salário melhor para um trabalho menos árduo. Em vista desta
dificuldade, já há alguns anos, que o governo brasileiro tinha começado um
programa de importação de mão de obra estrangeira, pagando passagem para quem
quisesse vir para o Brasil em busca de trabalho e se fixar no interior. Isso
ajudou muito nosso país, pois os estrangeiros que se aventuravam, vinham com
grande conhecimento de agricultura. E vieram nesta época suíços, japoneses,
italianos e alemães.
E foi atendendo a esta oferta de
emprego que Alessandro e Giovanna, resolveram mudar definitivamente para o
Brasil. Oriundos de famílias pobres, juntaram o pouco que conseguiram
economizar para o casamento e ainda receberam ajuda em dinheiro, de todos seus
familiares. Desta forma então iniciaram esta aventura de além mar.
Alessandro tinha nesta época 22
anos e era o mais novo dos quatro filhos, todos homens. Moço alto e espadaúdo.
Forte, como o era seu pai. Tinha cabelos castanhos e lisos, olhos verdes e
sobrancelha espessa. Nariz, não muito afilado e pele clara. Usava, como todo
bom italiano um boné feito de lã, ou de flanela, ou mesmo de pano, a
temperatura é que lhe ditava, qual deles deveria ser usado. Vinha de família
religiosa e de boa índole.
Giovanna por sua vez, apesar da
pouca idade pois se casara com apenas 17 anos, possuía já uma maturidade muito
grande, própria das mulheres italianas, cuja infância passavam na agricultura.
Tinha cabelos castanhos e compridos até à cintura. Lindos olhos também
castanhos e uma pele clara e delicada, apesar da forte exposição ao sol diário.
Tinha boa altura, mas mesmo assim era um pouco mais baixa que Alessandro. Como
seu marido, também vinha de família religiosa, e era a terceira de uma prole de
cinco irmãos, três mulheres e dois homens.
A viagem foi muito demorada, quase
sessenta dias, fazendo escalas em vários portos da Europa. Como a passagem
grátis, que eles tinham direito, paga pelo governo brasileiro, era de terceira
categoria, era de se esperar que não seria uma viagem muito confortável. Além
do que, em vista deste programa brasileiro, os proprietários dos navios
exploravam e em muito, a capacidade das embarcações, isto então sacrificava
mais ainda o pouco conforto que poderiam ter, viajando nestas condições.
A eles foi destinado uma cabina em
estado muito precário, situada no porão habitável, de nível mais baixo em
relação ao convés. De forma que durante a viagem, eles só se recolhiam a esta
cabina para dormir, e procuravam passar o resto do tempo ocioso, no próprio
convés.
O Andaluz já estava próximo ás
águas brasileiras, quando numa manhã, Alessandro acordou com barulhos de
vômitos, dados por Giovanna, que ajoelhara no vaso sanitário de metal, que
havia na cabina.
--- Minha santa, o que está te acontecendo. E
se levantando depressa foi em sua direção. ... O que será que você comeu, para
te fazer tanto mal assim...
--- Não, estou assim desde anteontem. a
principio achei que era o balanço do barco... Giovanna entremeava sua fala e os
vômitos que fazia.
--- Mas filha, porque não me pôs a par?
--- Eu queria ter certeza primeiro... disse
ela... eu acho... que estou grávida...
--- Quem? Você?... mas isso!... é a melhor notícia que você poderia me dar...
e pegando-a no colo, levou-a de volta
para o colchão, que ficava no canto do
chão da estreita cabina. E continuou falando. Hoje você não deve nem sair do
quarto, a partir de agora repouso completo.
--- Alessandro, acontece que desde ontem a
noite, depois que você dormiu, comecei a perder sangue e já troquei várias
toalhas, mas não há meio dele se estancar.
--- O quê? Uma hemorragia? Fique então aqui e
procure se manter calma, que eu vou procurar o médico de bordo.
E trocando rapidamente suas roupas,
depois de ajeitar o travesseiro de Giovanna e cobrí-la direito, saiu ás
pressas. Depois de rondar todo o convés, se dirigiu à Ponte de Comando, e
relatou ao Capitão o que estava acontecendo. Este então largou o barco nas mãos
de seu imediato, e foi até à cabina do medico. Depois de bater exaustivamente
na porta, o capitão disse:
--- Ele já se levantou e deve estar na
enfermaria, temos uns pacientes por lá... vamos.
E caminhando por vários corredores
chegaram finalmente onde o médico se encontrava, justo na enfermaria. Esta não
era grande, mas tinha quatro pacientes ocupando quatro dos dez leitos que ali
havia. Quanto ao médico, este era ainda um pouco novo, não aparentava mais que
25 anos, e estava examinando um senhor, com indícios de hepatite. E notando a
presença do capitão, retirou seu estetoscópio dos ouvidos e se levantando, o
cumprimentou.
--- Bom dia capitão... Bom dia também, meu
amigo. Disse ele olhando para Alessandro. O que os trazem a mim assim tão cedo?
--- Bom dia doutor, disse o capitão, e
continuou. ... é este jovem aqui. Pelo que me relatou, a esposa dele está tendo
uma hemorragia.
--- È doutor, e segundo ela me disse, perdeu
sangue a noite toda. Só agora cedo é que
me falou. - disse Alessandro, manifestando toda sua preocupação.
--- Tudo bem... eu já vou lá, espere só eu
terminar de examinar este paciente aqui. E falando assim abaixou-se novamente
para retirar o termômetro que tinha colocado no doente. O capitão então falou
com Alessandro:
--- Pois bem... você espere aqui, que o doutor
vai te acompanhar logo até ela. Eu vou voltar ao comando da Ponte.
--- Pois não capitão. Esteja à vontade e, muito
obrigado pela ajuda.
Não demorou mais que cinco minutos
e o médico então saiu em companhia do rapaz para ver sua esposa. Depois de
andar por vários corredores e descerem por várias escadas, chegaram finalmente.
Alessandro passando a frente para abrir a porta, encontrou Giovanna caída ao
lado do vaso sanitário onde fizera vômitos secos até perder suas forças. No
meio de suas pernas havia um lençol embolado, todo embebido em sangue. E
entrando correndo, dizia ao mesmo tempo quase chorando:
--- Oh! minha santa... eu não devia ter te
deixado sozinha... e pegando-a nos braços trouxe-a novamente para o colchão, e
logo que deitou-a, sentiu as mãos do médico forçar seus braços para ter acesso
à paciente. Alessandro se afastou um pouco e chorava baixinho. O Médico depois de
examiná-la e tomar seu pulso bem como, sua temperatura disse.
--- Ela não pode ficar aqui, ela está abortando
e perdeu muito sangue. Sua pressão está muito baixa e precisa de muitos
cuidados. Vamos fazer uma espécie de rede com os cobertores e levemo-la, nós
dois mesmos, para a enfermaria.
E rapidamente prepararam e se
puseram à caminho. Ao chegar lá, depois de
deitá-la numa das camas, o médico chamou uma enfermeira, e mandou que a
preparasse para uma curetagem, e voltando para o rapaz, colocando-lhe a mão no
ombro, conduziu-o para fora da enfermaria, dizendo-lhe:
--- Dos males o menor? Ela é nova e poderá ainda te dar outros filhos; mas agora preciso fazer uma limpeza
total e retirar o que sobrou.
--- Mas e ela doutor?... Corre perigo de vida?
--- Devo dizer-lhe que sim, infelizmente...
primeiro porque isto aqui não é um centro cirúrgico, portanto os recursos não
são os mesmos de um hospital... e depois, ainda por cima, tem o fato seríssimo da perda de muito
sangue. Mas Deus é grande e para Ele nada é impossível... por enquanto fique aqui fora e aguarde até
que eu te chame.
Ali fora, Alessandro ajoelhou e
ficou durante o tempo todo rezando e pedindo à Deus pela vida de Giovanna. Era
uma emoção que saindo dos mais distantes corredores da alma, mexia com seu
coração
e se refletia nos olhos, lágrimas
insistentes corriam-lhe pela face. E foi um tempo longo, foram quase duas horas
de sofrimento, sem notícias. Mas finalmente o médico saindo, disse-lhe:
--- Fizemos tudo o que podíamos fazer... ela
por hora está bem, embora continue bastante fraca, mas você pode entrar.
--- Obrigado doutor. Como é mesmo o seu nome?,
perguntou Alessandro.
--- André...
--- Pois então Dr. André - disse o rapaz
apressadamente, doido para adentrar a enfermaria. Que Deus te pague. Que São
Genaro seja o vosso guia, obrigado.
E correndo, foi para junto da
esposa. Quando lá chegou, encontrou uma enfermeira sentada na cama ao lado
dela, e ela dormia. Estava muito pálida, e mais pálida ficara em meios àqueles
lençóis brancos que a cobriam. Mas nem por isso deixava de irradiar a beleza de
seu rosto. Em seu braço esquerdo havia uma agulha engatada em uma mangueirinha,
por onde entrava em seu corpo um liquido claro, que descia do interior de um
vidro, que estava suspenso em sua cabeceira.
Estático ficou com aquele quadro
que deparava, sem saber o que fazer, ou mesmo o que perguntar. A enfermeira,
quebrando o gelo, disse:
--- Pode aproximar. e pode até dar-lhe um beijo se quiser... mas só isso.
Ao ouvir isso, ele se acercou da
cama pelo outro lado e deu-lhe um beijo na face. E começando a acariciar
levemente sua face, começou a falar baixinho as coisas que vinha de dentro do
seu peito. Mas a enfermeira, colocando a mão em seu ombro disse-lhe, tendo o
dedo indicador da mão direita verticalmente a frente dos lábios, a sugerir-lhe
silêncio.
--- Nada disso... ela precisa dormir e
descansar muito... se você quiser ficar mais um pouco fique, mas tem de ficar
calado e evitar conversar com ela...
--- Quando é que ela vai poder sair? Perguntou
aflito.
--- Isto quem manda é o médico... mas acho que
ela vai ficar aqui por uns dias...
--- E eu posso ficar, para olha-la?
--- Não, eu ficarei de plantão. Aliás eu já
fico mesmo todos os dias, e você quando tiver vontade de vê-la, pode vir até
aqui... só não pode é ficar muito tempo porque perturba os outros pacientes.
***************
Com o olhar fixo no horizonte o
capitão estava debruçado no peitoril da Ponte de Comando, quando o Dr. André
abrindo a porta, entrou ainda usando seu guardapó branco, com o qual assiste a
seus doentes.
--- Olá
capitão... disse ele, entrando. ... hoje está um bom dia para tomar uns
drinques.
--- Como vai Doutor?... respondeu o capitão,
enquanto olhava para ele. Para quem nunca bebe, não acha um pouco cedo para
começar?
--- Não... hoje eu tirei o dia para tomar um
porre.
O capitão que já era bem maduro,
pois sua barba grande e branca bem o mostrava, notou que havia problemas no ar.
E sabedor de que o médico não era nenhum beberrão, estranhou o fato dele portar
uma garrafa de uísque e tratou logo de
achar um modo de se envolver com ele, afim de tomar pé da situação. E caminhando
em sua direção, disse:
--- Mas... isso nunca foi uma regra... antes
porém, para se bem beber, a gente tem é
que estar primeiramente disposto... e
hoje... é... hoje parece que eu também amanheci bastante afim... vamos... vamos
beber sim..., mas... vamos para o meu camarote, porque você não vai querer que
eu perca o respeito da tripulação, não é?
E rindo, colocou-lhe a mão no
ombro, forçando sua saída da Ponte. E caminhando uns poucos passos, logo
chegaram ao camarote do capitão. Este então abrindo sua porta, fez com o médico
entrasse primeiro. Fechada a porta, o velho lobo do mar, disse.
--- Sente-se aí doutor, e largue já esta
garrafa. Está querendo perder o seu diploma de Médico, na sua primeira viagem
depois de formado? Pois fique o senhor sabendo que para que isso aconteça, basta
apenas o meu depoimento, e que eu não me afastarei um milímetro sequer desta
posição, se o senhor não largar imediatamente esta garrafa.
André que tinha sentado, e se
preparava para encher o copo, parou de fazê-lo. E colocando-o em cima da
escrivaninha junto com a garrafa, debruçou sua cabeça nos joelhos e começou a
chorar. O capitão vendo que sua ordem causou o impacto que queria, caminhou
para a mesa e guardando a garrafa, voltou e sentou-se ao seu lado. E pondo a
mão em cima da cabeça do jovem, provocou o diálogo.
--- Vamos... vamos... desabafe logo... só posso
te ajudar se souber o que está acontecendo...
--- Ninguém pode me ajudar.... deixe-me... eu
preciso ficar sozinho...
--- Chega de criancice rapaz... afinal você é a
esperança destes passageiros... e eles precisam sabê-lo inteiro e são. Mas...
ninguém precisa me dizer nada, para que eu
perceba que você está com um problema... por isso conte-me... ande....
vamos... É alguma coisa com relação ao velho que está com hepatite?... É?...
--- Não... é... com a moça... eu a
inutilizei... isto é... eu dei uma “barbeirada” como se diz na gíria... eu não
mereço continuar clinicando.
--- Como assim? Explique direito... que erro
você cometeu?... E numa fração de segundos, o capitão experiente como era, percebendo
a gravidade do problema, mudou sua pergunta, imediatamente.
---
E... que erro você cometeu com os parcos
recursos que existe dentro daquela enfermaria? Eu quando soube, pelo marido
dela, que a hemorragia tinha durado toda uma noite, imaginei a dificuldade que
você ia ter.
--- Você não entende, não foi a hemorragia,
esta poderia até tê-la matado, mas não foi ela... fui eu... que bisonhamente a
esterilizei. Esta pobre mulher não mais poderá ser mãe... eu, justamente eu...
acabei com a vida dela... acabei com os
sonhos dela...
--- Doutor... me diga uma coisa... esta
intervenção se tivesse sido feita em um centro cirúrgico, com toda aparelhagem
necessária, e principalmente com iluminação adequada, o senhor teria cometido
este erro?
--- Claro que não... mas o que isso resolve
agora?...
--- Mas então? O que o senhor queria que
acontecesse dentro de uma enfermaria praticamente improvisada? E completamente
às escuras, se a compararmos com uma sala apropriada? E depois?... os balanços
do barco? O senhor doutor, tem que levar
em conta tudo isso e até mesmo o fato de que, nem um bisturi apropriado para o
serviço que o senhor tinha que fazer, o senhor não possuía.
--- Mas sabendo disso, eu tinha que ter tentado
estancar a hemorragia, e esperar chegar à terra, e não me meter a besta, como o
fiz.
--- Pois doutor, eu não sou médico, mas me diga
uma coisa... se realmente esperasse este tempo que o senhor fala, e veja que
ainda falta três dias para a viagem terminar... me responda com franqueza... o
que poderia acontecer com ela?
--- Infecção... gangrena... mas, ainda assim acho
que deveria ter esperado.
--- Pois doutor... se ela morresse nesta
situação, eu juro que faria tudo para cassar seus direitos de médico... mas
graças à Deus você acabou foi fazendo um milagre, salvando a vida dela... agora deite-se ai um
pouco e procure dormir... e quando acordar, venha conversar comigo na Ponte.
André ficou sentado na poltrona do
camarote, e o pouco que já tinha bebido, foi o suficiente para fazê-lo dormir.
Acordando mais tarde, sentou-se e ficou a pensar em tudo que tinha se passado,
e em tudo que tinha ouvido do capitão. E agora mais sereno, levantou-se e
foi novamente à Ponte de Comando.
Desta vez, abriu a porta e entrou
calado. O capitão que o viu entrar, logo o chamou para frente do parapeito,
onde estava já há algum tempo, vendo os variados tipos de danças que os
passageiros faziam, pois ali tinham grupos de várias nacionalidades. André se
aproximou, meio envergonhado pela bebedeira, mas ainda não muito convencido de sua
inocência. E debruçando no parapeito, disse:
--- Obrigado por deter-me, e principalmente por
suas palavras.
--- Doutor a vida nos ensina muitas coisas, e
se a cada coisa que ela nos ensina, recorrermos à bebida, seremos em pouco
tempo inveterados alcoólatras. E depois, eu não estou acobertando o senhor em
nada, apenas disse que as condições precárias que o senhor tinha para fazer um
determinado trabalho, foi sem duvida nenhuma, a responsável pela consequência.
--- Tudo bem... mas eu não quero falar mais sobre
isso, não... eu vim aqui, para pedir ao
senhor um conselho.
--- Pois não... sobre o quê? Indagou o capitão.
--- Na minha posição o que o senhor faria? Chamaria
ou não os dois para uma conversa franca?
--- Não... veja bem doutor. Eles estão
praticamente em “lua de mel”.... até que eles venham um dia saber a verdade, se
passará algum tempo... e eu preferiria deixa-los viver este tempo, por menor
que ele seja, em igualdade de condições com os outros casais normais... e
depois doutor... o senhor acredita em milagres?
--- Acho que isso não vem ao caso? Respondeu
ele.
--- Pois meu caro... eu acredito e muito. E
depois, assim como o senhor disse que o escuro o fez errar, porque não
acreditar também, que o escuro tenha lhe incutido um erro que não cometeu? Tudo é possível... e tem outra coisa doutor...
quando eles descobrirem a verdade, e queira Deus que seja daqui há alguns anos,
pelo menos, eles estarão mais preparados para receberem esta notícia, que hoje.
--- Tudo bem... só espero que mais tarde eu não
me arrependa de ter me omitido, hoje. Dizendo isso, foi se retirando.
--- Se tiver bom senso, doutor... nunca
arrependerá desta posição, acredite-me. Onde vai?. Perguntou.
--- Vou dar uma olhada em meus pacientes... até
logo mais no jantar.
**********
Estes últimos dias estava sendo um
verdadeiro tormento para Alessandro. Pois não tendo nada para fazer, ocupava
seu tempo entre as visitas rápidas à enfermaria, e o convés do navio. Seus companheiros
de viagem, principalmente depois que a notícia do aborto se espalhou,
convidavam-no insistentemente para participar das danças e dos corais que
faziam, cantando “Ó sole mio”, “Santa Luzia” e tantas outras músicas
tradicionais, que desde o primeiro dia de viagem aconteciam em qualquer canto
do navio. Mas, ele simplesmente se negava a participar, mesmo contrariando toda
aquela musicalidade própria dos italianos, que naturalmente também ele possuía,
mas que mantinha fechado em um casulo, dentro de sua solidão. Quando ia à
enfermaria, ficava um pouco com sua mulher, procurando elevar sua moral fazendo
junto com ela, planos para o futuro. Mas quando voltava para o convés, ficava
na maioria das vezes com o olhar fixo no horizonte, talvez “viajando” de volta ao passado, apesar deste
ainda estar bem recente. Mas a solidão das horas sem Giovanna, acabava
levando-o de volta às terras que o vira nascer. E mesclando ideias vindas de um
passado conhecido, com as de um futuro desconhecido e por isso mesmo incerto,
chegava a ter medo, mesmo sendo destemido por natureza italiana. Mas pensasse o
que pensasse, jamais dividia estes temores com sua esposa, pois ele sabia que
sua permanência no Brasil, ia depender e muito da aceitação dela.
Capítulo 02
Finalmente a viagem chega ao seu
final. Eram quase 9 horas da manhã quando o navio recebeu ordens para encostar
no cais da cidade de Santos. No barco o dia já tinha começado bem cedo, mais ou
menos por volta das seis horas da manhã,
Dr. André deu “alta” para Giovanna, e recomendou muito ao marido que
evitasse expor sua esposa, por pelo
menos mais uns dois dias, à situações que necessitasse muito esforço, porque
ainda estava se convalescendo. E depois de prescrever uma alimentação mais rica
em alimentos próprios à quem vem de uma hemorragia, despediu-se deles lhes
desejando toda sorte do mundo e se colocando à disposição para qualquer
problema, visto ser ele brasileiro e ter residência fixa no Brasil.
--- Bem doutor... nós agradecemos muito sua
ajuda e mais ainda sua oferta generosa de se colocar à nossa disposição, mas
infelizmente morando praticamente dentro de um navio, como o senhor mora, acho
que ficará muito difícil tornarmos a nos ver...
--- Bem... realmente isto é verdade,
interrompeu André o que Alessandro dizia, e prosseguiu. ...mas isto é
passageiro, não pretendo ficar neste emprego mais que um ano... logo, logo...
estarei com meu consultório fixo e morando na minha cidade. Minha família
também mexe com café, nós somos de São Carlos. Eu é que não sou chegado a mexer
com fazenda.
--- De qualquer forma é sempre bom uma amizade,
disse Giovanna, e completou nós temos um contrato com um fazendeiro de uma cidade
que se chama Araraquara.
quem sabe se elas ficam perto uma da outra...
--- Araraquara? Fica quase colada uma na outra,
está vendo como este mundo é pequeno?
--- Então quem sabe a gente se encontra outra
vez... tudo é possível. Completou a mulher.
--- Eu não vou estar por aí, não, disse o
médico... mas se precisarem de alguma coisa, pode procurar a fazenda “dos
Seixas” lá em São Carlos, que tenho certeza que meu pai ou qualquer um dos meus
irmãos, na certa os ajudarão. É só dizer a eles que são meus amigos, ok? E
dizendo isso, André estendeu a mão e cumprimentando os dois, foi dar continuidade
as tarefas na enfermaria.
--- Vamos então minha santa... disse Alessandro
pegando a trouxa de roupas, que sua mulher usou enquanto ficou na enfermaria. E
caminhando devagar, amparada por ele, foram para a cabina dar afim de também
arrumar suas tralhas, para o desembarque, que já estava se aproximando. No
navio estava aquela confusão de passageiros, cada dois ou três conversando em
voz alta, e cada grupo em sua língua, e todos se mexendo para efetuar o seu
desembarque, ou de suas famílias
Já na cabina, Giovanna perguntou.
--- Como é mesmo o nome do fazendeiro que nos
contratou?
--- É um fazendeiro de nome Augusto dos Santos,
segundo o acordo que nós assinamos, o governo brasileiro paga as passagens do
navio, e os fazendeiros nos pegam aqui no cais e nos levam para suas terras.
Este nosso, deve estar lá em baixo a esta hora, mas nós não vamos ser os
primeiros a descer não, por causa do seu estado... vamos esperar que desçam os
mais afoitos e depois então iremos nós e com calma. Respondeu Alessandro.
Enquanto sua mulher ficava sentada
no colchão, Alessandro reunia as roupas que estavam espalhadas pela cabina e ia
dobrando-as, para depois colocar nos sacos de viagem. E foi nesta hora que
mexendo justamente nestes sacos, notou a falta do dinheiro que tinham trazido.
--- Santa Madre de Dios ... onde será que eu
guardei o dinheiro?
--- O dinheiro? Você o guardou no fundo falso deste saco ai, que
está na sua mão? Interveio sua mulher.
--- Então? Mas não está aqui... será que entrou
alguém aqui?
--- Como?... você não manteve a cabina fechada
enquanto ia à enfermaria?
--- Sim... Não... quer dizer, teve dia que eu
me esqueci... será que fomos roubados? Só faltava esta agora!
E aos olhos angustiados de
Giovanna, Alessandro com certa volúpia até, procurou debalde em todas os
possíveis lugares que poderia ter colocado o dinheiro, e por fim aceitou a
realidade.
--- É, infelizmente fomos roubados.... quase
trezentos réis... vamos levar uma eternidade para junta-los outra vez.
--- “Vão se os anéis, mas ficam os dedos”, disse
Giovanna tentando dar uma força para o marido. ... o importante é que estamos
juntos... o resto Deus nos providenciará... temos que ter fé.
--- “O que não tem remédio, remediado está”,
completou ele, e continuou falando seu raciocínio. ...mas só pode ser quem
ficou nestas cabinas aqui perto, porque a nossa é a última do corredor...
portanto, na nossa porta não havia trânsito de pessoas... te juro sem medo de
errar, que foi um destes dois vizinhos: o de frente, ou o do lado. Deus que me
perdoe se faço julgamento errado, mas são os únicos que podiam perceber os
momentos que nossa cabina ficava vazia.
--- Agora é tarde... mas você não manteve algum
nos bolsos? Insistiu sua esposa.
--- Pior que não... eu não precisava de
dinheiro dentro do navio... e além do mais, queria juntar para poder comprar
nossa terrinha o mais cedo possível.
Enquanto estavam ali chateados com
o roubo, o desembarque começou, e os mais apressados pulavam na frente, para
descer a longa escada que os levariam para a terra firme. E depois de mais ou
menos uma meia hora, Alessandro e Giovanna começaram a descer os degraus, e
enquanto desciam, Alessandro foi vendo os muitos grupos que iam se formando no
chão do cais e alguns homens gritavam os nomes dos passageiros. Quando chegaram
em baixo, antes mesmo de descer o último lance da escada ouviu seu nome ser
gritado.
--- ... Alessandro, Tomás, Tiago...
Era um senhor, que a frente de um grupo de
italianos, tinha pronunciado estes nomes, e dentre eles o seu primeiro nome. De
forma que saindo do navio, foi direto a ele e indagou:
--- Por acaso o senhor se chama Augusto dos Santos?
--- Não meu amigo... mas estou a mando dele,
para conduzir os empregados que ele contratou, até a fazenda em Araraquara.
--- Então meu nome deve estar aí com o senhor... Alessandro Donato.
--- Exatamente... está aqui... e o da sua
esposa: Giovanna Donato.
--- Ela está também aqui. Respondeu Alessandro.
--- Então por favor queira se juntar a este
grupo, que logo, logo estaremos saindo, porque daqui lá é quase um dia de viagem.
--- Pois não.
Alessandro entrou na fila em último
lugar junto com sua esposa. Devia ter mais ou menos umas vinte pessoas a sua
frente, dentre elas, quatro crianças com idades que variavam dos cinco aos oito
anos, duas senhoras de idade mais avançada e duas um pouco mais velhas que
Giovanna e mais 12 homens, sendo que dois deles eram bastante idosos, e quanto
aos demais suas idades variavam muito, mas na maioria eram jovens. Ao lado
desta fila tinha um caminhão com a carroçaria de madeira coberta por uma lona,
e entre as réguas laterais, umas tábuas para servirem de assentos. Quando
Alessandro percebeu que o tal caminhão, seria a condução deles para a fazenda,
foi até ao senhor que comandava a seleção, e chamou-o para uma conversa em
particular.
--- Meu senhor... por favor.... este deve ser o
veículo que nos levará para a fazenda, estou certo? Perguntou Alessandro.
--- Sim... é este sim. Por quê pergunta?.
--- Será que o senhor deixaria minha esposa
viajar na cabina?
--- Olha... pelo que eu já vi ali, tem duas
senhoras de bastante idade, que certamente não aguentarão esta viagem...
viajando em cima, na carroçaria. Enquanto que a sua esposa é bem mais jovem...
acho até que seria um pecado mudar isto.
--- É... eu também acho... mas acontece que a
minha esposa teve um aborto há três dias atrás, e o médico me recomendou muito
que não a expusesse à situações de grande esforço físico, pelo menos por mais
uns três dias... e esta viagem, da forma que vai ser feita, me parece muito
arriscado para o estado que ela se
encontra.
--- Olha... eu não posso fazer nada... se você
entrar em acordo com aquelas senhoras, por mim tudo bem... eu só não quero é
agir como juiz e determinar quem deve ou não, viajar comigo na cabina. Disse o
motorista.
--- Não vai ser preciso não... eu também estou
seguro que as duas senhoras devem ter esta preferência... mas, como eu também
não posso forçar a minha esposa a viajar na situação que ela se encontra... e o
que acontece com o meu contrato, se eu não for com o senhor?
--- Olha... por mim tudo bem, eu digo ao meu
patrão que você não veio no navio... Prejuízo ele não vai ter, porque não foi
ele quem pagou as passagens de vocês... foi o governo... e neste país, grande
como ele é... ninguém vai nem tomar conhecimento disso...
--- Então por favor, faça como o senhor
disse... eu prefiro ficar por aqui e procurar
emprego aqui mesmo... ou então, tentar outras fazendas mais perto.
--- Tudo bem amigo... que Deus te acompanhe e
te guie... só acho que emprego aqui em Santos para você, vai ser muito difícil...
mas enfim, como eu também acho que nesta situação, vocês não devem viajar...
seja o que Deus quiser...
--- Então... meu senhor... muito obrigado, e
que São Genaro proteja vocês em toda viagem.
Alessandro então chegou perto de
Giovanna que tinha se assentado no meio
fio da calçada, e pegando-a pelo braço, para que se levantasse, falou.
--- Vamos querida... vamos procurar uma outra
saída.
--- Hein!?...
saída?... não estou entendendo?... nós não vamos viajar?
--- Vamos querida... vamos andando que eu te
explico tudo.
Alessandro saiu com ela e foi
andando em direção ao centro da cidade, eram quase meio dia, o sol estava a
pino e fazia um calor tremendo. Chegando numa praça, caminharam em direção a
uma sombra fresca, que uma frondosa árvore fazia por sobre um gramado meio
ressecado. Ali então se sentaram e Alessandro colocando os sacos de roupas no
chão, explicou as razões que o levou a recusar o emprego.
--- Eu sei que a nossa situação não está nada
boa, minha santa, mas eu não vim aqui para ficar viúvo tão rápido assim... e
aceitar esta viagem de quase doze horas em cima de um caminhão, com você saindo
de uma hemorragia... e ainda por cima com este calor... eu não aceitaria por
nada deste mundo...
--- A culpa é toda minha... Giovanna começou a
falar entre soluços de choro. ... se eu não tivesse ido para aquela enfermaria,
pelo menos agora a gente tinha um pouco de dinheiro.
--- Se tem um culpado nesta história toda, esse
sou eu. Interrompeu o marido. Eu é que
tinha de tomar mais cuidado com o dinheiro, e não você...
--- E o que vamos fazer agora? Tem alguma ideia.
Disse Giovanna, agora mais calma.
--- Não... infelizmente não tenho a menor ideia...
mas uma coisa temos que fazer e ninguém melhor para nos aconselhar que São
Genaro... Ali na frente tem um igreja,
você está vendo-a?
--- Estou...
--- Deixa você recompor suas forças primeiro, e
depois vamos até lá para rezar um pouco.
--- Eu estou bem... vamos agora, porque até
esta sombra já está ficando quente... e a igreja geralmente é mais fresca. E
falando assim ela se levantou e Alessandro vendo sua disposição, pegou as
mochilas e caminharam os dois até ela.
Realmente, naquele horário a igreja
estava vazia e dentro, além de estar bem
mais fresco que a sombra da árvore, havia também um silêncio muito grande. Os
dois então se assentando num dos muitos bancos, ficaram ali orando e pedindo
orientação a Deus e a São Genaro. A paz que encontraram ali, parece até que
amainou a fome dos dois, e como não tinham mesmo o que fazer, ficaram ali um
bom tempo entregue às suas orações.
--- Boa tarde. Fez uma voz grave e ao mesmo
tempo suave, vinda do banco de trás.
Era o padre, que estando sentado no
coro da igreja, rezando seu breviário, viu quando os dois jovens entraram na
igreja. E observando-os, viu que a mulher alternava momentos de choro e de
oração, e como já estavam ali há horas, resolveu então se aproximar, e quem
sabe, levar uma palavra de conforto a eles.
--- Boa tarde. Respondeu Alessandro e ao virar
para seu interlocutor, disse ... óh! é o padre... e se levantando, estendeu a
mão para ele e pedindo sua bênção, beijou-lhe a mão. Giovanna, percebendo
também sua presença, imitou o marido no ato de pedir a bênção, dando-lhe também
um ósculo em sua mão.
--- Vocês são italianos? Perguntou o padre.
--- Sim... porque somos tão diferentes
assim?... perguntou Alessandro dando um sorriso.
--- Nestes tempos atuais, encontrar italianos
por aqui é a coisa mais natural do mundo... e com um sorriso, completou. ...mas
mocinhas italianas que entremeiam orações com lágrimas, já é mais difícil...
posso ajudar em alguma coisa?
Giovanna sorriu e ficou encabulada,
sem saber o que responder. Alessandro, então esboçou uma resposta.
--- São os problemas da vida padre... mas nada
que Deus não possa remediar.
--- Eu vejo que a senhora... isto é, são
casados, não são? Perguntou o padre
--- Sim, casamos há dois meses ainda na
Itália... respondeu Alessandro
--- E agora ela está com saudades de lá... eu
estou vendo que está bem abatida.
--- Não padre, respondeu Giovanna, é que
durante a viagem eu perdi o neném... num aborto. E ainda por cima fomos
roubados.
--- E se não bastasse isso, tive de recusar o
emprego, respondeu Alessandro.
--- Recusar o emprego, por quê? Perguntou o
clérigo.
--- Ela, - disse Alessandro, se referindo à sua
esposa - saiu da enfermaria do navio hoje pela manhã... está ainda muito
fraca... e a fazenda que tinha nos contratado, fica em Araraquara... e fazer
uma viagem em cima de uma carroçaria de caminhão... dificilmente ela poderia aguentar.
--- Então vocês na realidade estão precisando
de ajuda...
--- Olha padre se não for muito incomodo... e o
senhor nos permitir que passemos a noite aqui, isso nos ajudará muito.
--- Não senhor... dentro da igreja, não. E se levantando disse: Venham até minha
casa, vocês precisam de um banho, uma refeição
quente e uma cama para descansar. Depois a gente vê o que se pode fazer.
Os dois então se levantaram e foram
seguindo o padre, e entre as lágrimas que agora caiam de seus olhos, ficavam
uma prece de agradecimento a Deus e ao milagroso São Genaro.
*********
Padre Miguel Ruffo, este era o nome do pároco
daquela igreja, era um exemplo de caridade, com seus quase 60 anos, baixo, um
pouco gordo e cabelos bastante grisalhos, se condoeu da triste situação em que
se encontrava o casal de jovens e levando-os para a casa paroquial, além da
alimentação, ainda ofereceu-lhes guarida, cedendo-lhes um quarto com duas camas
de solteiro, para que ali ficassem pelo tempo que fosse preciso, até que
conseguissem dar um novo rumo à suas vidas. Quando completou uma semana,
Alessandro já se sentindo vexado pela situação de estorvo, que pudesse estar
causando ao padre, aproveitou a hora do jantar em que se reuniram os três à
mesa, e falou com ele.
--- Padre Ruffo... nós somos muito gratos ao
senhor e a Deus, que na sua misericórdia infinita, colocou o senhor na nossa
vida, naquele dia triste em que chegamos ao Brasil... eu não sei o que teria
sido de nós, se não fosse a vossa ajuda.
--- Meu filho... nesta vida quem não vive para
servir, não serve para viver... vocês não tem nada que agradecer... esta casa é
de vocês e podem ficar o tempo que desejarem...
--- Não padre... a minha esposa já se recuperou
da anemia que estava sofrendo, e nós temos que tomar um rumo.
--- Mas para onde irão? Eu tenho visto meu
rapaz, que você tem procurado emprego na cidade e não tem encontrado... mas
para quem nasceu na agricultura e só aprendeu este ofício, uma cidade igual a
esta, não oferece opções.
--- Por isso mesmo, padre... nós precisamos
sair e procurar emprego nas fazendas... permanecendo aqui na casa do senhor,
nós não vamos conseguir nada. Por isso é que conversamos muito ontem, e
chegamos à conclusão que temos que sair e ir à luta...
--- Olha, desde que vocês entraram nesta casa,
que eu os tenho observado e muito... e eu não costumo me enganar com as pessoas
não, e... eu passei então a me preocupar com o problema de vocês, isto é, numa
forma de ajudá-los a começar suas vidas, neste país totalmente estranho a
vocês... e... eu tanto pensei, que acabei me lembrando de uma coisa... há mais
ou menos doze anos atrás, isto é por volta de 1898..., eu fui mandado para ser
pároco num povoado que estava se formando e que tinha o nome de Bom Jesus de
Matão, que coincidentemente fica perto deste lugar para onde vocês iam, Araraquara...
lá eu fiquei muito pouco tempo... depois
fui para outros lugares , até que me mandaram aqui para Santos. Na verdade, eu
acho que nunca fui um bom padre, pois nunca me deixaram parar em lugar nenhum,
mas voltando ao povoado, um belo dia me apareceu na sacristia da capela, um
fazendeiro daquelas redondezas que queria doar um terreno para o Senhor Bom
Jesus, atendendo o desejo de sua esposa em pagamento a uma promessa. Como eu
nunca concordei com este tipo de doação em nome de santos porque os santos nunca
desfrutam do bem, e uma vez que a escritura recebe o nome deles, fica completamente
impossível doá-las ou até mesmo vendê-las, porque santo não assina nada. Então, com muito custo, consegui convencê-lo,
que fizesse a doação sim, mas que a fizesse em meu nome, e eu me incumbiria de
achar uma família que estivesse necessitando de ajuda, e doasse para ela...
assim ele fez... só que logo depois, eu fui novamente transferido e acabei me
esquecendo desta obrigação. Quando foi anteontem, eu procurei o cartório aqui
da cidade e passei uma procuração em seu nome Alessandro e... de forma que se
vocês procurarem o Cartório de Registros da cidade de Araraquara, vocês poderão
passar esta terra para o nome de vocês... não é muito grande não, me parece que
chega a um alqueire e pouco... mas dá para vocês começarem a vida.
--- Mama mia, padre... só pode ser São Genaro
que pôs o senhor na nossa vida.... disse Giovanna.
--- Mas padre... isso é uma bênção... disse
Alessandro.
--- É... mas vocês não fiquem muito entusiasmados
não, porque esta terra pode estar lá em completo abandono, ou então nas mãos de
algum invasor, de forma que dentro da lei vocês ficarão sendo os donos, mas
talvez ainda leve algum tempo até que possam
tomar posse dela.
--- Mas já é uma esperança padre, coisa que até
aqui, não tínhamos nenhuma. Disse Alessandro.
--- Eu não ia falar isso agora não, mas como
vocês já resolveram partir, eu separei um dinheiro ali, e vou dá-lo também a
vocês... não é muito não... mas dá para
pagar as passagens de ônibus e fazer suas refeições até chegar lá...
estou dando até um pouco a mais, e digo que vocês devem economizar o que
puderem nesta viagem, porque para passar esta terra para o nome de vocês, vai
aparecer uma despesa no cartório.
--- Acho que o senhor é um santo, padre, se eu
contar isso para alguém, vou passar por mentiroso! Como o senhor pôde lembrar
de tudo isso, se já faz tanto tempo?
--- Acho que foi o fato de vocês mencionarem a
região de Araraquara, mas, a que horas vocês pretendem partir?
--- Com esta ajuda que o senhor esta nos dando,
acho bom sairmos cedo, porque a viagem é muito longa... Disse Alessandro
--- Então me deem licença, que eu vou buscar o
dinheiro. E falando assim Padre Ruffo se levantou e foi até seu quarto.
O jantar já tinha acabado há muito
tempo, mas como os três continuaram à mesa, somente agora com a saída do padre,
que a governanta aproveitou para tirar as baixelas. Alessandro olhou para
Giovanna e pegando sua mão disse em tom baixinho
--- Está vendo. A misericórdia de Deus é
infinita e age sempre se a gente não desespera... e beijando suavemente sua
mão, completou: Ainda existe gente boa neste mundo de Deus.
Aquela foi a noite mais longa da
vida deles, deitados em camas de solteiros, nenhum dos dois conseguiu conciliar
o sono, diante de tanta alegria e encantamento, que segundo eles vinha da
Misericórdia de Deus. As cinco horas da manhã, mesmo sem conseguir dormir um
minuto sequer, se levantaram e se prepararam para irem até a rodoviária e tomar
o ônibus com destino a São Paulo. Quando estavam na cozinha da casa paroquial,
tomando café, o padre chegou.
--- Bom dia meus amigos... já estão de saída?
--- Sim padre... temos que pegar o ônibus das seis... mas
antes de sair nós íamos chama-lo para nos despedir.
--- Oh! sim, mas eu levanto cedo todo dia...
pois tenho que celebrar a missa das seis e meia.
E terminando então o café,
Alessandro falou.
--- Bem padre... temos que ir agora senão
perderemos o ônibus... quero agradecer mais uma vez ao senhor e no mais... eu
só posso dizer que durante toda minha vida... todas as noites quando me deitar,
eu incluirei o nome do senhor as minhas preces... pois é a única forma que
tenho para retribuir estes favores que o senhor nos fez.
--- Não se preocupe comigo... e lembre-se das
minhas instruções: em são Paulo vocês vão procurar um ônibus que os levem para
Campinas, e farão as baldeações de Campinas para Piracicaba ou São Carlos e daí
para Araraquara. A gleba de terra que vocês vão reclamar no cartório, fica
próxima ao povoado de Bom Jesus de Matão... No mais, façam uma boa viajem e que
Deus os acompanhem.
E depois de beijarem a mão do
padre, e pedirem sua benção, saíram os dois em direção à rodoviária.
Capítulo 03
A viagem começou as seis horas da
manhã daquela terça-feira 13 de maio de 1910, no ônibus que os levou para São
Paulo. Chegando por volta de onze horas, na rodoviária mesmo enquanto
esperava o embarque para Campinas,
fizeram um pequeno lanche. As duas da tarde recomeçou novamente a aventura. Em
Campinas, tiveram que passar a noite em um dos bancos da Rodoviária, pois não
chegaram a tempo de pegar a conexão que os levaria para Piracicaba. Mas
este azar até que acabou virando sorte,
porque enquanto passeavam pela estação,
descobriram que existia um horário direto para Araraquara, mas que saia às duas
horas da tarde. E eles então optaram por esperá-lo, visto que se pegassem o de
Piracicaba ainda teriam que fazer mais dois embarques, isto é, um para São
Carlos e outro para Araraquara . Assim então, preferiram tomar aquele “chá de
estação”, até chegar o horário das duas da tarde do dia seguinte, quando então
saíram com destino à Araraquara. Chegaram por volta das onze da noite e
procuraram logo uma pensão para se instalarem pelo tempo que precisasse, até
quando conseguissem desembaraçar seus negócios.
Na pensão mesmo, conseguiu com o
proprietário o endereço do Cartório de Registro da cidade. Este ficava na rua
Feijó, bem no coração da cidade. Como a viagem tinha sido muito desgastante,
Alessandro preferiu deixar sua mulher descansando no quarto da pensão, enquanto
ele mesmo ia até o Registro de Imóveis, tentar desenrolar o caso.
De posse da escritura em nome do
proprietário padre Miguel Ruffo, foi fácil descobrir o terreno, coisa que o
funcionário de nome Florisvaldo, conseguiu fazer o levantamento.
--- Pronto senhor, aqui está: Livro-2, páginas
635/636, escritura lavrada em 11 de outubro de 1898.
.
E assim, no dia seguinte pela manhã, Alessandro
acertou sua despesa com a pensão e foi diretamente para o local do terreno.
Este, era de forma meio losangular,
com mais ou menos 20 metros de frente para a estrada, e mais para o meio, havia
uns eucaliptos, algumas árvores
espalhadas e uma moita de bambu. Cortando uma vara para se defender contra
possíveis cobras, Alessandro pegou a mão de sua esposa e adentrou o mato. Depois
de caminhar uns cinqüenta ou sessenta metros mais ou menos, pararam debaixo de
um ipê amarelo, onde a vegetação já era mais rala por causa do arvoredo, e
abraçando Giovanna, disse:
--- Aqui está o nosso presente, é uma terra
bruta, descuidada, mas é nossa. Sei que vamos morrer de trabalhar aqui, mas
minha santa, haveremos de realizar nossos sonhos, tenho fé em Deus e em São
Genaro.
--- E que pretende fazer, agora?
--- Agora nada... vamos para Matão e passaremos
a noite numa pensão. Amanhã bem cedo, mudaremos definitivamente para cá.
E um longo beijo apaixonado selou o
acordo dos dois.
A distância até Matão era de menos
de sete quilômetros, e isso para eles era pouco, pois na Itália cuidavam de
roças que ficavam muito mais além, que esta pequena distância.
****************
E desta forma então fizeram. No dia
seguinte levantaram-se cedo e procuraram uma carroça de aluguel pelas ruas da
cidade, que pudesse fazer a viagem até o terreno. E lá pelas dez horas da manhã, já estavam descarregando suas
tralhas bem no meio da propriedade, debaixo do frondoso pé de ipê amarelo. E
dentre estas coisas, tinham duas enxadas, um machado, um enxadão, uma
cavadeira, uma pá, martelo, pregos, facão, foice, dois caixotes contendo
alimentos, alguns pacotinhos de sementes, sacos de pano vazios, uma lata grande
de água potável, um lampião, querosene, duas ou três panelas e um rolo de
corda.
Alessandro entregou ao carroceiro a
última nota de cinco reis, que tinha sobrado do dinheiro que o padre Miguel
Ruffo havia lhe dado. E despachando-o de volta, virou para Giovanna e disse:
--- Agora vamos ver quem é mais
corajoso... nós... ou os nossos sonhos?
Por um momento, olharam aquele
amontoado de coisas e ficaram sem ação, mas Giovanna logo se adiantou e disse:
--- Bom a primeira coisa que precisamos agora é
água. E enquanto você inicia o poço, eu
vou fazer um fogo e cozinhar umas mandiocas...
Alessandro pegou as ferramentas e descendo um pouco no
terreno, que era ligeiramente inclinado, e mais ou menos a uns vinte metros do
pé de ipê, num lugar onde a vegetação estava mais verde que em outros, e após
capinar um quadrado de mais ou menos cinco metros de lado, marcou um círculo de
um metro de diâmetro e começou a cavar. Giovanna arrastou umas pedras e
juntando-as de jeito, conseguiu fazer um fogão bastante rústico, onde colocando
fogo em uns gravetos, pôs as mandiocas para cozinhar. Enquanto o alimento
cozinhava, pegou a enxada e começou a capinar o terreno de forma circular, a
partir do lugar onde estavam suas tralhas, e que ficou com nome de sede,
daquele dia em diante.
Duas horas depois, Giovanna chegou
perto do buraco, e este já quase cobria o seu marido, e perguntou.
--- Qual a sua expectativa?
Ele então parando de cavar, olhou
para a terra solta que se amontoava do lado de fora, passando a mão no suor que
pingava de todo seu corpo, disse:
--- Acho que eu não podia ter escolhido um
lugar melhor, olha só como esta terra está úmida... eu posso estar enganado,
mas este poço vai dar água com menos de dez metros.
--- Deus te ouça. Mas agora vem comer que as mandiocas estão
prontas. Disse ela, e continuou. Nunca comi mandiocas tão gostosas.
--- É a fome... quando se está com fome, até
ensopado de pedras fica gostoso. Disse ele sorrindo... e continuou. ... É...
você já capinou uma roda bem grande... o terreno à medida que vai ficando
limpo, vai ficando também mais bonito...
eu só vou afundar um pouco mais aquele buraco por hoje, e depois vou cortar aqueles três eucaliptos mais finos
e novos que estão ali, disse ele apontando para o meio do mato, e vou fazer um
cercado aqui, onde poderemos passar a noite... vou fazer uma espécie de tenda
indígena.
E terminando então de comer,
voltaram ao trabalho. Mas antes de
começar a cavar, Alessandro cortou um pau roliço, e pregando nele pedaços de
galhos de árvore, espaçados um do outro, fez uma espécie de escada de um mastro
só, que manteve dentro do buraco para facilitar sua saída. Além disso, fez
questão de amarrar uma corda numa árvore próxima e manter sua ponta dentro do
buraco, para ter como sair de dentro dele, se acaso acontecesse algum
desmoronamento. E lá pelas quatro horas da tarde encerrou suas atividades no
poço, e este já cobria em muito a sua altura que era de 1 metro e 85 centímetros,
mas ainda assim continuava sem água. Durante o tempo que Alessandro trabalhou
no poço depois do almoço, sua mulher fez um pequeno canteiro na área já
capinada, onde utilizando um pouco da água que trouxeram na lata, fez uma
sementeira. Alessandro pegou o machado e cortou os três eucaliptos de que tinha
falado. E afundando-os no chão, perto do fogão de pedras, fez um tripé indígena
com mais ou menos dois metros de diâmetro. Giovanna também já tinha preparado
os sacos que haviam comprados no comércio da cidade, para cobrir a tenda. E
emendando-os abertos, com barbante, tiras de pano e até mesmo cipó, conseguiram
fazer uma cobertura para a cabana. De forma que as seis horas da tarde, quando
o breu da noite chegou, a cabana já estava pronta. Alessandro ascendeu o
lampião e pendurou-o num dos galhos do ipê, de modo a clarear o ambiente todo.
E aproveitando ainda as mandiocas que sobraram do almoço, jantaram e foram
dormir, deixando o lampião aceso a noite inteira.
Ainda estava escuro, quando
Alessandro acordou. Deixando sua esposa dormir, levantou-se e foi para o poço
cavar. Ele sabia que para continuar ali, o poço tinha que minar água e
depressa. Quando acabou de amanhecer,
Giovanna chegou até o buraco e trouxe uma caneca de café e uma rosca seca, que
tinham trazido junto com os mantimentos.
--- Bom dia querido... pare um pouco e venha tomar este café. Disse ela
com carinho.
--- Ô minha santa! Já de pé?... Eu fiz questão
de não fazer barulho para que você dormisse mais um pouco.
--- E eu dormi... só que temos tanta coisa para
fazer... que tem hora que me dá um desespero. E começou um soluço baixinho.
Alessandro, saiu do poço e
abraçando-a, mesmo com o corpo molhado de suor, disse:
---
Vamos... coragem... tenha fé... São Genaro não nos desamparou e nem vai
nos desamparar... e levantando a cabeça dela com as duas mãos, deu-lhe um beijo
e depois disse: Ainda vamos rir do tempo de hoje, tenho certeza.
--- Tomara Alessandro. Agora vamos, Tome este
café, que eu vou capinar mais um pouco. Disse ela.
Alessandro pegou a caneca e a rosca
seca, e sentando no chão disse:
--- Não... eu preciso que você me ajude aqui...
precisamos concentrar os esforços neste poço.
--- Como assim?
--- Eu preciso colocar um balde amarrado numa
corda, para você subir a terra... porque já está difícil para mim jogar a terra
para o lado de fora.
--- Quanto metros já furou? Perguntou ela.
--- Quase quatro metros. Mas se nos unirmos, acredito
que hoje ainda atingiremos uns oito; isso se não acharmos água antes.
--- Então vamos, quem sabe ainda hoje, a gente
pode até tomar um banho. Só mesmo quem precisa dela e não a tem, é que sabe
quanto vale.
E assim fizeram, Alessandro
colocava a terra no balde e suspendia ele com as mãos até acima de sua cabeça e
Giovanna completava o trabalho de levá-la para fora, sozinha.
O sol castigava os dois,
principalmente Giovanna, que ficava diretamente exposta. Mas o serviço rendeu
tanto, que ao meio dia começou a
aparecer barro no fundo do poço.
--- Viva! Não te falei? Até que enfim! Gritou Alessandro, ao subir o
primeiro balde com barro.
--- Graças à Deus, disse sua mulher ao
recebê-lo em cima. E com as mãos esfoladas por roçar na corda, mergulhou-as
dentro dele afim de refresca-las.
Daí para o final foi um pulo,
bastou subir mais alguns baldes e a água minou pra valer, enchendo o buraco até
os joelhos de Alessandro.
Estava vencida a primeira etapa.
Alessandro saiu de dentro e abraçando sua esposa, derramou um balde de água
ainda barrenta por cima deles e depois disse:
--- Agora minha santa, a vida começa a melhorar
para nós. Você vai ver como a água faz uma diferença danada.
Alessandro limpou a superfície de
acesso ao poço, transportou a terra solta, para um local onde fez vários
canteiros. Depois investiu contra a moita de bambus e cortou muitos deles, e
após limpá-los ali mesmo, transportou-os para perto da sede. Ali então
construiu um rancho pequeno com quarto sala e cozinha e para cobrir os cômodos,
usou os bambus de diâmetros maiores, para evitar que selassem rapidamente.
Depois usando o capim cortado, misturou-o com
terra e água, e aplicou nas paredes para tapar as fendas, em cima do
teto colocou sapê. Com os caixotes fez a porta e nas janelas colocou forro de
pano.
A construção não era definitiva,
ele bem sabia disso, mas para quem nada tinha, aquilo já era um grande início.
O dias que gastou para construir o rancho, foi mais que suficiente para que a
sementeira desabrochasse, e agora cuidava então de plantar todo tipo de
verduras e legumes, nos canteiros que já estavam prontos.
Vinte dias depois de plantadas,
eles já começavam a colher principalmente alface e couve, embora ainda com
folhas miúdas, mas era a forma que encontravam para fazer economia dos víveres,
que já estavam escasseando.
Mais ao fundo, perto da divisa com
a fazenda do Sr. Sandoval, um próspero cafeicultor, ao roçar o mato naquela
região, encontrou uma faixa de terra vermelha própria para a fabricação de
tijolos. Alessandro não perdeu tempo, e com umas sobras de tábuas, fez uma
forma e começou a intercalar a capina do terreno com a fabricação de lajotas.
Quando fez um mês e meio que ali já
estavam instalados, começaram a colher todo dia, um pouco das verduras e
legumes e iam para a cidade de Matão, afim de fazer dinheiro para comprar as
coisas de que necessitavam. Por muitos dias seguidos, não trouxeram um centavo
para casa, pois quando não traziam alimentos, traziam ferramentas mudas de café, de cana, de laranja, de limão,
etc. E renovando sempre sua sementeira, iam fazendo a manutenção dos canteiros.
Um mês e meio se passaram, por este
tempo, Alessandro começou a notar que Giovanna andava um pouco tristonha. Com
medo de ser a saudade da família que já estivesse começando perturbar sua paz,
evitava mexer no assunto, temendo complicar ainda mais a situação. Mas a
mudança foi ficando a cada dia tão forte, que numa bela tarde, depois do
trabalho, chamou-a para sentar a seu lado no banco, que fizera debaixo do pé de
ipê. E ali sentado, iniciou a conversa, que no fundo mesmo, não queria tê-la.
--- Vamos minha santa, desabafe comigo. O que
está te magoando tanto?
--- Nada... porquê pergunta?
--- Qualquer um pode ver que você não tem
andado alegre.
--- Não... você é que deve estar vendo coisa.
E passando o braço por cima de seus
ombros, Alessandro insistiu.
--- Se você não se abrir comigo, quem mais
poderá te ajudar...
--- É... cisma... eu é que tenho andado
cismada...
--- Cismada com quê?
--- É que,
e abraçando seu marido, deixou desabar seu mundo, num choro compulsivo. Já
faz três meses que a minha menstruação não vem.
--- Calma... calma não precisa chorar, para
tudo há remédio.
--- Não
eu já tomei até chá... de todos os tipos, e nada dela vir.
--- Mas Giovanna com a vida que você tem
levado... trabalhando demais... muita friagem... isto só atrapalha....
--- Não Alessandro... E ela continuou a responder
chorando. ...desde aquele maldito aborto no navio, que eu não menstruei mais.
--- Olha minha santa. Filho agora não será bem
vindo, pelo menos até a gente construir nossa casa... portanto, tenha paciência
que até lá a gente procura um médico e você vai conseguir regularizar seu ciclo
menstrual... mas neste meio tempo você deve se manter calma, porque as vezes o
problema é apenas psíquico...
--- E se não for? E se aquele malogrado aborto
tiver me esterilizado?
--- Acho que você está se deixando levar pelas
aparências.
--- Mas e se eu estiver certa? Perguntou ainda
em soluços.
--- Ora... eu me casei com você para ter
você... filhos é secundário... se você não puder tê-los... adotaremos algum...
quanto a isso eu não vejo problemas.
E Giovanna parando de chorar,
afastou a cabeça do ombro de Alessandro, e olhando firme nos seus olhos azuis,
disse:
--- Jura? Você jura que não se importará? Jura que não vai deixar de me amar se por acaso
eu não puder te dar filhos? Você jura?
Alessandro notando o quanto ela
estava sofrendo com a dúvida, puxou-a outra vez contra seu peito e entre muitos
beijos disse
--- Bambina... eu te escolhi para viver dentro
do mundo
mágico do meu coração para todo o
sempre, eu te escolhi para ser minha alma gêmea, é claro que quero filhos. mas isso não depende de nossa vontade, e sim
da de Deus... mas se por ventura não pudermos tê-los... paciência... quantos e
quantos casais adotam recém nascidos e vivem felizes... não seremos diferentes
deles.
--- Oh! meu amor... e eu que...
--- Eu o quê?... interrompeu Alessandro, e
continuou por ela. ... ficou pensando bobagem... este tempo todo sofrendo
calada.... que bobinha hein!?
E mais uma vez um beijo apaixonado,
colocava voz no silêncio, de forma que só os dois conseguiam ouvir.
Capítulo 04
O rancho de bambu ficava debaixo do
pé de ipê. Vinte metros para baixo e um pouco mais para trás do tal rancho,
ficava o poço artesiano. E completando mais ou menos um triângulo, ficava no
outro vértice a construção que Alessandro estava começando a erguer, que era a
casa definitiva.
Naquela manhã, estando já o ciclope
da casa pronto, coisa que com muito sacrifício Alessandro fizera, mandando para
isso vir de Matão um caminhão de pedras, que foi assentando com barro vermelho
uma a uma, como se fosse um mosaico perfeito, dentro das valas que para isso
ele tinha aberto no solo, começou então
a assentar as lajotas, iniciando desta forma as paredes da casa. Giovanna, que capinando o mato que ameaçava
abafar a plantação de abacaxi e de melancia, notando a entrada no terreno de
três cavaleiros, gritou seu marido.
--- Alessandro!... Alessandro... temos visitas.
Alessandro então, lavando as mãos
rapidamente no balde de água que estava ali perto, apareceu logo em frente ao
rancho de bambu, e ficou aguardando a aproximação dos cavaleiros. Na frente
vinha um homem forte, com barba longa e grisalha, um chapéu de couro de lebre na cabeça, e
trajava calça e paletó de brim cáqui. Atrás dele vinham dois outros, porém de
pele escura, e trajes mais simples, além de usarem na cabeça chapéus de palha comuns.
--- Bom dia... disse o senhor da primeira
montaria, puxando as rédeas de seu animal e parando-o à frente de Alessandro.
Enquanto os outros dois pareando seus animais um de cada lado do primeiro,
permaneceram calados.
--- Bom dia... respondeu Alessandro. ... A quem devo a visita?
--- Meu nome é Sandoval e sou dono daquele
cafezal, ali. Respondeu ele apontando para a parte baixa do terreno de
Alessandro.
--- Ah... sim, bonita plantação a do
senhor... Meu nome é Alessandro e a minha esposa é
Giovanna... mas...vamos apear.
--- Desde quando os italianos passaram a
invadir terras? Perguntou Sandoval.
--- Como assim? Respondeu Alessandro.
--- Humm!... fez Sandoval. E depois de olhar
tudo em volta e notar o progresso da propriedade, completou. ...você é o
primeiro invasor trabalhador e inteligente que passa por aqui... e parece que
vai ser o primeiro invasor italiano que eu ponho para fora desta área... vou te
dar meia hora para você juntar o que é seu e por o pé na estrada. -- Disse o
velho, mostrando imediatamente que não veio até ali, para papear.
--- Eu já ouvi falar do senhor... como
fazendeiro rico que é... mas só agora fico sabendo que também é ladrão...
respondeu firme Alessandro.
--- Está muito enganado se pensas isto de
mim... respondeu o fazendeiro. ... apenas cuido para que invasor nenhum ocupe
esta terra, colocando em perigo a minha propriedade.
--- E desde quando eu e minha mulher estamos
invadindo propriedade de alguém?...
--- Não me venha me dizer que comprou esta
terra, porque eu não irei acreditar... disse Sandoval em tom irônico.
--- Realmente não compramos.. nós simplesmente
ganhamos...
--- Ah! é... e pode me dizer de quem?
--- Padre Miguel Ruffo. Respondeu Alessandro
--- Infelizmente meu amigo... pelo que me
consta este padre já morreu há muito tempo.
--- Que morreu coisa nenhuma... ele é pároco na
cidade de Santos... e além do mais eu posso muito bem comprovar tudo isso.
--- Olha... não me leve a mal não, mas eu
gostaria de ver este documento. Disse Sandoval.
--- Então porque não apeia para que possamos
conversar. Disse Alessandro.
Apenas o fazendeiro desceu de seu
animal, e entregando as rédeas ao cavaleiro do seu lado direito, para segurá-las,
se aproximou de Alessandro.
--- Não o convido para entrar, porque aqui fora
tem mais conforto que dentro do rancho, mas sente-se naquele banco debaixo do ipê,
enquanto busco a escritura.
--- Não se preocupe comigo, eu espero aqui
mesmo. Disse o fazendeiro.
Não levou dois minutos e Alessandro
voltou com a escritura do terreno e a entregou ao fazendeiro. Este leu o
documento inteiro, e enquanto lia, sua
fisionomia foi mudando daquela rigidez inicial, para uma feição mais amena, contudo,
ainda assim havia nele grande espanto. E agora caminhando para o tal banco que
lhe fora indicado antes, sentou-se e olhando novamente para o documento disse:
--- Meu amigo... pelo que parece você está
dizendo a verdade... mas o que eu não entendo é que para mim este padre morreu
logo que foi transferido daqui...
--- Não senhor... ele nos deu guarida por uma
semana na cidade de Santos... e neste tempo foi que ele lembrou que havia esta
terra aqui, para ser doada... e nos fez a doação.
--- Me diga uma coisa... ele veio com vocês a
Araraquara para efetuar a doação?
--- Não senhor, nem era preciso, pois ele foi
ao cartório da cidade de Santos e passou uma procuração em nosso nome... para o
cartório da cidade de Araraquara era o suficiente, tanto que em dois dias este
documento estava pronto.
--- Olha... Por aqui já passaram três invasores
de terras, e todos os três afirmavam que haviam ganho esta gleba de terra da
igreja... só que nenhum conseguiu provar nada. E na defesa da minha propriedade
e das de meus amigos vizinhos, eu os expulsei a todos... mas você é
diferente... você pelo menos tem provas... e até que me provem o contrário,
você é realmente o dono desta terra.
E levantando-se do banco, estendeu
sua mão para cumprimentar Alessandro, dizendo:
--- Queira aceitar minhas desculpas, pelo modo
que o tratei... Mas confesso novamente que para mim o dono destas terras já
tinha ido para o céu, pelo menos é o que todos por aqui dizem... mas... por
outro lado... também acho que ela está em boas mãos... pois estou vendo que são
bastante trabalhadores.
--- Eu também peço desculpas ao senhor por
tê-lo chamado de ladrão... mas sendo dono da terra, achei que os senhores
estavam querendo nos tomá-la...
--- Você agiu certo... não há nada a desculpar,
pois no seu lugar agiria da mesma forma... e para provar que não sou nenhum
bandido, eu lhe ofereço ajuda no que precisar. Eu sei que a sede da minha
fazenda fica longe daqui, mas se precisar de alguma coisa pode aparecer por lá,
que se tiver ao meu alcance, o servirei. Dizendo isso, caminhou para o seu
cavalo e enquanto colocava o pé no estribo e se preparava para com um
impulso passar a perna por cima do
arreio, disse:
--- Na chegada eu vi uma espécie de olaria
ali... é você mesmo que faz os tijolos?
--- Sim, nas horas vagas.
--- Eu estou precisando de uns milheiros, não
quer faze-los para mim?
--- Infelizmente eu não tenho equipamento... e
o pouco que consigo fazer só dá para o meu consumo. Mas se o senhor mandar um
burro, um ajudante e madeiras, eu os farei para o senhor...
--- Tudo bem... talvez eu faça isso... --E virando os animais para saírem da
propriedade, falou:
--Tenham um bom dia.
Quando os cavaleiros
saíram, Giovanna largou a enxada e desceu até onde estava Alessandro e
mostrando-se muito apreensiva, disse.
--- Que homem nervoso. Será que ia mesmo nos
por pra fora daqui?
--- Ele parece ser muito sério, pois logo que
viu a escritura, mudou logo seu comportamento... mas você ouviu ele dizer que o
padre Ruffo morreu... coitado...
--- Ah! Isso é como diz os antigos. “ é vida
para o padre”, disse ela.
--- Por falar nisso, eu preciso escrever para
ele e dizer que saiu tudo como ele tinha dito. E falando assim, Alessandro
voltou à sua tarefa anterior e Giovanna tornou subir o terreno para continuar a
sua capina.
Dois dias depois deste
encontro com o fazendeiro, o casal tirou um dia de folga e foi passear em
Matão. E quando visitaram a igreja, Alessandro lembrou logo do padre Ruffo e
rezou muito por ele, ao sair dela foi direto ao correio e no balcão da agência,
escreveu uma carta pequena porque não tinha muita intimidade com as letras, mas
contou como foi fácil a transferência do terreno e principalmente dos
progressos que já tinha conseguido. Como endereço, escreveu na frente do
envelope: Igreja que fica na praça, perto do Cais do Porto, além é claro, do
nome do padre Miguel Ruffo e o da cidade de Santos. O estafeta, achou muito
esquisito este procedimento, mas como igreja e padres não são muitos numa
cidade, achou possível deixar a carta endereçada desta maneira
Naquela semana mesmo, toda a
plantação de abacaxi e melancia foi retrabalhada. Algumas mudas foram
renovadas, outras foram ceifadas e outras readubadas e toada sua terra
revolvida. Novos canteiros também passou a fazer parte da paisagem do sitio,
era a hora e a vez dos temperos típicos da Itália, manjericão, cominho,
orégano, pimentas, etc.
Alessandro pegou uma tábua e pintou
o nome “Chão Italiano” na cor azul e pregando-a em dois caibros, cujas pontas
enterrou no chão, deixando-a suspensa na parte mais alta do sitio, com visão
ampla para a estrada, e fez uma linda porteira
No início de outubro, apareceu pela
manhã bem cedo no sitio, um senhor de cor escura, não muito velho, pois
aparentava ter uns quarenta anos mais ou menos, com uma carroça puxada por um
burro e carregada de madeiras, que gritando na porteira, esperava que fosse
atendido.
--- Sr. Alessandro!... Sr. Alessandro!...
Ao ouvir seu nome sendo gritado,
Alessandro foi até a porteira e abrindo-a, perguntou:
--- O senhor deseja alguma coisa?
--- O senhor é que é o Sr. Alessandro?
Perguntou o carroceiro.
--- Sim... respondeu o italiano.
--- Sr. Alessandro... o patrão me mandou aqui,
para ajudar o senhor a fabricar os tijolos para ele. - Falou o recém-chegado.
--- Seu patrão é o Sr. Sandoval... por acaso?
--- Sim... e ele mandou falar com o senhor que
vai precisar de vinte milheiros, e mandou o burro que o senhor pediu, o
ajudante que vai ser eu e as madeiras para fazer a pipa.
--- Vinte mil tijolos?... mama mia... - e coçando a barba, disse: -- É trabalho pra essa vida e a outra... mas
enfim “ ninguém é obrigado tratar coisa alguma, mas cumprir, é”...
como é o seu nome? Perguntou Alessandro.
--- Geraldo... seu criado.
--- Muito bem... eu vou abrir a porteira e o
senhor entra com a carroça e coloca tudo lá no fundo do sítio, onde fica a
olaria, e enquanto o senhor descarrega a carroça, eu me apronto e apareço por lá.
Geraldo desceu com a carroça, e
passando por Giovanna que estava na porta da casa de bambu, cumprimentou-a,
descobrindo sua cabeça, levantando seu bem usado chapéu de palha.
--- Bom dia madame...
--- Bom dia meu senhor... respondeu ela,
enquanto observava em suspense, a carroça descer o terreno. Alessandro que
chegava logo atras da carroça, disse.
--- Não espante não... mas aquele homem que você
achou bravo, quer vinte mil tijolos...
--- Dio mio!?... E como você vai fazer
criatura?... E o sítio?
--- Deixa que eu sei administrar... isto se
chama “política de boa vizinhança”... ele mandou um ajudante... eu vou ensiná-lo
a fazer os tijolos, de modo que ele mesmo vai fazer a maior parte do trabalho.
Só no inicio é que eu vou ter um pouco mais de trabalho, mas logo, logo, eu fico livre. Vou trocar de
roupa porque pra mexer com barro, tem que ser com roupa velha.
Depois de trocar a roupa e tomar aquele
chocolate quentinho com bolo de fubá, Alessandro desceu e foi se juntar ao Sr.
Geraldo, na olaria.
--- Bem Sr. Geraldo para fabricar tijolos em
grande quantidade, temos primeiro que construir nossa pipa. Agora depois que
ela estiver pronta eu vou ensina-lo como se faz os tijolos.
--- Estou aqui pra isso... pelo tempo que o
senhor precisar de mim.
Alessandro então, com a ajuda do
Sr. Geraldo construiu a pipa, a pá e a haste de
ligação. Na ponta desta haste ficava atrelado o animal, que com sua
força, fazia girar a pá dentro da pipa de madeira, produzindo assim o barro
para a produção dos tijolos. Com a pipa pronta, Alessandro então ensinou ao Sr.
Geraldo como polvilhar a fôrma com terra seca, antes dela receber o barro cru,
e a desenforma-lo no chão, sempre em fileiras para ficar fácil a contagem dos
mesmos. Também fez mais uma fôrma de madeira, para que quando o trabalho no sítio
permitisse, pudesse também ajudar na fabricação, além do mais, ele precisava
também fabricar mais alguns para ele mesmo, pois sua casa ainda estava em
construção.
E assim se fez, com uma semana de
trabalho, Sr Geraldo já podia ser considerado um oleiro dos bons. E trabalhador
como era, sua produção era simplesmente fantástica, em média, quatrocentos
tijolos por dia. Nos dias em que Alessandro ajudava, atingiam juntos facilmente
a marca de quinhentos. Giovanna por sua vez, com pena do Sr. Geraldo, não
deixou que ele trouxesse mais seu almoço em marmita, como fez no seu primeiro
dia de trabalho no sitio, e não deixava que á tarde quando ele ia para sua
casa, saísse sem jantar também com eles. Não só Giovanna, como também seu
marido, tinham muita pena do Sr. Geraldo, pois à medida que iam se acostumando
com a presença dele no sítio, iam trocando conversa, e acabaram por ficar conhecendo
a vida do pobre homem. Ele trabalhava na fazenda do Sr. Sandoval, onde morava
numa casa de colono. Era casado e tinha quatro filhos pequenos. O que ganhava
por mês, mal dava para comprar os gêneros de primeira necessidade. Daí então a
razão porque eles faziam questão de alimentá-lo todo dia, tentando desta
maneira, amenizar um pouco sua despesa doméstica.
Depois de quinze dias de trabalho,
uma tarde Alessandro pediu ao Sr. Geraldo que em vez dele ir para casa montando
o burro como o fazia todo dia, que desta vez levasse a carroça também, para
trazer da fazenda do sr. Sandoval um pouco de lenha, para fazer a primeira
cremação dos tijolos encomendados.
E daí para frente, pouquíssimas
foram as vezes que ele deixou de levar a carroça à tarde, pois quando não a
levava para trazer lenha, levava-a com tijolos já queimados e prontos, para a
fazenda do seu patrão. O certo é, que antes mesmo de completar um mês de
trabalho, numa tarde Sr. Geraldo fez a última viagem de volta à fazenda,
levando nela os últimos trezentos tijolos que completava assim os vinte
milheiros, encomendados pelo Sr. Sandoval.
Três dias depois do término da
fabricação dos tijolos, estava Alessandro á tarde, assentando os barrotes em
cima das paredes de sua casa, preparando-a
para receber o telhado, quando
Giovanna, escutando o barulho do motor do ônibus, que vindo de
Araraquara estava parado na frente da porteira do sítio, gritou para ele:
--- Alessandro!... Ô Alessandro... deve estar
chegando alguém aqui em casa... porque o ônibus está parado lá na porteira.
De cima do andaime, Alessandro
olhou para a porteira e viu o motorista acenando com as mãos para ele,
mostrando um papel. Alessandro então fazendo o clássico sinal de calma, com sua
mão, desceu rapidamente e foi até ele. E
abrindo a porteira, ouviu o motorista perguntar:
--- É aqui que mora Alessandro Donato?
--- Sim... -- respondeu Alessandro.
--- O agente do correio pediu-me que entregasse
esta carta aqui. --Dizendo isso entregou-a a Alessandro e voltou rapidamente
para dentro do veículo e foi completar sua viagem até a cidade de Matão.
Alessandro recebeu a carta e
olhando-a, viu que se tratava da mesma carta que ele tinha escrito ao Padre
Ruffo, e que voltava ás suas mãos, graças ao endereço que ele tinha colocado
como remetente. E no envelope estava escrito em letras grandes: ENDEREÇO E DESTINATÁRIO NÃO ENCONTRADO.
Alessandro, depois de ver o ônibus
sumir na poeira da estrada, fechou a
porteira e desceu até onde estava sua mulher, e sentando no banco debaixo do pé
de Ipê, disse para ela:
--- Não é possível... perto do cais, não pode
haver tantas igrejas assim... e além do mais, em qualquer igreja que o correio
entregasse esta carta, na certa ela acabaria chegando nas mãos do padre
Ruffo... porque numa cidade, um padre conhece os outros padres... sinceramente
não estou entendendo...
--- A carta voltou?... É isso então que o
ônibus trouxe?... --Perguntou ela.
--- Sim... mas confesso que estou surpreso...
na Itália tenho certeza que isso não ocorreria... isto é, esta carta nunca
voltaria.
--- É mas aqui não é a Itália... e o carteiro,
pode até nem ter procurado direito.
--- Mas... será possível que o maledêto não
procurou direito?
Capítulo 05
Na Segunda feira seguinte, devia
ser mais ou menos umas quatro horas da manhã, porque ainda estava muito escuro,
Alessandro acordou com o choro de uma criança. Sentou-se na cama rapidamente, e
notando que Giovanna estava acordada e soluçando, perguntou:
--- Que foi?
Ela, achando que ele se referia ao
fato dela estar acordada, respondeu:
--- Eu e meus fantasmas...
--- Não... não é isso não... você não ouviu um
barulho como se fosse o choro de criança?...
--- Já te disse... são os meus fantasmas...
Novamente ouviu-se aquele choro
manhoso. E Alessandro então se levantando, disse:
--- Perdoe minha santa... mas eu estou ouvindo
uma criança chorar e tenho certeza que não se trata de nenhum fantasma...
E chegando na porta do rancho,
deparou com um embrulho de cobertores que se agitava sozinho.
--- Santa!... gritou. ... venha aqui
depressa...
Giovanna chegando correndo,
abaixou-se e pegando o embrulho nos braços, disse:
---Dio mio... um bebê... trás o lampião Alessandro... depressa.
E levando o embrulho para a cima do
colchão de palha, onde até a pouco dormiam, abriu o cobertor e à luz do lampião que Alessandro
segurava, Giovanna exclamou:
--- Um menino... um bebê... ai meu São
Genaro... ele deve estar com fome... o quê eu faço agora...
--- Tem uma mamadeira pequena aí, no meio do
cobertor. Disse Alessandro.
--- É mesmo... graças à Deus... e colocando o
bico dela em sua boquinha, foi dizendo carinhosamente. vamos neném... mama...
mama... e virando para seu marido num misto se surpresa e encanto, disse ... e
eu que estava ouvindo o choro dele há muito tempo e achava que era auto sugestão
minha.
--- Quem será que fez esta maldade... disse
Alessandro.
--- Não vamos julgar quem fez, na certa não fez
sorrindo... e agora deve estar sentindo muita dor... disse ela.
--- E o que vamos fazer com ele? Perguntou o
marido
--- Ora... criá-lo... ou você tem coragem de
jogá-lo fora.
--- Não... lógico que não... mas... mas acho
que devíamos leva-lo para Araraquara ou Matão... e... e entregá-lo numa casa de
assistência. Disse Alessandro.
--- Por quê?... Porque não podemos criá-lo?...
só porque é de cor?...
--- Claro que não... mas fomos pegos de
surpresa... você não está preparada para adotá-lo... e por acaso eu estava
preparada para ter aquele que abortei?
--- Minha santa... acontece que para aquele,
você ainda teria no mínimo oito meses para se preparar... mas para este não, nem
leite você tem... e ele ainda está muito novinho...
--- Acho que foi a Providência Divina que
mandou ele para nossa casa... e eu não vou deixá-lo sair daqui, não...
Alessandro... eu te peço... eu preciso dele... eu preciso mais dele que ele de
mim... não me impeça de ser útil... não
me impeça de ser mãe, mesmo que seja por adoção.
--- Já que queres tanto assim... então também
quero... vamos registra-lo.
Giovanna deu um pulo, abraçou seu
marido e beijando-o sem parar, disse:
--- A partir de hoje nossa vida vai ser melhor
que antes... agora... vamos ser uma
família, de fato.
--- Já que agora sou pai, tenho que ir procurar
leite numa fazenda por perto.
Falando assim olhou para fora e viu
que o dia já tinha clareado tanto que até o sol já tinha saído, e pegando um
balde saiu do rancho, deixando Giovanna vivenciar com plenitude, sorvendo todos os momentos e todos
os encantos da possibilidade de ser mãe.
****************
Enquanto recebia uma caneca de café
das mãos de Giovanna, junto com um bom pedaço de bolo de fubá, perguntou:
--- E o nome?.... já escolheu?
--- Bernardo... sempre desejei colocar este
nome em meu filho... que acha? Perguntou ela sorrindo.
--- Humm!... bonito. Respondeu ele com a boca
cheia de bolo.
--- Ai Dio mio, tem dois cavaleiros lá na
porteira... tomara que não estejam atrás da criança... disse assustada
Giovanna.
--- É o Sr. Sandoval, não está reconhecendo ele
não? - disse Alessandro, fazendo sinal para ele com a mão, que já estava indo
para abrir a porteira.
--- Alessandro... não diga para ele nada sobre
a criança... deixa que eles descubram sozinhos... tá?
--- Tudo bem... - disse ele já a caminho da
porteira.
E abrindo-a, já encontrou os dois
cavaleiros apeados e com as rédeas dos animais amarrados na cerca de arame
farpado.
--- Bom dia Sr. Sandoval... bom dia meu
senhor... disse Alessandro estendendo a mão para cumprimentar os dois.
--- Bom dia Sr Alessandro, como tem passado?
--- Muito bem... graças à Deus, vamos entrar...
E dando passagem aos dois senhores,
Alessandro encostou a porteira e caminhou junto deles enquanto conversavam.
--- Depois que eu saí da fazenda, é que eu
pensei que talvez não o encontrasse em casa. Falou o fazendeiro.
--- Mas porque esta duvida... a gente quase não
sai daqui... disse Alessandro.
--- Pois é... mas como hoje é Domingo, achei
que poderiam ter ido assistir missa em Matão.
--- A ultima missa que assistimos foi em
Araraquara... e já deve ter mais de seis meses... ah!... aqui tudo é longe, não?.... se ao
menos tivéssemos uma condução...
E chegando na porta do rancho,
Alessandro convidou-os a assentarem no banco, debaixo do pê de ipê.
--- Sentem-se ali... por favor... e virando
para o acompanhante do fazendeiro, que era na verdade um dos dois que estiveram
no rancho junto com o Sr. Sandoval, na época da primeira visita do fazendeiro,
perguntou... o nome do senhor é?
--- Alfredo... eu sou o capataz da fazenda do
Sr. Sandoval.
--- Muito prazer... mas sente-se também, vocês
aceitam um café... minha esposa acabou de coar...
--- Aceitamos sim... disse o fazendeiro, e
sentando-se completou. ... vamos sentar um pouco, mas o principal motivo da
minha vinda aqui, é acertar com o senhor os tijolos...
--- O senhor gostou deles?... perguntou Alessandro, entregando-lhes um
xícara de café.
--- Muito bons... segundo os pedreiros: muito
bem queimados, bastante uniformes e feitos com uma terra excelente.
--- Foi trabalho do Sr. Geraldo... e aliás,
como ele está?... porque não o trouxeram?
--- O Geraldo foi embora... ele foi lá para
as terras do Tietê... respondeu o
capataz.
--- Ah!... foi?... Que pena!... Bom
trabalhador, conversa pouco... disse
Alessandro.
--- É... ele estava na fazenda desde o tempo da
escravidão... depois da libertação, passou a trabalhar assalariado... mas dizem
que sempre falava nos parentes que tinha
no Tietê. E agora resolveu ir de vez
para lá.
--- Ele disse que agora tinha uma profissão... e que ia tentar a vida
trabalhando por conta própria. Completou Alfredo.
--- Não vão me dizer que ele vai fabricar
tijolos? Hein!?... Perguntou quase rindo Alessandro.
--- É... ao que tudo indica... ele vai fazer é
isso mesmo. Respondeu Alfredo e todos deram uma sonora gargalha.
--- Ah! não brinca?... Ele disse isso mesmo?
Falou novamente Alessandro, e deram outra gargalhada.
--- Mas sr. Alessandro... Enquanto os senhores
estão rindo, eu estou aqui admirando a competência do sr. ... Sua casa já está
quase pronta... E eu estive aqui há um mês atrás, mais ou menos, e o senhor
estava praticamente começando-a... Sem falar que neste mesmo tempo, o sr.
fabricou tijolos... cercou o a
entrada... Fez uma porteira... Cuidou do sitio... E fez toda armação de madeira
da casa... O senhor parece uma máquina, fico muito contente por tê-lo como
vizinho.
--- Ah... que nada... Acontece que pra cuidar
somos dois, pois minha esposa me ajuda muito... E depois para os tijolos, eu
contei com o sr. Geraldo, e como disse... Ele trabalhava com muita vontade,
tanto que praticamente ele fez quase todos sozinho...
--- És uma pessoa bem modesta sr. Alessandro...
Existem muito poucas pessoas por aí como o senhor... Bem mas, primeiramente eu
quero pedir desculpas por vir só agora, mas é que na verdade eu moro em São
Paulo, e somente uma vez por mês eu venho à fazenda, por isso eu não vim antes.
--- Quer dizer que a fazenda fica por conta do
senhor Alfredo? Parabéns também sr. Alfredo... Está um lindo cafezal...
--- Muito obrigado sr. Alessandro. Disse o
capataz.
--- Mas sr. Alessandro... sem delongas, quanto
lhe devo pelos excelentes tijolos?
--- Pelo que sei... Barro a gente não vende... E
para fazer os tijolos, o senhor me mandou um excelente empregado... Mandou a
madeira para construir a pipa... Mandou a lenha para queima-los... Mandou a
carroça para transportá-los... Portanto, não vejo porque estaria o senhor em
débito comigo.
--- Não mas isto não esta certo... Sem o senhor
aqui, eu teria que compra-los em Araraquara, e posso lhe garantir que os
pedreiros não estariam tão satisfeitos como estão, quanto a qualidade dos
mesmos... nada disso, se eu soubesse que não ia me cobrar, eu não os teria
pedido ao senhor. E além do mais... Mais tarde eu devo precisar de mais... E eu
gostaria que o senhor os fizessem para mim.
--- Mas não precisa se incomodar com isso. Vizinhos
são para isso mesmo... Quando precisar pode me falar que terei prazer em
servi-lo novamente.
--- Tudo bem... E se levantando para ir embora,
falou num tom de despedida. ... Sr. Alessandro, sou extremamente grato pelo
trabalho que o senhor realizou para mim, aceite o meu muito obrigado, e aceite
também este dinheiro, como forma não de pagamento, mas de uma ajuda para
terminar pelo menos a construção da sua casa.
--- Neste caso já que o senhor insiste... Eu
também não quero cometer nenhuma desfeita ao senhor. Disse o italiano. ... Mas
os senhores já vão?... ainda é cedo... Eu ia mostrar-lhes minha casa...
--- Não, isso vai ficar para outra
oportunidade... E entregando o dinheiro a Alessandro, começou a caminhar para
porteira, seguido pelo capataz, e no
meio do caminho, virou para traz e disse:
- Tenham um bom dia, o senhor e sua senhora, e
continue assim que vocês vão longe.
--- Obrigado sr. Sandoval... E apareça quando quiser... E você também sr.
Alfredo, volte sempre...
Alessandro acompanhou-os com os
olhos, até que montaram em seus cavalos e partiram. Depois então contou as
notas que tinha recebido e entrando dentro no rancho de bambu, onde Giovanna
ficou o tempo todo com o bebê que dormia.
--- Que faz você aí, que nem quis aparecer para
as visitas.
--- Eu fiquei com medo que ele chorasse e eles
pedissem para vê-lo. Se ele fosse da nossa cor, nenhum dos dois ia estranhar,
mas não sendo... e sendo quase um recém nascido, lógico que ia despertar
perguntas desagradáveis. Mas foi bom que ele dormiu o tempo todo.
--- Veja só o que os tijolos renderam... Cento
e vinte réis... É um bom dinheiro... E vendendo o feijão, a batata e o milho,
vai dar para acabar a casa, mobilia-la e ainda comprar talvez uma charrete,
para passearmos de vez em quando.
--- Graças a Deus... Eu não te falei que a
nossa vida ia melhorar. Disse a mulher satisfeita com a previsão feita pelo
marido.
**************
Com o que recebeu dos tijolos e com
a venda dos cereais e a batata, Alessandro conseguiu realmente acabar a casa,
comprar alguns móveis, incluindo até um berço para o bebê. Comprou de Segunda
mão uma charrete e um burro, que marcou em seu lombo à fogo, as iniciais AG. A
aquisição desta charrete tornou muito mais fácil a vida deles, pois além de
poder assistir à Santa Missa todos os domingos na cidade de Matão, tornava o
sitio mais independente do caminhão do “vandinho”, pois quando este demorava
aparecer, Alessandro mesmo levava sua produção para vender na cidade.
De forma que a vida dos dois agora
transcorria às mil maravilhas, pois com o término da construção da casa,
sobrava mais tempo para Alessandro cuidar do sítio e suas plantações e para
Giovanna, que agora tinha mais alguém dependendo dela, o pequeno Bernardo. E
como bons católicos que eram, graças à compra da charrete, nunca mais deixaram
de aos domingos irem à igreja na cidade.
No ano seguinte, já no final de
1911 aconteceu um evento muito bonito e grandioso na cidade de Matão. Muitas
pessoas e fazendeiros igualmente ilustres, foram convidadas para as solenidades
de inauguração dos Serviços de Água Potável e Esgotos da cidade.
E num Domingo então, dia da grande
festa, a cidade amanheceu com alvorada musical a cargo da banda da cidade. Houve
soltura de fogos de artifício e Missa Concelebrada, acompanhada por Canto
Gregoriano.
Alessandro, Giovanna e o pequeno
Bernardo, saíram cedo do sítio para assistir a esta tão propalada festa. E sentados no banco da charrete, os dois
conversavam.
--- Foram convidados todos os fazendeiros da redondeza
de Matão e até de Araraquara... disse Giovana.
--- Tomara que o padre Miguel Ruffo tenha
também sido convidado. Falou o marido.
--- Ah se ele estiver por lá... Eu bem que
pediria a ele para dar uma benção no Bernadinho... disse Giovanna, acariciando
o garoto que ia sentado no colo dela.
Era cedo para a missa, aliás a
missa na verdade era o ponto central da festa, e como tal, ela só aconteceu
depois dos discursos políticos.
Enquanto aconteciam estes
discursos, Alessandro e Giovanna, ficaram dando voltas pelo largo da igreja,
vendo as pessoas que chegavam. E andando por entre os presentes, enquanto
Alessandro se preocupava em ver os arreios de cavalos, charretes e carros,
Bernardo, cansou rápido e dormiu no ombro de Giovanna. Esta, por sua vez, se preocupava
em ver os vestidos das madames e as roupas da criançada. E foi reparando numa
moça jovem, muito bem vestida, que notou sem querer que ela estava acompanhada
do Dr. André. E virando rapidamente para Alessandro, disse quase que gritado.
--- Ali Alessandro... E percebendo que falara
alto demais, levou a mão á boca baixando logo a voz, agora quase sussurrando
completou o restante da frase:
-- É ele... o Dr. André... do navio, lembra?
--- É mesmo... e olha só que noiva bonita que
ele tem.
--- Ah!... mais amor e menos confiança... Eu te
mostrei ele, porque me passou na cabeça conversar com ele sobre aquele problema
meu.
--- Problema seu?... Ah! sobre o fato de não se
engravidar? Pra quê?... você já não tem um filho...
--- Ah!... você é homem e não entende nada de
mulher... Vamos lá... Vamos conversar com ele... se houver oportunidade, eu
pergunto... Vamos.
E caminhando na direção do casal,
chegaram. André conversava com sua noiva e só notou a presença deles , quando
Alessandro o chamou pelo nome.
--- Com licença, como vai Dr. André? Lembra-se
de nós?
André olhou para ele e depois para
ela, e desconcertado, disse:
--- Eu?... Oh!... Espere ai... Eu conheço vocês
sim... Vocês...
--- Do navio Andaluz... No inicio do ano
passado... Disse Alessandro ajudando-o a puxar pela memória.
--- Ah!... Isso mesmo... Vocês vieram da
Itália...
--- E eu abortei dentro do navio... Quase na
chegada ao Brasil. Disse Giovanna.
--- Isso... Isso mesmo... Seu nome... é
Gioconda.
--- Giovanna. - Disse Alessandro dando um
sorriso.
--- Desculpe-me, e esta é minha noiva, Sta.
Adriana. Mas, vejo até que com certa alegria que já tem um garoto nos braços. Vocês
italianos são de muita fibra.
Nesta hora Giovanna que trazia o
menino dormindo no ombro, forçou-o para frente, para que o médico o visse
direito. André que havia falado aquilo, com um leve sorriso nos lábios, ao ver
que o garoto era de cor, empalideceu. O mesmo aconteceu com sua noiva, que não
soube segurar o semblante alegre que fazia, mas foi ela mesma que quebrou o
gelo que ameaçava se instalar.
--- Vocês o adotaram.? Perguntou meio sem
graça.
--- Sim... - Disse Giovanna e continuou. - Porque
eu nunca mais voltei a ser normal... Depois do aborto.
--- Olha... Eu não mais trabalho en navios,
agora eu moro na cidade de Santos, onde mantenho um consultório fixo, e atendo
também na Santa Casa. Disse André.
--- Mas eu até que queria fazer uma consulta
com o senhor, mas Santos para nós fica muito longe. - Disse Giovanna.
--- Olha eu mantenho todos as fichas dos
pacientes que atendi dentro dos navios em meu fichário, lá no consultório. Eu
vou anotar o endereço de vocês e chegando lá, vou dar uma analisada muito boa
na sua ficha. De posse dos dados que nela houver, eu prometo escrever-lhes uma
carta, e indicar-lhes um médico daqui de Matão ou de Araraquara ou até mesmo de
São Carlos. Acho até mais provável que indicarei de São Carlos, porque sendo
minha terra, eu conheço mais médicos por lá.
--- Nós não vamos atrapalhar o namoro de vocês
mais, não. - Disse Giovanna, e acrescentou:
Mas eu ficaria muito grata se o senhor desse esta atenção de que fala, a
minha pessoa e escrevesse mesmo esta carta, porque eu não sei mais o que fazer.
--- Pode deixar comigo... e depois de anotar o
endereço, disse: E quando forem a Santos, apareçam em meu consultório... Agora
se nós já estivermos casados, aí o convite passa para a nossa casa, não é
Adriana?
--- Será um prazer recebe-los lá. Completou
ela.
--- Pois não doutor... mas, foi um prazer
revê-los. Disse Alessandro.
--- Até outro dia doutor... e muito prazer sta.
Adriana. - Disse Giovanna, ao se retirar
com Alessandro.
Capitulo 06
Dr. André no entanto, como disse
anteriormente, a partir do momento que ficou livre da presença do casal, nem
sua querida Adriana fez com que ele voltasse à sua normalidade, tanto que ela
mesma ficou muito intrigada, com esta mudança de atitude do noivo, e começou a
questioná-lo.
--- André... você pode enganar a qualquer um
dizendo que está tudo normal, mas não queira me incluir nesta lista também,
porque eu te conheço e sei que a presença daquele casal e a lembrança daquele
aborto, tirou completamente a sua paz.
--- Tirou sim... E à medida que penso nos dois,
estou me lembrando de tudo.
--- De tudo o quê? Insistiu Adriana.
--- Quando o navio se aproximava das águas
brasileiras, ela foi acometida de uma forte hemorragia intrauterina. E brava,
como é a maioria das mulheres italianas, ela ficou a noite toda perdendo
sangue, esperando que o dia amanhecesse para então me procurar.
--- E aí, pelo que parece, saiu alguma coisa errada?
Não foi?
--- Sim... ela ficou estéril...
--- E você não revelou a ela esta situação?
--- Não... Eu me embriaguei... Quis abandonar a
medicina... Só não fiz nada disso porque o capitão se envolveu na história e me
impediu.
--- Mas André, uma vez que você se lembrou, por
que você não aproveita e conversa com eles, e tira logo isso da cabeça?
--- Bem que eu precisava fazer isso, mas me
falta coragem...
--- Coragem?...
--- Deixa estar... eu vou amadurecer a ideia, e
talvez escreva para ela uma carta narrando tudo... Sei que é covardia minha... Mas...
Me dê um pouco mais de tempo, preciso pensar mais... Agora vamos acabar de
assistir a missa... Depois a gente conversa mais sobre isso.
*************
A casa por sua vez fora muito bem
construída, justificando plenamente todo o sacrifício que exigiu de seus donos,
ao construí-la. Pois alem do quarto de casal, dois outros foram construídos
também, sendo um para o filho, quando este estivesse maior, e o outro para hóspedes.
Uma sala grande, uma cozinha, um quarto para banho dotado de um bacião de
folha, e um vaso sanitário, cujo esgoto era canalizado para uma fossa,
localizada distante da casa, bem ao lado da olaria. Na frente, com vista para a
parte alta do sitio, havia sido feito uma varanda estreita mas comprida, onde à
tarde, depois do jantar, ficavam os dois a recordar os tempos vividos na sua
adorada Itália.
Um mês e meio mais ou menos, depois
da grandiosa festa de Matão, já no inicio 1912, num sábado depois do almoço,
estava Alessandro abrindo as covas para refazer o mandiocal, quando
inesperadamente ouviu a buzina de um carro, estacionado na frente da porteira.
Largando a enxada junto das mudas, foi atender ao chamado. Ao abrir a porteira,
reconheceu dentro do carro, o Dr. André e sua noiva Adriana. E largando a
porteira, foi até o carro cumprimentar os dois.
--- Dr. André... sta. Adriana... mas que
prazer, vamos chegar.
E André ao ver Alessandro, saiu do
carro e deu a volta para cumprimenta-lo e ao mesmo tempo abrir a porta do
veículo para sua noiva.
--- Como vai Alessandro? Eu estava na duvida se
era aqui, por isso não desci do carro antes de você aparecer na porteira,
porque eu parei em dois sítios aí para trás, e em um quase fui mordido por um
cachorro.
--- Ah... Mas aqui não tinha como o senhor
errar não... E apontando para o lado,
disse. ...Ali a placa... Eu não falei que tinha uma placa?
--- É... Agora me lembro que realmente você
falou que tinha uma placa... Mas eu tinha me esquecido completamente.
--- Mas vamos entrando. Giovanna vai ficar muito
contente, e abrindo a porteira, segurou-a enquanto os dois jovens passavam por
ela. E enquanto desciam até a casa,
continuou falando.
--Ela quase todo dia fala comigo. “É,... o Dr.
André nem ligou de me escrever...”
Postada na varanda, curiosa como toda
mulher, Giovanna que também ouvira a buzina, aguardava o retorno do marido para
saber quem é que estava chamando. Mas quando reconheceu de longe os visitantes,
deixou Bernardo sentado na varanda, e desceu as escadas correndo para encontrar
com eles no meio do caminho. E chegando até eles, foi logo falando:
--- Dr. André?... sta. Adriana?... Mas que
surpresa!... E eu que estava esperando uma carta...
--- Como tem passado minha senhora? Disse o
médico.
--- Que lugar maravilhoso é o sitio de vocês...
- disse Adriana. Olha só que beleza aquele pé de ipê amarelo... E que sombra
gostosa ele faz naquele banquinho...
Enquanto aconteciam os cumprimentos
próximo ao local da sede, ouviu-se um grito acompanhado por um choro forte.
Logicamente todos olharam rapidamente para a varanda e viram com tristeza e
espanto, o garotinho Bernardo, estatelado no chão de terra, aos pés da escada
que dava acesso à varanda.
--- Mama mia... esqueci-me dele... disse
Giovanna, correndo ao mesmo tempo em seu
socorro.
Aliás não foi só ela que correu mas
sim todos, porque não era a altura de quatro degraus que assustava, mas o choro
forte e continuado da criança, que denunciava a possibilidade de ter havido uma
conseqüência maior.
Chegando junto com a mãe, André
evitou que ela pegasse a criança e examinando-a no chão mesmo, foi falando.
--- Calma Da. Giovanna... deixe-me dar uma
olhada primeiro... não se preocupe com o choro... para o caso de traumatismo
craniano esse choro forte é até um bom sinal... mas... foi aqui... ó... ele fraturou o antebraço
direito.
--- Ah!... Doutor quebrou?... Coitadinho. Disse
a mãe.
--- E como vamos fazer agora?... Só temos
recursos em Araraquara... disse Alessandro.
--- Calma... Eu também sou médico... Deixe que
a gente dá um jeito. Alessandro, vamos... me arranje duas talas de madeira
fina, mas resistentes. E a sra. Da.
Giovanna pegue um lençol e corte algumas faixas com a largura de cinco
centímetros... e enquanto eu o levo para dentro, você Adriana... vá lá no carro
e traga minha maleta... e... dentro do porta-luvas, tem umas amostra grátis...
traga todas... que aqui eu escolho.
André então levou-o para a mesa da
sala, e o garoto continuava chorando
forte. O primeiro a chegar foi Alessandro com as réguas. Logo depois foi a vez
de Adriana com os remédios, que colocou em cima da mesa e a maleta em cima de
uma cadeira, abrindo-a.
--- Alessandro, venha cá e segure-o para mim,
mas desta forma que estou segurando... e passando as posições que segurava para
o pai do garoto, foi dizendo. ... assim... agora aqui... não se importe com o choro, deixe-o chorar...
e enquanto retirava o aparelho de
injeção da maleta, disse para Adriana... vai dar uma ajuda para a mãe
dele fazer as faixas e enrole-as para mim.
E colocando o aparelho para ferver,
André foi até seu remédios que estavam em cima da mesa e retirou de dentro de
uma caixa uma ampola. E depois de serrar seu bico com uma serrinha metálica,
quebrou-a.
Chegaram as duas mulheres e
Giovanna chorava copiosamente, se culpando pelo tombo do garoto.
Após a fervura do aparelho, André
retirou com as pontas dos dedos a seringa, isto é, o tubo externo e o êmbolo, e
começou a abaná-los para esfriá-los rapidamente. Depois com a seringa montada,
retirou a terça parte do total de líquido que continha na ampola, jogando o
resto fora. Com isso pronto, pediu a Adriana que suspendesse a camisola do
garoto e fizesse girar suas perninhas, sem forçar muito, para não alterar a
posição que o Alessandro já segurava. E dizendo.
--- Agora segurem firme que eu vou aplicar a
injeção. E depois de aplicada, disse agora pode soltá-lo Adriana... Deixe que
eu seguro o algodão no lugar... ele vai chorar mais um pouco e logo, logo, vai
dormir... só sedando-o é que conseguirei mexer no braço dele.
E mantendo-o naquela posição,
depois de alguns minutos Bernardo adormeceu. André então pegou duas mechas de
algodão e depois de procurar a posição de encache dos ossos, envolveu o
antebraço do menino com as mechas. Depois colocou as duas talas que Alessandro
tinha arrumado, e começou o processo de imobilização, enrolando as faixas que
as mulheres tinha cortado do lençol. Nesta hora, um pouco mais calma, Giovanna
disse em meio aos soluços oriundos do seu próprio choro.
--- Quando o vi no chão chorando forte... tive
medo de perdê-lo.
André que concentrado enrolava a
faixa, ao ouvir a frase de Giovanna, disse.
--- Esta sensação de perda que você sentiu, é
muito comum nas mulheres que tem um filho só... você resolve isto adotando mais
um.
--- Então doutor esta é a resposta que o senhor
tinha pra me dar... nunca mais poderei engravidar?
Pego de surpresa, André parou
momentaneamente de enrolar a faixa e depois de olhar para Adriana, que sem
graça desviou logo o olhar, ele então olhou para Giovanna e disse:
--- Infelizmente... eu não tenho outra
alternativa para consolá-la.
--- Mas doutor... eu já vi tantas mulheres
abortar e continuar se engravidando, porque só comigo isso aconteceu?
--- O que aconteceu com você, foi uma série de
coisas erradas:
Primeiro: A senhora não podia ter ficado com aquela hemorragia durante o
tempo que ficou.
Segundo: a crise de vômitos secos, que veio junto com a hemorragia,
também ajudou a complicar a situação.
Terceiro: Aquela sala de enfermaria, não estava dotada de um centro
cirúrgico, que a senhora passou a necessitar, uma vez que vinha de um logo
período hemorrágico.
Quarto: Por não ser exatamente um
centro cirúrgico, eu tive que trabalhar sem a iluminação adequada e o que é
pior ainda, sem as ferramentas necessárias e próprias, para a operação que eu
tinha de fazer na senhora.
--- Desculpe-me doutor, mas uma coisa eu não
entendi, interveio Alessandro, e continuou. ... se faltavam só três dias para
chegarmos em terra, não era melhor ter tentado estancar a hemorragia e deixado
a cirurgia para fazer num hospital?.
E André que continuou a fazer trabalho no garoto enquanto
falava e ouvia, terminou sua tarefa. E agora enquanto guardava seus pertences,
respondeu.
--- E vocês acham que eu não medi as
conseqüências?... eu hoje deito em minha cama e consigo dormir, exatamente
porque fiz naquele dia o que tinha de ser feito, e na hora certa. Porque se eu
esperasse chegar em terra como vocês afirmam, ela tinha corrido sérios riscos
de tétano e gangrena... e se isso acontecesse, que era o mais provável... ela
não estaria hoje aqui cuidando do braço deste menino.
--- E por quê o senhor não nos contou a
verdade, na época?
André entregando o garoto ainda
dormindo à sua mãe, sentou numa cadeira de palhinha, onde tos já estavam
sentados, e continuou.
--- Acho que foi aí, onde realmente errei... eu
devia ter chamado seu marido e tido uma conversa franca com vocês... mas a coisa não foi tão simples assim não...
em função desta intervenção, eu preferi tomar um porre e queria rasgar meu
certificado de Medicina... que graças ao capitão do barco eu não fiz.... e
descontrolado, ele me aconselhou a não estragar a lua de mel de vocês... e por
menor que fosse o tempo que vocês levassem para descobrir a verdade, era o que
ele pedia para que eu ainda deixasse vocês desfrutarem dos sonhos comuns a
todos casais... e eu aceitei este conselho... se fiz certo, não sei
responder...
--- Obrigado doutor por salvar minha esposa e
agora cuidar de meu filho... estamos devendo mais uma ao senhor. Disse
Alessandro.
--- Perdão doutor... se algum dia eu o tenha
julgado mau... e muito obrigado por estar aqui agora e cuidar de meu filho...
Não sei como estaríamos agora se não fosse a visita oportuna dos senhores.
Disse Giovanna.
--- Quanto a isso vocês não me devem nada... a
minha vinda aqui... era a única maneira que eu tinha para corrigir algumas
coisas... e uma carta, por melhor que fosse escrita, não seria suficiente,
creio.
--- E o Bernardo... o que fazemos com ele daqui
para frente... perguntou Alessandro.
--- Bom... eu vou deixar uma medicação para dor
e inflamação... não deixe que ele brinque com terra, para não sujar as
bandagens... porque não se pode mexer enquanto estiver em processo de
colagem... e como se trata de criança, a recuperação é muito mais rápida. Daqui
a trinta dias... vocês devem levá-lo à Santa casa de Araraquara, para que um
ortopedista tire as bandagens e faça um exame... mas é só isso... a rotina dele
não muda muito.
--- E quando ele acordar?... se ele continuar
chorando? Perguntou Giovanna.
--- Olha... esta noite ele vai passa-la, assim
meio sonolento e choramingando um pouco... mas amanhã cedo, antes da primeira
mamadeira, a senhora entra com a medicação que estou deixando e para o resto do
dia, ele vai ficando mais normal. E.. se levantando, olhou para Adriana que
também o imitou, disse. ...agora vocês nos desculpem, mas nós temos que ir
embora... porque já está ficando tarde... e nós falamos que não íamos
demorar... a esta hora é bem capaz que os sogros estejam pensando que nós
fugimos... não é Adriana?
--- Pois é... já são quase cinco horas... como
o tempo passa, não? disse ela.
--- Pois doutor, fique o senhor sabendo que
ficamos muito contentes com a visita de vocês... e quando puderem apareçam por
aqui. Disse Alessandro
--- Mas que vergonha, nem um café eu ofereci
para vocês... mas também, com o que este moleque aprontou, acabou me
descontrolando toda... retrucou Giovanna.
--- Não senhora... disse Adriana, nós
entendemos perfeitamente... um outro dia a gente volta e vamos bater um longo
papo sentadas ali, naquele banco debaixo do ipê.
E falando assim se despediram de
Giovanna, e foram descendo a escada em
direção ao automóvel. Alessandro se
incumbiu de leva-los até à porteira.
*******************
Desde aquela triste tarde de
um Sábado crepuscular do mês de janeiro
de 1912, Giovanna aceitou de vez a sua sina de mulher estéril. Nunca mais abriu
sua boca para tocar neste assunto. Alessandro por sua vez, apesar de nunca ter
se preocupado com isso, mas simplesmente por achar cedo demais, com a verdade
vindo à tona, ficou frustrado com a não perpetuação de sua raça. Mas seu
comportamento foi louvável em todos os sentidos, pois extremamente
sensibilizado com sua consorte, nunca... mas nunca mesmo, quer em conversa com
ela ou com quem quer que seja, ou até mesmo em atos, deixou sequer extravasar este
seu sentimento.
Destarte, podemos dizer que
Bernardo se transformou no alvo maior, que os dois se propuseram amar com todas
as forças de seus corações. Naquele garoto, Giovanna e Alessandro, viam
ternura, presente, vida, lirismo, poesia e esperança.
Veio o ano de 1914, e em 28 de
julho, eclode por fim na Europa, a Guerra envolvendo de um lado a Tríplice
Aliança: Alemanha, Áustria-Hungria e mais a Itália, e do outro a Tríplice
Entente, que compreendia: França, Inglaterra e Rússia.
Foram tempos difíceis estes, não só
para o nosso casal em si, mas para todos os estrangeiros que moravam aqui no
Brasil. Pois que o “vulcão tinha entrado
em erupção”, todo o mundo ficou sabendo, inclusive nós brasileiros, mas as
notícias específicas de cada país, quando chegava até nós, chegava às vezes
muito deturpada.
Nesta fase triste e melancólica que
durou de 1914 a 1918, para rechaçar a saudade de seu pais e de seus parentes, o
amor dedicado ao garoto Bernardo, foi fundamental para a sobrevivência dos
dois. E tomando como espelho a pessoa do Dr. André, o sonho de Giovanna e
Alessandro era de fazer de Bernardo, um
Médico respeitado, e para isso não mediriam esforços.
Bernardo por sua vez cresceu num
ambiente familiar, e correspondeu totalmente com o modo de criação e com o amor
a ele dedicado. Desde o dia em que
conseguiu erguer sozinho uma enxada, nunca mais deixou seu pai trabalhar
sozinho na lavoura.
A partir do ano de 1917, ano em que
completou sete anos, Alessandro foi com muito orgulho matriculá-lo no Grupo
Escolar de Matão, para fazer o curso
primário. Como moravam distante, todo dia depois do almoço, Alessandro o
levava na charrete e o buscava à tardinha, depois das aulas. Mas à medida em
que foi crescendo, passou a montar um cavalo que foi comprado unicamente para
satisfazer sua necessidade de ir a escola, e com muito orgulho Alessandro
também o marcou com as iniciais AG. Desta forma então, ele passou a ir e a
voltar sozinho, não precisando mais retirar seu pai do trabalho de manutenção
do sítio. Mas infelizmente, nem tudo sai como a gente quer e deseja, pois do
segundo ano em diante, começou a aparecer para o casal, os problemas comuns à
todos os pais que adotam crianças de cor, ou vice versa. Bernardo a principio
começou questionando sua origem, pois sendo ele de cor, jamais poderia ser
filho de pais brancos. Alessandro e Giovanna a principio conseguia contornar
tais perguntas misturando verdades e mentiras, aproveitando a inocência do
garoto. Mas a partir de 1922, quando ele completou doze anos e cursava o segundo
ano ginasial, a coisa então começou a complicar de vez.
Durante três dias seguidos, Bernardo
simplesmente se limitou a tomar a bênção na hora de dormir e na hora de ir para
a escola. Não trocou com seus pais uma só palavra que partisse dele, apenas respondia
aquilo que lhe era perguntado. Alessandro tentava consolar Giovanna, que
aproveitava as horas da escola para chorar o desamor mostrado por Bernardo,
dizendo que esta fase era passageira e que ele voltaria ao normal. Mas no
quarto dia, Bernardo chegou e ao contrário do que sempre fazia, que era
desarrear o cavalo, guardando a sela no paiol (antiga casa de bambu) e levar o
animal para o pasto atrás da inativa olaria, simplesmente apenas apeou, e
entrando em casa, foi direto ao encontro de Giovanna e Alessandro, que estavam
na cozinha. E encostando no marco da porta disse:
--- Hoje eu quero saber toda a verdade da minha
vida...
--- Ôi meu filho... você já chegou?... disse
Giovanna tentando desviar o assunto.
Alessandro sem assunto, apenas
olhou para ele e se limitou a sorrir.
--- Eu já não sou tão criança assim para que
vocês venham com historinhas para o meu lado... eu já sei que não sou filho de
vocês... e que fui deixado na porta da casa de bambu, numa madrugada... mas
agora eu quero a verdade... qual foi o preço que vocês realmente pagaram por
mim?
--- Olha aqui garoto... disse Alessandro, com
tom de voz mais ríspido. ... nós estamos fazendo uma força danada para entender
o seu problema, mas por favor meu filho, vamos com calma por que agora você já
está se excedendo.
--- Pois fique o senhor sabendo que não me
calarei enquanto não ouvir de vocês a verdade...
--- Que verdade você quer saber?... você não
acredita em nós... cada dia você vem com mais minhocas nesta cabeça...
--- Bernardo, meu filho... disse Giovanna, com
olhos cheios de lágrimas, cortando a fala do marido, percebendo que ele já
estava perdendo a calma. ... nós já te falamos tudo meu filho... não temos nada
para esconder de você... meu bambino, será que o amor que nós dedicamos este
tempo todo a você, ainda não foi o suficiente para que entendas de uma vez por
todas que nós somos de fato seus pais.
--- Meus pais coisa nenhuma... meu pai se chama
Geraldo... foi filho de escravo... e trabalhou aqui um mês antes da minha
chegada...
Ao falar isso, foi o mesmo que dar
uma chibatada no rostos de Alessandro e Giovanna, pois nunca em suas cabeças
passou tal hipótese.
--- Quem anda te falando estas asneiras?...
você acha então em sã consciência, que se eu soubesse que Geraldo era seu pai,
eu não teria te devolvido? Ralhou Alessandro.
--- É meu filho... jamais íamos aceitá-lo, se
soubéssemos quem eram os seus pais... porque teríamos medo de que depois de
criado, eles poderiam voltar um dia para levá-lo embora. Disse Giovanna.
--- Mas este sentimento, vocês acharam que meu
pai e minha mãe não tinham... pois compraram-me. Disse Bernardo.
Estas palavras agora atingiram o
cerne da reação da Alessandro, que partindo pra cima dele deu-lhe, pela
primeira vez na vida um tapa, este pegou bem no rosto. Bernardo deixando rolar
duas lágrimas nos olhos, saiu as pressas da casa. Giovanna ao ver a reação do
pai e do filho, caiu na cozinha e começou a gritar o nome dele. Alessandro,
vendo que Giovanna apenas tinha caído, levantou-a e foi atrás do garoto. Quando
chegou na varanda, ele acabava de montar o cavalo, e puxando o freio com
volúpia direcionando o animal para a saída, arrancou da cabeça do arreio o
embornal azul que continha os cadernos e os livros e arremessando-os na
varanda, disse com raiva.
--- Aprender a fazer tijolos... este foi o
preço.
E dizendo isso, arrancou com o
cavalo e na saída da porteira, virou na direção de Araraquara.
Ali na varanda ficaram os dois
estáticos, imóveis... só não digo que ali se fez um silêncio de túmulo, porque
Giovanna soluçava muito. Mas não falaram uma palavra sequer. Seus olhos por um
bom tempo, não saíram do canto da porteira semi-aberta, por onde o animal de
Bernardo virou, indo para os lados de Araraquara.
Depois de um certo tempo, a raiva
deu lugar à emoção dentro do coração de Alessandro, e ao começar também a
chorar, entrou em casa levando Giovanna para dentro. Com a bolsa contendo os
cadernos, abraçada contra seu peito, ela então falou:
--- E agora?
Depois de pensar um pouco,
Alessandro respondeu:
--- Agora... agora... nada. Porque ele tem de
esfriar a cabeça primeiro. Mesmo que eu o encontrasse ali em baixo, eu não
conseguiria fazer com que ele voltasse para casa. Por esta noite a decisão tem
que ficar por conta dele... pode até ser que daqui a pouco ele entre por esta porta
e venha nos pedir perdão...
--- Mas pode ser também que genioso como é,
nunca mais volte.
--- Mesmo que ele não volte Giovanna... embora
eu não acredite nesta hipótese... mas este é o preço que temos que pagar...
para que amanhã quando eu for procurá-lo, e tiver a sorte de encontrá-lo,
termos alguma chance de conseguir convencê-lo a voltar.
--- Então... nós vamos ficar sem ele a noite
toda?... ai Dio mio, será a noite mais longa de toda a minha vida.
--- Maldita hora em que pensei em mandá-lo
estudar... maldita hora que alimentei o sonho de fazer dele um médico
respeitado, como o Dr. André. -- Disse ele.
--- Mas isso só pode ter sido inveja de alguém,
acrescentou ela.
--- Mas pensando bem... o que ele disse aqui
hoje, nada mais é do que o reflexo do que dizem de nós na cidade... e embora eu
não queira acreditar, mas acho que fomos ingênuos demais em não suspeitar do
Geraldo. Disse Alessandro.
--- Mas até você agora está acreditando
nisso...
--- Veja bem minha santa... o homem trabalhou
conosco... você o tratou tão bem que não deixou que ele trouxesse almoço de
casa e não saísse à tarde sem jantar com a gente... ele viu ganhou confiança em
nós... já tinha quatro filhos... ia partir para uma vida desconhecida, cheia de
incertezas... se por ventura naqueles dias, sua mulher ganhou um bebê, e ele
não quisesse levá-lo com ele... com quem ele deixaria.
--- Sua mente está muito engenhosa... retrucou
Giovanna.
--- Querida... vamos ser sensatos... desfazer
de um filho, é para qualquer pessoa um verdadeiro trauma. Mas para quem foi
escravo... quem viu seus pais ou seus irmãos serem vendidos para
desconhecidos... deixar um filho, para ser tratado como um rei por uma família
sem filhos, não sei não, viu... mas eu acho que para ele isto é até uma dádiva.
E ali então sentados naquela sala,
ficaram a noite toda esperando pela volta de Bernardo, que infelizmente não
voltou. Nesta angústia, Giovanna ora chorava, ora rezava. Alessandro também,
mas em alguns momentos se levantava e saia até à porteira, para ver se por acaso ele tinha voltado e estivesse com
vergonha de entrar em casa.
Capítulo 07
Às cinco e
meia da manhã, Alessandro deixando Giovanna cochilando sentada em uma cadeira e
debruçada na mesa, foi até ao pequeno pasto perto da olaria, buscou o burro e começou
a atrelá-lo na charrete. Quando estava pronto para partir, chegou perto de
Giovanna e acordando-a com carinho, disse:
--- Minha santa... acorde
vamos...
--- He-héin!?... ele
chegou?
--- Não querida...
infelizmente não... mas eu vou sair na charrete e vou para o lado que ele
foi... posso voltar agorinha mesmo, mas posso também ter que chegar até
Araraquara... e para fazer isso, preciso primeiro saber se você está bem...
porque posso demorar o dia todo...
--- Eu sei que vou chorar
e rezar o dia todo... mas vou ficar bem... vá... leve dinheiro para você comer
alguma coisa pelo caminho... ele também vai estar com fome... vai e que San Genaro te guie...
--- Mas então levante,
vamos... procure fazer alguma coisa que possa entretê-la... porque se você
ficar entregue a estes pensamentos negros... bem, aí você pode muito bem vir a
se sentir mal durante o dia...
--- Pode ir tranquilo...
eu vou ficar bem... e tenho certeza que você vai trazê-lo de volta.
Giovanna,
ficou na varanda do sítio vendo seu marido partir e ficou rezando, pedindo a
Deus que amainasse o coração de Bernardo e fizesse com que ele perdesse nesta
sua saída de casa, esta tola revolta, que trazia inquieto seu pobre coração.
Alessandro
subiu na charrete e a fez subir a ladeirinha do sítio, saindo na porteira e
virando para os lados de Araraquara. Em sua cabeça um só pensamento: achar
Bernardo e convencê-lo a voltar para casa. Foram trinta quilômetros repleto de
paradas e investigações. Em quase todos os sítios e fazendas que tinham acesso
pela estrada, ele entrou e perguntou pelo menino. Como não encontrava
respostas, continuava avançando. E quando deu conta de onde estava, já se
encontrava entrando na cidade de Araraquara. E nesta hora, disse pra si mesmo.
"Agora fica mais difícil ... minha
esperança era encontrá-lo na estrada... em uma cidade, existe milhares de
opções... só mesmo contando com a ajuda de Deus".
E debalde,
Alessandro vagou pela cidade. Um tanto ele percorreu ainda com auxílio da
charrete, mas depois lembrando que ainda teria que voltar para casa, resolveu
deixar o burro descansando e continuou a busca a pé. Esteve em vários lugares:
na estação ferroviária; na rodoviária; na praça; na delegacia; enfim, em todos
os lugares pelos quais, no pensamento dele, o garoto poderia ter passado.
Por fim,
vendo a tarde se aproximar com rapidez, resolveu voltar enquanto ainda podia
viajar. E quando deu mais ou menos seis horas da tarde, já estava abrindo a
porteira do seu terreno. E começando a descer a ladeira de acesso à casa, viu
Giovanna na varanda, com as mãos postas e as pontas dos dedos atravessando seus
lábios. Alessandro chegou em frente a casa de bambu, desceu do cavalo,
desatrelou o burro e o tocou para o pasto.
Giovanna
assistia a tudo, sem fazer nenhuma pergunta. O silêncio que se fez presente
ali, era a resposta ou a pergunta, que nenhum dos dois queria pronunciar.
Quando Alessandro, depois de guardar a charrete, caminhou para a varanda, viu
que Giovanna já não se encontrava mais
ali. E entrando em casa, deparou com ela de joelhos, rezando no canto da
sala. Chegando por trás, disse.
--- Perdão querida... eu
sei que a decepcionei... mas andei por todos os lugares onde imaginei que ele
pudesse estar... mas infelizmente... nem notícias, eu consegui.
--- Eu tenho certeza que
você fez o pode... disse ela.
--- Ele só pode estar em
Araraquara... mas numa cidade, fica muito difícil achar uma pessoa. Vamos continuar rezando,
que talvez ele se arrependa e volte. Nossa esperança fica nas mãos de Deus...
****************
É triste
dizer isto, mas os garotos do Grupo Escolar onde Bernardo estudava, fizeram um
trabalho muito bem feito. Bernardo na verdade era filho de Geraldo, mas o
argumento de que fora comprado era totalmente falso. E realmente, tanto
Alessandro quanto Giovanna, jamais suspeitaram da hipótese do garoto ser filho
deste agregado. E Bernardo por sua vez, a principio recusou a acreditar nesta
conversa a todo custo, mas como diz o velho chavão: "água mole em pedra
dura, tanto bate que até fura", depois que passou a aceitar
definitivamente a paternidade de Geraldo, para que a revolta se instalasse em
seu coração, foi só questão de tempo. O
sentimento de pena que passou a nutrir pelo seu progenitor, por sabê-lo escravo
em tempos passados, colaborou em muito para que acreditasse nas mentiras que
lhe foram contadas.
Bernardo, quando abandonou o sítio
naquela tarde de verão de 1922, tinha
uma estatura muito privilegiada e podia muito bem passar por um jovem de mais
idade. E quando no seu desespero chegou em Araraquara, desfez do cavalo,
vendendo-o para um carroceiro. Este por sua vez, em razão do preço baixo que
pagou, não quis nem saber de onde e como surgiu tal animal. Com o dinheiro que
conseguiu, Bernardo comprou uma passagem para São Carlos e partiu no ônibus
daquela mesma noite, e nunca mais voltou ao sítio.
Os anos se passaram. Alessandro
acabou se conformando com o abandono do filho, mas sua mulher jamais aceitou
esta separação. E a partir daquela triste noite, sua saúde não mais foi a
mesma.
No início chorava dia e de noite.
Era notória a falta de motivação que havia se instalado em seu coração, pois
parecia não querer mais viver. Alessandro além de cuidar da lavoura, às vezes
tinha que cuidar também da casa, porque sua mulher tinha ocasiões que nem para
cozinhar, tinha ânimo. Para resolver este problema, Alessandro teve que
contratar uma moça chamada Emília, filha de colonos que moravam em uma fazenda
próxima ao seu sítio, para ajudar Giovanna e ainda ficar de companhia com ela,
para quando precisasse sair.
Durante este tempo, Alessandro fez
várias viagens a Araraquara. Algumas ele fez para se desfazer da produção do
sítio, outras, para comprar algum remédio para sua mulher, e em outras, para
suprir qualquer necessidade do sítio ou da própria casa. Numa destas muitas
viagens, ele contratou uma carroça para recolher as compras que fizera, e as
levassem até à rodoviária da cidade para embarca-las no ônibus de Matão. Mas ao
sentar-se ao lado do carroceiro, viu sem querer a marca AG, queimada no lombo
do animal. E sem fazer escândalo ou mesmo levantar suspeitas, conseguiu
arrancar do carroceiro o destino que Bernardo tomara naquela noite que
abandonou o sítio.
--- É... foi um rapaz de cor quem me vendeu
este cavalo, numa noite... e comprei barato, pois ele precisava de dinheiro
para ir pra São Carlos...
Essa informação Alessandro não
passou para Giovanna, embora soubesse de antemão, que era o que ela mais queria
ouvir na sua vida, mas o medo de que começasse novamente a alimentar
esperanças, e com isso complicar mais sua já precária saúde, optou ele por
fazer algumas batidas por lá, e tentar descobrir seu paradeiro primeiro.
E assim fez. Como a cidade de São Carlos era pequena, na segunda vez que chegou até lá, conseguiu
vê-lo de longe trabalhando num armazém, como condutor de uma carroça de
entregas. Sua aparência não era das piores não, continuava simpático, forte e
espadaúdo. Estava com 16 anos, mas pelo corpo que tinha, parecia ter muito mais
que isso. Alessandro preferiu esperar pacientemente que ele saísse para o
almoço. E quando saiu, Alessandro seguiu-o de longe, numa tentativa de
descobrir primeiro seu endereço, antes mesmo de tentar algum diálogo. E depois
de andar uns quinze minutos mais ou menos, viu ele entrar numa casa muito
pobre, já na periferia da cidade. Alessandro então voltou e ficou na praça à
espera dele, pois teria que voltar para o trabalho.
Ali na praça ficou pensando na
situação que Bernardo criara, e depois de muito pensar, chegou à conclusão que
seria melhor conversar primeiro com alguém naquela casa, e evitar que o garoto
tentasse enrolá-lo com mentiras, quando o abordasse. E assim fez, logo que o
viu passar novamente, quase uma hora depois retornando para o trabalho,
Alessandro se levantou e se apresentou na porta daquela pobre residência.
--- Boa tarde... disse Alessandro à jovem que o
atendeu.
--- Boa tarde... disse ela, ficando estática na
fresta da porta.
--- Eu estou procurando por Bernardo Donato?
Não é aqui que ele mora?
--- Sim... mas... ele acabou de sair.
--- Eu sou o pai dele... e gostaria de
conversar com alguém da casa...
--- Desculpe meu senhor... mas... os pais de
meu marido chamam-se Geraldo e Ana... e já faleceram... disse ela, mantendo-se
no mesmo lugar, com a porta entreaberta.
--- Marido?... vo-você... então é esposa dele?
Perguntou com aquele ar de espanto, pois muito bem sabia que Bernardo era ainda
uma criança.
--- Sim...
--- Escuta moça... eu não sei o que ele disse
para você... mas na verdade eu sou o pai adotivo dele, e vim até aqui porque
minha mulher está muito doente e precisa urgentemente vê-lo... será que eu
poderia entrar para gente conversar um pouco?
--- Olha meu senhor... não me leve a mal,
não... mas se o senhor quer conversar... nós conversaremos aqui mesmo. E
falando assim ela acabou de abrir a porta, aparecendo por inteira, mas não
permitiu que Alessandro entrasse.
Se espantado ficara
com a notícia dele estar casado, agora ficou mais ainda, ao ver que ela estava
grávida e que também era nova em idade.
--- Meu Deus... vocês são duas crianças... e...
e... desculpe-me, mas... este bebe que está esperando é para quando?
--- É para o final do mês que vem...
--- Ele nunca falou com você que teve pais
adotivos? Perguntou Alessandro.
--- Não senhor... muito pelo contrário, ele me
disse que seus pais foram filhos de escravos... e que já morreram. Insistiu
ela.
--- E como ele está?... ele é feliz?...
--- Acho que é... não sei... -- respondeu ela meio sem jeito, balançando os
ombros
--- Como é seu nome e quando foi que vocês se
casaram?... como pai que fui dele, acho que tenho pelo menos o direito de lhe
perguntar isso?
--- Eu me chamo Rosária e... nós não somos
casados, não... apenas moramos juntos...
--- Pois então vou falar com ele e vocês devem
regularizar esta situação, casando-se.
--- Olha meu senhor... se quer um conselho, não
o procure... porque... ele tem verdadeiro ódio por italianos... e pelo que
estou vendo o senhor é um...
--- Mas ele tem tanto ódio assim?
--- Ele sempre fala... que se pudesse matava a
todos.
--- Você está precisando de alguma coisa?
--- Não senhor... somos pobres, mas não estamos precisando de
nada, não...
--- Tudo bem, mas mesmo assim... se eu te desse
algum dinheiro... para suas necessidades, você aceitaria?
--- Obrigado... mas eu não devo aceitar nada...
de... de... de estranhos.
--- Pois bem... então... uma boa tarde para a
senhora... e se possível dê lembranças a ele.
Dizendo isso, Alessandro deu por terminada
a conversa e se retirou, tomando o rumo do centro da cidade.
Pelas respostas que recebeu de
Rosária, Alessandro resolveu que não deveria procurá-lo mais. Pois, em vez do
tempo acalmar seu coração, que é o que ele esperava que tivesse acontecido, acabou
foi fazendo o contrário, isto é, insuflou mais ainda seu ódio.
E na viajem de volta foi pensando
consigo mesmo: “...ainda bem que não
comentei nada com Giovanna... mais uma decepção agora, seria o caos para ela.”
**************
Alessandro tinha verdadeira
adoração por Giovanna, e vendo que sua saúde a cada dia se deteriorava mais,
resolveu de certa época para cá, juntar todo dinheiro que ganhasse, para tentar
curá-la num passeio longo por algumas cidades do Brasil.
Mas o destino mais uma vez troçava
com eles, pois quando conseguiu com muito sacrifício juntar o dinheiro, a saúde
de Giovanna se complicou de vez. Nada fazia com que ela saísse de seu quarto.
Era uma doença nova que estava começando a aparecer, segundo o que disse o médico
de Matão, em cujo consultório Alessandro a levava quase que semanalmente. Ele
ainda disse que não havia muitos recursos para combatê-la, e que a medicina
ainda não tinha nem sequer, um nome para batizá-la, mas sabia-se que o doente
perdia por completo o interesse pela vida, e que em muitos casos chegavam até
mesmo a se suicidar. E nesta prostração ficou até que numa noite, dormindo ao
lado de seu marido, seu coração cansado de sofrer, parou de bater. Giovanna
partia para sua última morada, quando ainda tinha apenas trinta e cinco anos.
Foi o velório mais triste de que se
tem notícia. Apenas alguns colonos vizinhos ao sítio compareceram. E o corpo de
Giovanna foi enterrado naquela tarde mesmo, no cemitério da cidade de Matão.
Não é preciso dizer que Alessandro
chorou o tempo todo, pois sua vida de comprometimento com ela, por si só, já
dava este testemunho, sozinha.
Alessandro bem que tentou continuar
sua vida com normalidade, mas ao cabo de quinze dias, não aguentando mais a
solidão do sítio e sentindo sobremaneira a
falta de sua esposa, resolveu, numa tentativa de minorar seu sofrimento,
fechar o sítio e partir numa viajem, visando refrescar um pouco sua alma e
suplantar este tempo de eterna agonia. E numa manhã de junho de 1928, saiu da
rodoviária de Araraquara com destino ignorado.
Em São Paulo passou uns dias.
Procurou de toda forma preencher seu tempo, fazendo alguns passeios para
conhecer a cidade. Mas não conseguiu achar lenitivo algum que o fizesse
esquecer a imagem de sua adorada Giovanna.
Inconsolável, resolveu chegar até Santos, onde segundo ele, pelo menos
teria dois amigos que poderiam ajudá-lo:
o velho padre Ruffo e o Dr. André. E
pensando assim, deixou São Paulo e foi para a cidade praiana. Lá chegou no dia
3 de julho daquele mesmo ano de 1928.
Chegou pela manhã e procurou logo
um hotel para se hospedar. Feito isso,
logo depois do almoço saiu para tentar encontrar a igreja do Padre Ruffo. Andou
por um bom tempo à procura dela, não logrando o êxito almejado. Depois então,
já cansado de procurar, teve uma ideia: se fosse até o cais, e fizesse o mesmo
trajeto que fizera com Giovanna, quando desceram do navio, ia sem duvida
encontrar a praça onde ficaram descansando um pouco, e a igreja, ele tinha
certeza que ficava pouco mais à frente. Assim então fez. Chegou ao cais e viu
ancorado um navio e em seu mastro balançava a bandeira italiana. Ali ficou por
uns momentos e seus olhos lacrimejaram,
ao recordar de sua chegada ao Brasil, junto de sua adorada Giovanna. Depois
seus pensamentos viajaram até seus parentes, que estavam tão longe daqui. E por
um momento sentiu vontade de ir embora.
Deixando o cais, seguiu pela mesma
rua que tinha andado bem devagar com Giovanna ainda se restabelecendo daquele
aborto. A rua era a mesma, mas em dezoito anos havia se modificado muito, foram
lojas que se fecharam, outras que se abriram, mas abriram-se mais do que se
fecharam. Depois então se descortinou a sua frente, o que ele reconheceu como
se fosse aquele antiga praça, pois a árvore frondosa em cuja sombra fez sua
esposa descansar estava lá. Chegando bem debaixo dela, olhou para aquele chão
onde ficaram por uns momentos sem saber a onde ir, e novamente seu semblante se
angustiou. E pensou: “quem diria que
dezoito anos depois eu aqui voltaria e já não teria comigo minha doce
Giovanna...”. E lembrando-se do padre, olhou para a frente e viu a
escada que subiu e entrou na igreja.
Seguiu então na direção dela, e chegando começou a subi-la. Mas súbito...
---- Estranho... não vejo a torre... e foi
justamente ela que me despertou o desejo de vir rezar... TEATRO?... ali está
escrito teatro... não é possível... será que transformaram a igreja num
teatro?...
Aos poucos Alessandro foi ficando
cada vez mais embaraçado. Pois a porta, em forma de arco, ainda era mesma. Não
conseguiu entrar porque ela estava trancada. Andou em volta do prédio, e não
viu os vitrais que tinha na lembrança, de tê-los vistos de dentro para fora. E
depois pelo tamanho da própria nave da igreja, estava faltando a casa
paroquial, onde ficaram hospedados por uma semana.
--- Não... não é possível... tem alguma coisa
errada aqui... ou eu pirei de vez...
Com o crepúsculo da tarde e a noite
chegando, e ainda completamente confuso, olhou para baixo e viu no meio da
escada, um velho que desenrolava um papelão, e estendendo-o ao longo de um
degrau da mesma, se preparava para dormir. Alessandro então se aproximou dele e
perguntou.
--- Meu bom velho... por favor, me tire uma
duvida... este prédio aqui, no passado não foi uma igreja?
--- Pelo que sei... ele já foi muitas coisas,
mas igreja... não, acho que não.
--- Mas deve ter algum engano... eu tenho
certeza de que estive nele há dezoito anos atrás... e era uma igreja... tanto
que até um padre me acolheu e me hospedou por uma semana... eu e minha mulher.
--- Olha moço... eu já ouvi dizer que este
teatro è malassombrado... e que um padre aparece aqui de vez em quando... eu
nunca acreditei nisso... mas como o senhor está falando com tanta firmeza...
que agora quem não quer mais dormir aqui sou eu... e dizendo isso, enrolou seu
papelão novamente, e descendo rapidamente a escada, foi embora.
Alessandro ficou mais um pouco
tentando resolver o enigma que se instalou, mas não conseguindo, se pôs a
caminho do hotel. Enquanto caminhava, ia pensando nas palavras do velho, e achava
graça da sua expressão.
--- Há!?... Fantasma... como se fantasma desce
hospedagem... procuração... dinheiro... este velho está é maluco... mas deixa
ficar... amanhã eu vou tentar localizar o Dr. André e talvez ele me ajude a
achar a igreja... a confusão deve ser
minha.
No hotel, já em seu quarto, depois
de ter jantado, voltou a lembrar do navio que tinha visto no cais, com a
bandeira italiana desfraldada ao vento. E as recordações voltaram outra vez a
povoar sua mente. E lembrou. Lembrou das
palavras que disse à Giovanna, debaixo daquele pé de ipê, quando chegaram
naquela terra crua e mal cuidada. “Aqui
está o nosso presente... sei que vamos morrer de trabalhar aqui... mas a terra
é nossa... haveremos de vencer...”, lembrou do dia em que encontraram
Bernardo na porta da casa de bambu, e pensava “Giovanna se sentiu no céu com aquele presente, e este presente foi que
a matou tão prematuramente”, lembrou de sua família, de seus três irmãos
mais velhos. E disse pra si mesmo.
“Porque insisto em ficar aqui... não tenho mais Giovanna comigo... Bernardo...
este me odeia... em casa pelo menos tenho uma família... talvez quem sabe...
posso encontrar felicidade junto deles...”. E levantando-se, chegou até à
janela e olhando para o cais e ele estava lá... majestoso... imponente... todo
aceso. “ É isso mesmo... está
resolvido... eu vou voltar para a Itália... mas, e o sítio?... que faço com
ele... já sei... vou fazer o que o padre fez conosco... amanhã eu vou procurar
o Dr. André.
E no dia seguinte, antes de sair do
hotel, verificou junto à recepção onde poderia encontrar o consultório do Dr.
André. Foi fácil, porque existia no balcão, uma lista telefônica dos
aparelhos instalados na cidade, e André
Seixas constava dela. De forma que meia hora depois, já estava sentado numa
antessala, junto com vários pacientes, que como ele aguardava sua vez de entrar
para ser examinado por ele. E numa média de meia hora para cada paciente, por
volta das onze horas, chegou a sua vez. Logo que saiu de dentro do consultório,
o cliente anterior, ele entrou.
--- Bom dia doutor... disse Alessandro ao
entrar.
--- Bom dia... respondeu André ainda de cabeça
baixa, pois terminava de fazer umas anotações, mas tão logo a levantou
reconheceu imediatamente seu cliente. ....sr. Alessandro!.... que surpresa!...
porque não me avisou que viria?.... -- disse, isso se levantando para cumprimentá-lo.
--- É doutor... mas eu também não sai com a
pretensão de vir até aqui... mas...
--- E a esposa... como está?... não vá me dizer
que deixou ela lá fora, esperando...
--- Não doutor... antes fosse assim... mas ela
faleceu. Respondeu Alessandro.
André, levou aquele choque e
empalideceu.
--- Como?... ela parecia tão forte... tão
sadia...
--- Aconteceu muitas coisas doutor... e ela se
decepcionou com a vida...
--- Como assim?... o que poderia ter acontecido
de tão forte assim?... perguntou
--- Lembra daquele garoto que adotamos... pois
é... a causa toda foi ele... ele descobriu sua paternidade, coisa que eu e
Giovanna não sabíamos... se revoltou e fugiu de casa... daí para frente...
Giovanna começou a perder o gosto pela vida... e um dia amanheceu morta.
--- Que coisa meu Deus... que tragédia... ela
devia estar com depressão...
--- Mas doutor... eu vim aqui para pedir-lhe um
favor...
--- Peça quantos quiser... disse André, demostrando estar muito sentido com as
notícias.
--- É... o senhor está trabalhando... e tem
muitas pessoas lá fora esperando ser atendidas, de forma que eu vou ser o mais
breve possível.
--- Esteja à vontade... não se preocupe com
isso.
--- Obrigado, mas... eu resolvi ontem à noite
retornar para a Itália... e já que estou aqui, gostaria de não ter que voltar
até São Carlos... isso me pouparia tempo e até possíveis dissabores.
--- Pois não sr. Alessandro... já te disse, fique a vontade... pode falar...
o que deseja que eu faça?
--- Se não for muito incômodo... eu gostaria de
pedir a permissão de passar uma procuração em nome do senhor... de forma que
quando fosse a São Carlos, fizesse a
fineza de passar o meu sítio, para o nome do meu filho Bernardo.
--- Mas perfeitamente... farei com todo
prazer... é só me deixar o endereço dele, que tão logo eu tenha que ir lá,
tomarei as providências necessárias... só fico triste por saber que o senhor
está indo embora.
--- Pois é... mas a vida reserva cada uma para
a gente, não?... mas voltando ao assunto, eu até pensei em tudo para poupar o
tempo do senhor ... veja... eu vou ao cartório aqui da cidade, e passo a
procuração em nome do senhor, e quando dispuser de um tempo, o senhor comparece
lá para assina-la... aqui neste papel, deixo escrito o endereço do garoto, e o
endereço do armazém onde ele está trabalhando, de forma que não vai ser difícil
para o senhor encontra-lo.
--- Pode deixar comigo... dentro de mais ou
menos uns dois meses, este sítio estará nas mãos dele.
--- Então doutor... muito obrigado... foi um prazer tê-lo conhecido... e desejo
todo sucesso do mundo para o senhor.
--- Mas já vai assim?... não quer mesmo
aparecer em minha casa para que possamos conversar mais a vontade?
--- Não doutor... obrigado pelo convite... e dê
lembranças à sra. Adriana... mas como eu resolvi isso muito rápido... agora
está me faltando tempo, pois ainda tenho que passar esta procuração, e depois
tentar embarcar neste navio que sai hoje à noite.
--- Então vai com Deus meu amigo... e pode
ficar tranquilo que amanhã mesmo eu vou ao cartório e, logo, logo, devo visitar
minha família em São Carlos, e providenciarei a transferência.
--- E eu agradeço mais uma vez ... muito
obrigado e... e até um outro dia.
Naquela tarde mesmo Alessandro
passou a Procuração, e o próprio cartório ficou de mandar o livro até ao
consultório do Dr. André, que ficava perto, para ser assinado. Depois ele foi
até o cais e resolveu o problema do seu embarque. De forma que naquele dia 4 de
julho de 1928, às dez horas da noite, Alessandro já estava no convés do navio
esperando acontecer a partida.
Capítulo 08
No dia seguinte, André recebeu em
seu consultório o mensageiro do Cartório de Registros de Imóveis, da cidade de
Santos, este levou-lhe o livro para colher sua assinatura e lhe entregou o
documento que Alessandro deixou firmado em seu nome, autorizando-o a transferir
o sítio para Bernardo. André recebeu aquele papel, e por uns momentos ficou a
pensar na triste história do casal de italianos. E em seu pensamento veio uma
frase que certamente levará muitos anos para esquecer totalmente, isso se
conseguir realmente esquecer: “...se
aquele aborto não tivesse o desfecho que teve, talvez estes dois ainda
estivessem juntos e felizes”.
Mas a vida continuava. Esperando
por André tinha vários clientes na sala de espera, por isso então pegando o
documento e guardando-o na ultima gaveta de sua escrivaninha, disse pra si
mesmo: “... na próxima vez que eu for
visitar meus pais em São Carlos, eu farei esta transferência... é o mínimo que
posso fazer por eles.”
Mas, não sei se por razões Divinas
ou por simples capricho do destino, apesar de muito bem intencionado, André se
esqueceu por completo do compromisso assumido com Alessandro. E por várias vezes
foi à São Carlos visitar seus pais, e em nenhuma delas, sequer lembrou de
procurar por Bernardo na cidade.
***************
Bernardo apesar de genioso, era um
garoto bem inteligente. Quando chegou a
São Carlos naquela noite trágica de sua saída do sítio, sentiu a necessidade
urgente de arranjar um emprego, para poder se sustentar daí em diante. Aquela
noite, ele a passou no banco da estação. Mas no dia seguinte, achou melhor não
dormir mais em locais tão expostos assim, como no centro da cidade, na estação,
debaixo de marquises, etc., porque se começasse a mostrar sua situação de
mero andarilho, dificilmente conseguiria
arranjar algum emprego na cidade. Por isso começou a dormir na periferia e em
casas que estivessem desocupadas. Praticando esta tática, logo conseguiu o
emprego que mantém até hoje, no Armazém Central, como carroceiro. Com o pouco
que ganhava, alugou aquela casa velha onde mora atualmente.
Rosária, ele conheceu na rua, era
como ele, filha de pais alforriados, e assim também como ele, havia saído de
casa e morava debaixo de marquises. Tentou tudo para conseguir se sobreviver
honestamente, todavia não conseguindo, começou a se prostituir para ganhar a
vida.
Andou saindo com ela algumas vezes,
e talvez a coincidência de raízes, talvez tenha sido o que mais atraiu um ao
outro. Um dia Bernardo a chamou para fazer amor em sua própria casa, e de lá
não mais saiu, sendo-lhe totalmente fiel, daí em diante.
Depois daquela visita que
Alessandro fez à Rosária, mulher de Bernardo, muitas coisas aconteceram.
Bernardo quando soube, através de
sua mulher, que Alessandro o havia procurado, ficou ainda mais revoltado por
supor que com a descoberta de seu paradeiro, na certa não mais teria sossego. E
por isso ficou por um bom tempo, alimentando de seu veneno tal qual uma
serpente de tocaia. Entretanto, como a realidade foi totalmente contrária à sua
expectativa, isto é, nunca mais Alessandro ou mesmo Giovanna, voltou a
procura-lo. Seu ódio foi dando lugar a um sentimento novo, o de arrependimento,
sentimento este que jamais tinha sentido.
Dois meses depois daquela visita,
nasceu-lhe uma menina que puseram o nome de Nair. A casa não possuía conforto
de espécie algum, isto é, não possuía móveis. Para dormir, apenas um colchão de
capim estendido no chão do único quarto, servia-os de cama. Suas roupas, que
nem tantas se somavam, ficavam penduradas em pregos fincados por toda a parede
do quarto. O salário que ganhava no armazém, mal dava para pagar o aluguel da
casa, fazer as compras do mês, comprar
querosene para o lampião e lenha para o fogão.
Todavia, se para Bernardo esta
situação não incomodava, e para Rosária, somente o fato de ter onde comer e
dormir, já a satisfazia. No entanto para Nair, recém nascida, os mofos oriundos
do colchão colocado direto no chão, aliado às noites em que rolando do colchão,
amanhecia no cimento frio, trouxeram-lhe sérios problemas de ordem pulmonar.
Estes problemas começaram com uma
rinite muito aguda, logo se transformando em uma bronquite asmática, que se
arrastou por quase dois anos. Aí então, veio a tuberculose e com ela a
necessidade de interná-la num hospital, na cidade de Campos do Jordão. Pelo
menos esta era a indicação feita por
médico da cidade, que poucas vezes visitou a menina, pois o dinheiro
para pagar as consultas, era por demais escasso.
Em razão deste problema sério, e
somando-se o fato de que aquele ódio mortal pelos pais adotivos, já tinha se
esvaziado completamente com a frieza que Alessandro e Giovanna o tinham
tratado, Bernardo começou a sentir que nesta história toda, quem saiu
prejudicado foi ele e por culpa somente sua, a filha estava agora precisando de
uma ajuda, e somente junto a seus pais adotivos, ele poderia consegui-la.
Decidiu então fazer uma visita ao
sítio para pedir perdão e tentar conseguir uma ajuda financeira, para o
tratamento da filha.
Imbuído destes propósitos,
desembarcou do ônibus de Matão na porteira do “Chão Italiano”, no Domingo, dia
12 de outubro de 1928, às dez horas da manhã. Bernardo já estava com dezoito
anos, e faziam justamente seis, que tinha deixado aquele lugar para tentar
viver sozinho.
A porteira estava encostada, sem aquele
cadeado grande e preto, que toda noite era trancado. Bernardo foi entrando, e
as recordações daqueles tempos começaram a povoar sua mente, fazendo-o esquecer
por uns momentos, a doença de sua filha.
A casa estava fechada e o mato havia
crescido muito por todo sítio, e já estava começando a sufocar o que restava da
plantação. Conhecendo muito bem os pais adotivos que teve, logo notou que o lugar
estava ao abandono, e tudo indicava que fora pilhado. Entrou na casa de bambu,
e notou a falta da charrete, das ferramentas e nem sinal de produtos colhidos,
que ficavam em estoque. Olhou no pasto, e também não encontrou o burro. Cansado
e triste, sentou no banco que ficava debaixo do pé de ipê, e chorou.
--- Como vai Bernardo? Falou uma voz feminina.
Bernardo, levantou a cabeça de
repente, e tentando se desfazer das lágrimas que corriam-lhe no rosto, meio sem
graça, reconheceu Emília, filha de um colono que morava nas redondezas.
--- Ôi Emília... disse ele, ainda com vergonha
de ter sido apanhado chorando.
--- Eu vi quando você desceu do ônibus... apesar de hoje você estar bem diferente, mas
ainda deu pra reconhecer. Disse ela.
--- O que aconteceu aqui, que não encontro
ninguém?... perguntou ele.
--- Muita coisa aconteceu depois que você foi
embora.... respondeu.
--- Como assim?... Onde estão eles?... insistiu
Bernardo.
--- O sr. Alessandro foi embora daqui... depois
da morte de Da. Giovanna.
--- O que você disse?... minha ma-mãe morreu?
Perguntou Bernardo, mantendo os olhos arregalados.
--- Sim Bernardo... depois que você foi
embora... nunca mais Da. Giovanna foi a mesma... sua saúde complicou tanto, que
nos três últimos anos, eu passei a trabalhar aqui para fazer o serviço da casa,
por que ela não saia do quarto para nada.
E Bernardo ao ouvir isto, não
conseguiu mais segurar sua lágrimas, chorando copiosamente na frente da moça. E
em meio aos soluços, continuava perguntando.
--- E onde foi enterrada?
--- No cemitério de Matão... -- Respondeu
Emília.
--- E... meu pai?... ninguém sabe onde anda?
--- Não... ninguém sabe... alguns falam que
deve ter voltado para a Itália... mas o certo mesmo, ninguém sabe... e se você
não tomar posse deste lugar... muito em breve só ficará o mato... pois a cada
dia roubam alguma coisa...
--- Eu não posso... tenho uma filha e está
muito doente. Vim aqui atrás de uma ajuda para fazer o tratamento dela. Disse
ele.
--- Bom, eu vou andando... porque tenho muito a
fazer... espero que sua filha fique boa. Dizendo isso Emília foi embora.
Sentado no banco Bernardo estava, e
sentado permaneceu. Só que agora chorava muito mais, que quando chegou e ainda
não sabia de nada do que tinha acontecido. Pensou em abrir a porta da casa, mas
como tinha que ir embora, preferiu deixa-la trancada, do que com a fechadura
quebrada, pois se já estavam saqueando o sitio, sem a fechadura então é que não
sobraria mesmo nada. Por ali Bernardo ficou até à tarde, quando pegou novamente
o ônibus que o levaria para Araraquara e de lá para São Carlos.
Só que durante a viagem para
Araraquara, Bernardo pensou muito no que deveria fazer com aquele sítio. E
dentre as muitas opções que lhe apareceu, a que ele achou melhor fazer no
momento era simplesmente vendê-lo e com o dinheiro apurado, levar sua filha
para fazer o tratamento em Campos do Jordão. Mas para isso, ele tinha que ficar
em Araraquara e conversar com o Juiz da cidade, para obter a permissão de venda
do imóvel, uma vez que este estava em nome de seu pai.
Com apenas o dinheiro da passagem
no bolso, Bernardo passou a noite, dormindo sentado no banco da estação
ferroviária. Pela manhã, estando com
muita fome, pois não havia comido nada no dia anterior, bateu na porta de uma
residência e pediu um pedaço de pão. E alimentado apenas com este pedaço de
pão, ficou até às duas da tarde, hora
que o juiz pode atendê-lo.
--- Infelizmente, eu não posso autoriza-lo a
vender o patrimônio de seu pai, sem ter provas concretas sobre o paradeiro
dele... O que me pede, é completamente ilegal.
Disse o Magistrado, na audiência.
--- Mas sr. Juiz... os vizinhos afirmam que ele
abandonou o sitio há três meses e que voltou para Itália.
--- Meu filho... já te disse... se quiseres
usufruir do sitio, morando nele e explorando seu potencial, eu te dou todo este
direito... porque você tem provas reais de que realmente é filho dele... mas
para vendê-lo, só se por ventura você conseguir comprovar a morte dele...
portanto... tenho dito.
Estas foram as últimas palavras que
ouviu do juiz, que deu por encerrada a audiência.
Bernardo, completamente
decepcionado, foi para a rodoviária e embarcou
para São Carlos.
À noitinha chegou em casa, e sua fome era tanta, que sentia uma
dor muito forte em seu abdome, dando a impressão que seu estômago tentava comer
ele mesmo.
Em conversa com Rosária, depois de
ter jantado tudo aquilo que tinha direito, Bernardo contou toda a triste
história que acontecera a seus pais adotivos. E não deixou também de comentar
toda sua frustração, em saber que, uma vez que o sítio estava abandonado, e
sendo seu por hereditariedade, também não podia transformá-lo em dinheiro para
a cura definitiva de Nair. E também que, a continuar na situação de abandono em
que se encontra, muito em breve voltará ser uma terra bruta e selvagem,
perdendo assim todas as benfeitorias que seu pai havia feito.
--- Porque então não vamos morar lá... disse
Rosária.
--- Acontece que eu não tenho a garra e nem os
conhecimentos que eles tinham... Alessandro e Giovanna, quando entraram naquele
sitio, praticamente tinham um mês de alimentos só... a água potável, eles
levaram numa lata de biscoitos... e fizeram tudo aquilo... Eu os ajudei na
medida que ia crescendo... mas era muito novo para aprender os tempos e os
modos de cultivar a terra...
Uma semana depois, Nair veio a
falecer nos braços de sua mãe. Foi um desespero total. Se não fosse a ajuda dos
vizinhos, a garotinha seria enterrada como indigente, pela prefeitura. Pois
para Bernardo só existia dívidas, era o salário que já havia recebido três
meses adiantados e a farmácia, que se tudo correr bem daqui pra frente, mesmo
assim, ainda levará um ano para paga-la, amortizando mensalmente com uma boa
parte de seu salário.
Rosária anda ficou em companhia de
Bernardo por mais uns dez dias. Mas depois simplesmente abandonou-o como se
abandona um cachorro. Bernardo chegou para almoçar e não encontrou almoço e
muito menos ela. Teve ânsias de sair e de gritar para todo mundo ouvir a sua
desgraça.
Mas controlado por seu patrão,
continuou sua vida que tinha se transformado em verdadeiro martírio, por que
não se conformava com a perda de sua filha.
Meses depois, Bernardo voltou a
visitar o sítio mais uma vez, na esperança de encontrar seu pai. Mas voltou de
lá mais decepcionado que da primeira vez, pois não havia mais nada inteiro
naquela terra. A casa tinha sido pilhada, algumas janelas foram arrancadas da
parede e como os moveis, também roubadas. O paiol havia sido derrubado, e não
havia nem um simples pé de mandioca para ser arrancado. Aquele gleba de terra
voltara simplesmente à condição de bruta e crua, tal qual um dia se apresentou
para Alessandro e Giovanna.
*****************
Foi precisamente no principio de
novembro de 1929, num dia de semana, que Dr. André, entrando no Armazém
central, perguntou ao proprietário:
--- Boa tarde meu senhor... eu procuro por um
rapaz que trabalha ou que trabalhou para
o senhor e que se chama Bernardo Donato, por acaso o senhor pode me dar
alguma informação sobre ele?
--- Pois não... é aquele que está despejando o
saco de arroz no caixote. E virando para ele gritou. ... Bernardo!... este
senhor aqui está te procurando.
--- Já vou... respondeu Bernardo, e continuou a
despejar o cereal. Depois então de sacudir o saco, jogou-o junto aos demais que
estavam vazios, e se aproximou do estranho.
--- Pois não?... disse ele.
--- O seu nome é Bernardo Donato? Filho adotivo
de...
--- Alessandro e Giovanna... adiantou o rapaz,
antes que André chegasse a pronunciar os nomes.
--- Muito prazer... disse o doutor,
estendendo-lhe a mão.
Bernardo, ainda sem entender nada,
correspondeu ao gesto do estranho,
estendendo-lhe sua mão, para o cumprimento.
--- Eu conheci seus pais quando chegaram ao
Brasil, vindos da Itália... e coincidentemente, fui também o último brasileiro
que o viu, antes de partir novamente para sua Pátria. Disse André, com
seriedade.
--- Ah!... sei... falou Bernardo, sem saber na realidade o que
falar.
--- E ele, coitado... teve a preocupação de me
procurar e pedir para que eu lhe entregasse esta procuração, para que você se apossasse
do sitio dele.
--- E quando foi isso meu senhor... foi no ano passado no mês de julho... logo
depois da morte de sua mãe...
--- E só agora o senhor resolveu me procurar?
Perguntou Bernardo.
--- Perdoe-me meu rapaz... mas eu guardei tão
bem este documento, que acabei me esquecendo completamente dele... somente na
semana passada, quando fiz uma faxina na minha escrivaninha, é que o revendoó
novamente, me lembrei do compromisso que tinha assumido de ti procurar...
espero que não o tenha prejudicado muito... mas infelizmente esta é a pura
verdade.
--- Não... o senhor não me prejudicou não...
isto é, muito não... e pegando o papel deu uma olhada na data: 04/07/1928. Seus
olhos brilharam e duas lágrimas rolaram-lhe pela face, suas pernas fraquejaram
tanto, que ele não se aguentando, sentou-se no caixote de cereais à granel, e
murmurou ... --dava tempo.
André, não entendendo a frase,
perguntou.
--- Dava tempo de quê?... não entendi.
--- Deixa pra lá... é uma história muito
longa... e talvez eu a tenha merecido completamente.
F I M
“ A Misericórdia de Deus acontece,
mas para isso precisamos dar todas as condições que Ele requer, para que
aconteça plenamente... e a tempo”
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